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Para entender o que a imprensa brasileira escreve sobre a crise

Para entender as notícias sobre a crise (na imprensa brasileira, claro) leia o que o jornalista Luis Nassif escreveu em seu blog. Leia e reflita:

1. Não dê muita atenção a entrevistas com economistas. Quem tem informações a dar são os operadores, os tesoureiros, os financistas especialistas em sistema financeiro. No tiroteio atual, modelos macro-econômicos não servem para nada. Você ganhará mais lendo os posts do comentarista Ruben ou do Indio Tupi.

2. Dentre os economistas, dê atenção aos que têm pensamento sistêmico e conhecimento histórico. Vale muito mais a visão de conjunto de Delfim Netto, Nakano. Quando ler um economista falando sobre inflação e Selic (Schwartsman) ou contas públicas (Velloso), pode passar batido: é falta do que falar, porque é falta de entender.

3. Conforme alertei no último post sobre “como entender”, o ponto central era a capitalização (isto é, a nacionalização) do sistema bancário mundial (particularmente EUA e Europa). Essa discussão já está vencida. Você precisa prestar atenção, agora, ao noticiário sobre o tamanho do rombo comparado com a capacidade dos Tesouros nacionais. Se o rombo for muito maior, a saída será emissão desenfreada e inflação mundial.

4. No caso brasileiro, o ponto imediato a ser analisado é a conversa que o BC terá com bancos e empresas que entraram na aventura do swap reverso. Se Henrique Meirelles fosse minimamente pró-ativo e responsável, em vez de ir aos EUA receber prêmios inexpressivos, estaria em reunião direta com esses atores, buscando saídas para o impasse. Na próxima semana, se não houver essa concatenação promovida pelo Banco Central, vão pipocar ações judiciais de empresas não querendo pagar e bancos sem recursos. E mais pólvora no noticiário.

5. Fique atento também aos leilões de dólares por parte do BC. Se começar a gastar as reservas por aí, trate você também de comprar dólares, porque o piloto sumiu.

6. Nos próximos dias, caso o BC não atue rapidamente, o travamento da liquidez começará a afetar as empresas da economia real. Haverá uma sucessão de notícias ruins. O papel do BC será o de garantir linhas de financiamento do comércio exterior e prover crédito direto para as empresas. Se se limitar a soltar o compulsório, não vai destravar o crédito. Dinheiro que cair no caixa do banco, o banco não passará para frente. Possivelmente, cairá lentamente a ficha das autoridades monetárias, que logo à frente acionarão os bancos públicos para prover essa liquidez.

7. No médio prazo, começará uma discussão forte sobre a necessidade ou não de centralização de câmbio. Se o crédito internacional não destravar, se o comércio internacional não se abrir, o rombo nas transações correntes obrigará o BC a atitudes defensivas drásticas. Os países que menos sofreram com a crise internacional, até agora, são aqueles com controles mais rígidos sobre o câmbio. Se o BC continuar permitindo essa volatilidade do câmbio, em dois tempos trará a crise internacional para cá.

8. O maior risco da economia é o amadorismo do BC. Prepare-se para acompanhar um coro de críticas cada vez maior à atuação do BC. É só analisar seus últimos passos. Ontem, em pleno tiroteio com a descoberta do “subprime” brasileiro, o BC promove uma reunião entre chefes de departamento e tesoureiros de instituições. Cadê a diretoria dente-de-leite?

9. Não embarque nessa discussão sobre redução de gastos públicos. Com o tamanho da crise, todo investimento privado será travado. Se o Estado não entrar aumentando seus gastos e seus investimentos, haverá uma recessão interna que fará a de 29 parecer refresco.

DOIS MAIS DOIS SÃO QUATRO

O jornalismo praticado na Taba me lembra uma piada antiga de Millôr Fernandes. Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim.

Alguns bocós estão querendo mudar a aritmética inventada pelos chineses. O método é tão vagabundo como a piada de Millôr. Quanto se trata de narrar os feitos dos seus caciques, dois mais dois são cinco. Já dos seus adversários, dois mais dois são três.

Aqui, doa a quem doer, dois mais dois serão sempre quatro. E pronto.

Agora veja o que escreveu o leitor José Inácio:

Não acho que José Agripino, assim como o DEM, tenham saído fortalecido desta eleição. Muito pelo contrário. Ele apenas seguiu o conselho dos marketeiros de não revidar o discurso de Lula antes da votação, pois atacar o presidente seria perda de votos garantida.

Pelo contrário. Em 2004 o DEM elegeu 32 prefeitos. E em 2008 apenas 17.

O número de votos despencou de 249.528 para apenas 166.120 (votos para prefeito em todo o estado).

Acho que essa fênix (como chamaram alguns em outros blogs) ainda é uma arara em chamas. Em 2010 só restarão as cinzas.

A VOZ DO IPOBE

A “Carta Capital” que chegou às  bancas neste sábado traz uma ótima entrevista com Carlos Augusto Montenegro, dono do Ibope.

Nela, ele desfaz muitos palpites sobre as recentes eleições municipais. Para ele só houve um fator preponderante no resultado: o continuísmo. Montenegro argumenta que a popularidade do presidente Lula, de 80%, não significa que ela seja capaz de eleger postes. “Lula não foi perdedor e nem vencedor.”

Confiram trechos:

CartaCapital: Houve algum fator predominante na decisão do eleitor nesse primeiro turno das eleições municipais? 
Carlos Augusto Montenegro:
Houve uma onda de reeleição. A reeleição já ajuda, naturalmente, a quem está no cargo. Nestas eleições municipais quem mais ajudou a todos que estavam no cargo foi Lula. Foi a eleição do continuísmo. A eleição que já favorecia quem concorria à reeleição favoreceu mais ainda com Lula. 

CC: Independentemente do partido? 
CAM:
Por conta do momento mágico que o Brasil atravessa na economia, de crédito consignado, de empregos formais, de inflação baixa, de pessoas saindo da classe pobre para a média, pessoas comendo mais, comprando bens de consumo. 

CC: É uma descrição da felicidade… 
CAM:
As pessoas estão muito felizes e, estando muito felizes, não só Lula atingiu uma marca histórica de aprovação, como os candidatos à reeleição foram beneficiados, independentemente do partido, se são aliados ou opositores do presidente. Eu sou até capaz de afirmar que Kassab, em São Paulo, foi mais beneficiado pelos efeitos do governo Lula do que Marta. 

CC: Há cidades sobre as quais se possa dizer: Lula foi vitorioso aqui, Lula foi derrotado ali? 
CAM:
Zero. Não ganhou nem perdeu em nenhuma. Primeiro, ele não estava disputando. Segundo, porque ele não entrou de cabeça. E, terceiro, o que prevaleceu foram administrações locais, currículos locais, fadiga de material de alguns, mas nada relacionado a Lula. E vou mais além: por mais que ele participe em algum lugar do segundo turno o efeito será zero. Não adianta tentar antecipar uma eleição que só vai ocorrer em 2010. 

CC: É possível estabelecer uma regra clara para esse capítulo de transferência de voto de um político para outro?

CAM: É muito difícil acontecer a transferência de voto se o candidato não tiver um apelo, um currículo, carisma. Em Belo Horizonte, houve transferência de voto de Aécio, do Pimentel, para Márcio Lacerda? Houve. Se Lacerda disputasse por outro partido qualquer, sem apoio dos dois, não daria mais de 3%. E ele teve 40%.