Quase sempre discordo do comentarista Carlos Sardenberg, mas seu artigo “Algo saiu muito errado” publicado no jornal “O Globo” desta quinta-feira é perfeito.
Para seu governo este Blog informa: não é para miolo mole.
Confiram trechos:
Decepcionada com a política econômica de Lula, dita neoliberal, a esquerda depositava toda sua fé na diplomacia lulista, dita progressista. O presidente não se cansou de alimentar essa esperança. Ainda ontem, ao comentar o fracasso da Rodada de Doha, Lula disse que o Brasil fez de tudo para alcançar um acordo favorável aos “países economicamente menores e de agricultura mais frágil”.
Pobres contra os ricos. Daí nasce a diplomacia Sul-Sul, baseada na tese de que os países pobres são todos igualmente explorados pelos ricos, de modo que só podem ter os mesmos interesses políticos e econômicos. Portanto, parecia fácil: bastaria colocar na rua o bloco dos pobres e enfrentar os ricos de igual para igual.
Assim, a diplomacia brasileira tratou de montar grupos de emergentes, declarou vários destes, como China, Índia e África do Sul, “parceiros estratégicos”, repetiu em todos os fóruns que os ricos é que deveriam ceder nessa Rodada.
De repente, no momento decisivo das negociações desta semana em Genebra, o Brasil se viu ao lado de EUA, Europa e Japão, os ricos, e da Austrália, tipo classe média alta, os cinco apoiando um texto básico de acordo. Ficaram contra a China e a Índia, que estavam nessa mesa de negociação, compondo a bancada dos emergentes, e que logo receberam a solidariedade da África do Sul e da Argentina, esta sócia principal no Mercosul.
Algo saiu errado, não é mesmo?
Não admira que o Brasil tenha saído sem nada, sem acordo comercial e sem a liderança sobre o bloco dos pobres e emergentes. Um ex-bloco, na verdade, porque seus principais membros ou declararam-se traídos pelo Brasil (caso da Argentina) ou nem se dignaram a explicar suas posições, como China e Índia.
A liderança brasileira era passiva. Funcionou enquanto o chanceler Celso Amorim dava sua voz às broncas genéricas dos emergentes. Quando chegou o momento da condução ativa, de levar para um acordo, tudo se dissolveu, foi cada um para seu canto.
Resumindo, a diplomacia Sul-Sul não passava de uma bobagem. O mundo econômico não se divide entre pobres (incluindo emergentes) e ricos. Quando se trata de abrir mercados agrícolas da China e da Índia, o Brasil, com seu agronegócio moderno e exportador, está ao lado de EUA e Austrália, por exemplo. Quando se trata de derrubar tarifas e subsídios de americanos e europeus, o Brasil está ao lado da Austrália, de novo, e da Argentina, por exemplo.
Será que a retórica diplomática era só para fins políticos internos? Só para se mostrar de esquerda?
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