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MEUS COMPANHEIROS DE VIAGEM

Paulo Francis dizia que o jornalismo não pode se submeter totalmente à vontade do leitor, o que estou de acordo. Mas há leitores que seduzem e aí acabo me entregando de corpo e alma a eles. Como Oscar Wilde, costumo não resistir às tentações, é da minha natureza de homem da caverna.

Bruna Mahler quer saber o que acho de Dante e Shakespeare. Xiiiiiiiiiii. T.S. Eliot, poeta inglês naturalizado americano, em um de seus livros de crítica diz que os livros fundamentais alteram e perturbam não só a época em que saem, mas os tempos futuros e passados também. Este é o mistério da obra fundadora.

Elliot achava Dante maior do que Shakespeare. Eram os dois maiores, sem dúvida. Mas Dante reflete uma época de profunda e aceita religiosidade, enquanto Shakespeare, ao contrário, descreve tempos em que a fé já não seria firme, o cristianismo se rachara para sempre, e o homem mergulhara na dúvida total do monólogo de Hamlet.

Em suma, o mundo se afastou da paz  dantesca, mergulhando cada vez mais em todas as dúvidas shakespeareanas. Dante pertence hoje aos eruditos. Shakespeare não sai de cena no mundo inteiro.

Dele só se pode dizer o que disse ele de Cleópatra: “O passar do tempo não a faz murchar,  nem o constante uso descolore sua variedade infinita.”

Em “Literatura Inglesa”, Anthony Burgess dá a Shakespeare lugar digno mas comedido. Só que ele encerra seu ensaio sobre o bardo inglês citando Alexandre Dumas. Sabe o que diz Dumas? “Depois de Deus, foi Shakespeare quem mais criou”.

Livros não mudam o mundo, mas mudam as pessoas. Me senti assim logo depois de ler “Sobre os ombros de gigantes”, organizado pelo cientista inglês Stephen Hawking, um catatau de 1.037 páginas.

Hawking foi buscar o título na famosa frase de Isaac Newton, “Se enxerguei mais longe, foi porque estava sobre os ombros de gigantes.” Newton é um dos três gigantes da ciência moderna. Hawking considera seu “Principia Mathematica” o mais importante trabalho da história da ciência, “o fundamento científico da moderna visão do mundo”.

Newton, claro, fez muito mais do que isso, desvendou os segredos da luz e da cor, criou o cálculo diferencial (simultaneamente com o alemão Wilhelm Leibniz, com quem se envolveu numa acirrada disputa) e foi o autor de descobertas importantes em muitas outras áreas. O segundo gigante é Kepler, contemporâneo de Newton, os dois nasceram em 1571 e morreram em 1630.

Kepler fez sucesso e fortuna como astrólogo e imaginou uma polifonia no céu, a “música das esferas”. Era a trágica época da Guerra dos Trinta Anos, o que o levou a deduzir que a melodia da terra, mi, fá, mi, representava misere, fami, misere (miséria, fome, miséria), uma lamento contínuo.

Quando Einstein, o terceiro gigante, morreu, o caricaturista Herbert Block publicou no “Washington Post” um cartum famoso. Mostrava a Terra, em meio a outros planetas, com um cartaz que dizia: “Albert Einstein morou aqui”.

Einstein, que Hawking considera o gênio supremo, provou que existiam átomos e moléculas (em 1905 ainda havia dúvidas a respeito), criou a base para a mecânica quântica, ao revelar que a luz podia comportar-se como se formada por partículas, e revolucionou os conceitos de tempo, de massa, de energia e, mais tarde, com a relatividade geral, de espaço, isso tudo sem fazer qualquer experiência, usando apenas o pensamento.

Um dia perguntaram a Einstein: e se ficasse provado que a teoria da relatividade geral estava errada?
Ele respondeu: “Eu teria sentido pena do nosso bom Deus. A teoria está correta”.

Elliot, Dante, Shakespeare, Isaac Newton, Einstein. Estou quase sempre em boas companhias.

O RACISMO NA POLÍTICA AMERICANA

Mac Margolis é jornalista e correspondente da revista “Newsweek” no Brasil. Recentemente ele escreveu um ótimo artigo no “Estadão” sobre racismo nos EUA cujo título é: “Por que Obama não dispara?” 

