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É O AMOR

Ando mergulhado no amor, ultimamente. Fiquei assim depois que li “A maleta do meu pai”, de Orhan Parnuk, e vi a trilogia de Krzystof Kieslowski (“A liberdade é azul”, “A igualdade é branca” e “A fraternidade é vermelha”).

O amor sempre foi um assunto que me interessou. Outro dia minha filha encontrou um texto meu, antigo, abordando o tema.  

Pois é, ando teoricamente tomado pelo amor, mas como diz Drummond em um de seus famosos poemas, “que pode uma criatura senão,/entre outras criaturas, amar?/amar e esquecer,/amar e malamar,
amar, desamar, amar?/sempre, e até de olhos vidrados, amar?”

O que dizer, então, do belo artigo de Contardo Calligaris hoje na “Folha”, cujos trechos separei para você, leitor hipócrita, meu igual, meu irmão?

Calligaris começa seu texto assim: “a gente se declara apaixonado porque está apaixonado ou pelo prazer de se apaixonar?”

Confiram.
Fazer e receber declarações de amor é quase sempre prazeroso. O mesmo vale, aliás, para todos os sentimentos: mesmo quando dizemos a alguém, olho no olho, “Eu te odeio”, o medo da brutalidade de nossas palavras não exclui uma forma selvagem de prazer.
De fato, há um prazer na própria intensidade dos sentimentos; por isso, desconfio um pouco das palavras com as quais os manifestamos. Tomando o exemplo do amor, nunca sei se a gente se declara apaixonado porque, de fato, ama ou, então, diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar.

Simplificando, há duas grandes categorias de expressões: constatativas e performativas.
Se digo “Está chovendo”, a frase pode ser verdadeira se estamos num dia de chuva ou falsa se faz sol; de qualquer forma, mentindo ou não, é uma frase que descreve, constata um fato que não depende dela.

Se digo “Eu declaro a guerra”, minha declaração será legítima se eu for imperador ou será um capricho da imaginação se eu for simples cidadão; de qualquer forma, capricho ou não, é uma frase que não constata, mas produz (ou quer produzir) um fato. Se eu tiver a autoridade necessária, a guerra estará declarada porque eu disse que declarei a guerra. Minha “performance” discursiva é o próprio acontecimento do qual se trata (a declaração de guerra).

Pois bem, nunca sei se as declarações de amor são constatativas (“Digo que amo porque constato que amo”) ou performativas (“Aca- bo amando à força de dizer que amo”). E isso se aplica à maioria dos sentimentos.

Por isso, no fundo, meu ideal de relação amorosa é silencioso, contido, pudico.
Para contrabalançar os romances e filmes em que o amor triunfa ao ser dito e redito, como um performativo que inventa e força o sentimento, sugiro dois extraordinários romances breves, de Alessandro Baricco, o escritor italiano que estará na Festa Literária Internacional de Parati, na próxima semana: “Seda” e “Sem Sangue” (ambos Companhia das Letras).

Nos dois, a intensidade do amor se impõe com uma extrema economia de palavras (“Sem Sangue”) ou sem palavra nenhuma (“Seda”). Nos dois, o silêncio permite que o amor vingue -apesar de ele não poder ser dito ou talvez por isso mesmo.

No caso de “Seda”: te amo em silêncio porque te encontro ao limite extremo de uma viagem ao fim do mundo, indissociavelmente ligada a um outro, e nem sei falar tua língua.
Você me ama em silêncio porque sou outro: uma aparição efêmera, uma ave migrante.
No caso de “Sem Sangue”: te amo, e não há como falar disso porque te dei e te tirei a vida. E você me ama pelas mesmas razões pelas quais poderia e deveria querer me matar (os leitores entenderão).

Nos dois romances, a ausência da fala amorosa acaba sendo um presente que os amantes se fazem reciprocamente, uma forma extrema (e freqüentemente perdida) de respeito pela complexidade de nossos sentimentos e dos sentimentos do outro que amamos.

BONS COMPANHEIROS

LULA E FHC NO VELÓRIO DE RUTH CARDOSO

De Ancelmo Góis em “O Globo”:

É claro que a morte de uma pessoa tão plural, querida e respeitada como Dona Ruth já é, por si só, um convite à trégua política. Foi assim no enterro de Mario Covas, também.
Passado o luto, é bem provável que PSDB e PT voltem ao ringue, à troca de socos e mesmo a golpes baixos. Tucanos e petistas – os paulistas, principalmente – alimentam-se politicamente um falando mal do outro.
Mas o que impressiona – basta prestar atenção no teor das declarações de gente do PT e do PSDB neste momento de dor – é que as duas correntes partidárias pensam iguais. Valorizam as mesmas idéias. Os dois não gostam da comparação. Mas, no atacado, Lula pensa igual a FH e FH pensa igual a Lula.
O resto é briga de comadres.

De Luis Nassif:

Pena que as edições eletrônicas dos jornais não publiquem as fotos das edições impressas.
Hoje os jornais trazem na primeira página fotos de FHC e Lula em volta do caixão de dona Ruth. Fotos formais de duas personalidades da história do Brasil moderno.
O Valor traz o abraço dos amigos separados pela política, Lula de costas, FHC com os olhos fechados, abraçando-o fortemente. Merecia primeira página inteira.
É uma foto para entrar para a história quando se for contar a epopéia dos dois presidentes que definiram – para o bem e para o mal – o novo Brasil.

A MÃO QUE APEDREJA É A MESMA QUE AFAGA

A Vovó Socialista é conhecida por transformar pequenas notas em grandes negócios. Dizem que tá rica, o que não discordo. Gente assim, louca por dinheiro e poder, é capaz de tudo, até de vender a própria mãe.

Lendo o boletim oficial da Vovó percebo que seu alvo são sempre os políticos honestos e sérios cujo defeito (na ótica dos mercantilistas da informação, claro) é não pagarem michê a jornalista.

Adelmaro Cavalcante é um deles. Já o critiquei aqui diversas vezes, mas não com o objetivo escuso de enfraquecê-lo em benefício de fortalecer terceiros. Longe disso. Não sou pistoleiro de aluguel, tenho princípios éticos claros.

Para Vovó Socialista não ter princípios é tê-los.

Mas ela não é a única pistoleira da imprensa. Nem Adelmaro a única vitima.

Veja o caso da deputada federal Fátima Bezerra.

Fico impressionado com a quantidade de jornalistas enfurecidos com a sua candidatura. Eles estão em toda parte, nos sítios eletrônicos, nos blogs e nos jornais. Por que será, hein?  

Eu respondo me repetindo: Fátima não tem o mal hábito de pagar michê a jornalista como faz normalmente os políticos.

Sua rejeição cantada em verso e prosa pelas colunas de jornal é decorrente certamente do seu excesso de escrúpulos. O que era para ser virtude, passa a ser defeito.

Outro dia ouvi um jornalista reclamar dela porque não foi convidado para um café da manhã. Pode?

Já tive diversas brigas com a deputada, quase todas públicas. A mais famosa delas ocorreu em 2001 na padaria Gosto de Pão. Teve uma outra no Plenário da Assembléia Legislativa.

Sou assim mesmo, 8 ou 80, mas nunca fico em cima do muro. Sempre tive divergências pessoais com Fátima, mas respeito sua trajetória parlamentar e sua luta em defesa do Rio Grande do Norte. 

Não sei se ela será uma ótima prefeita, espero que sim. Tem tudo para ser, mas Carlos Eduardo “Motosserra” Alves também tinha e foi esse desastre. 

Apesar de tudo, a candidatura de Fátima é forte, e não podia ser diferente, ela é apoiada pelos dois maiores cabos eleitorais da Taba, Wilma de Faria e Garibaldi Alves (o resto é penduricalho).

O que acho injusto é esse apedrejamento público orquestrado por alguns vagabundos da imprensa.

Outro dia lembrei a um amigo que a mão que apedreja a deputada hoje é a que irá afagá-la amanhã.

Aguardem.

 

OLHO NELES

Foi com prazer que soube que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) negou uma liminar para Associação dos Magistrados do Rio Grande do Norte (Amarn).

A entidade queria derrubar a fiscalização às comarcas feita pelo Corregedor Geral de Justiça, desembargador Cristóvam Praxedes.

O que faz Praxedes?

Telefona diariamente para as comarcas para saber se os magistrados estão trabalhando.

A negativa da liminar foi assinada terça-feira, em Brasília, pelo ministro relator do Conselho Nacional de Justiça, Altino Pedrozo dos Santos.

Esta, aliás, foi a segunda liminar negada à Associação dos Magistrados sobre o mesmo assunto.

Que bom.

Os juízes vagabundos que se cuidem.

Praxedes disse hoje ao Bom Dia RN que irá ampliar o monitoramento às varas de justiça da capital.

Viva Praxedes!