Confiram trechos: 

A ascensão de Barack Obama na política dos Estados Unidos é impressionante, por qualquer medida. Impressiona tanto quanto a miniindústria de tomos e teorias que brotou para decifrar a meteórica trajetória do jovem forasteiro da franja política norte-americana a protagonista no palco central do país. E mesmo se não vencer o páreo presidencial, Obama já se consagrou como oráculo global, com platéia cativa no Tiergarten. Mas, junto a sua estrela, sobe uma inquietação: será que ele vence o racismo?

A dúvida faz todo sentido. Raramente os americanos tiveram tantos motivos para votar nos democratas. A folha corrida do atual governo já é do domínio público: 70% dos americanos desaprovam a atuação da administração Bush e nove em dez acham que o país está “no caminho errado”, segundo a última sondagem CBS/Washington Post. O apoio à guerra do Iraque se evaporou e agora o caos do setor financeiro paira sobre a economia real. Resumo do libreto: com os republicanos no leme, os EUA estão à deriva. Eis a tempestade perfeita para a oposição.

No entanto, a disputa pela Casa Branca continua estranhamente acirrada; a poucos dias do pleito, apenas 7 ou 8 pontos separam o líder, Obama, de seu rival, o republicano John McCain, segundo a média das pesquisas no site Real Clear Politics. Por que, perguntam os democratas e simpatizantes, Obama não está disparado na frente? Racismo, afirmam os inquietos. “Se ele fosse branco, a eleição seria uma avalanche”, disse Harold Ickes, ex-estrategista de Jesse Jackson, famoso reverendo negro que na década de 80 disputou a presidência.

Sem dúvida, preconceito e ódio racial ainda permeiam parte da sociedade americana. Quando Obama nasceu, em 1961, o preconceito ainda andava de capuz e incendiava cruzes nos grotões do Sul. Passei minha infância nos anos 50 e 60 na Carolina do Norte e Virgínia, onde respeitadas famílias ostentavam no quintal as “barras e estrelas”, a bandeira dos confederados, o lado escravagista do país que perdeu a Guerra Civil, mas não a pose.

Ultimamente há todo um gênero de análise política que bate no mesmo tambor. Reza a cartilha racial que existe um ódio, subterrâneo e dissimulado, que sorri politicamente correto à luz do dia e balbucia cólera nas sombras. Esse racismo silencioso confunde os sociólogos e dribla até as pesquisas, como as da Gallup e da Zogby, mas segundo os analistas, está sempre à espreita, marcando hora para golpear qualquer negro que ouse levantar a cabeça. Assim, o racismo é o bicho-papão do discurso político do momento. Imensurável, vira ativo perfeito para especulação alheia. Sem lastro na estatística, cresce como um derivativo em Wall Street.

Para ler o artigo na íntegra clique aqui.

DESERTO DE HOMENS

A assessoria de Micarla de Sousa enviou para a imprensa release com informações detalhadas dos integrantes de sua equipe de transição. Alguns currículos são puro tatibitate.

O de Augusto Carlos Viveiros é um deles. Diz lá entre outras coisas que o homem foi consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Fico imaginando os relatórios de Viveiros? Estou começando a entender por que ninguém confia mais em banco.

Ah, sim, o homem ainda foi secretário de Educação e Cultura de Natal na gestão Agnelo Alves o que explica, em parte, a pobreza intelectual desta Taba.

O Rio Grande do Norte é mesmo um deserto de homens.

DEMASIADO HUMANO

Há pelo menos uma figura humana extraordinária na equipe de trasição de Micarla de Sousa.

Trata-se de Marcos Valério. Mais do que um técnico graduado e competente, Valério é um ótimo escritor. E uma pessoa decente.

Conheço-o desde a época em que seus maiores companheiros era um banquinho e um violão.

Ótima escolha. Boa sorte, Valério!

ALÔ MICARLA, LEIA ESTE LIVRO

Sem cobrar um tostão, não é do meu feitio, vou sugerir a futura prefeita Micarla de Sousa a leitura do livro “A modernidade Rio de Janeiro: construção de um cenário para o turismo”, editado pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Como o título sugere, a obra é sobre a reforma urbanística realizada no Rio e seu resultado turístico.

Como diz Luisa Valle em “O Globo” desta quinta-feira, antes de ser conhecida como a ‘cidade maravilhosa’, o Rio de Janeiro já foi considerado o patinho feio da América do Sul. Suja e infestada de doenças, até o início do século XX os marinheiros eram proibidos de deixar os navios quando chegavam ao porto, e o conceito de turismo era inexistente.

Então, como o Rio passou a ser considerada uma das cidades mais belas do mundo? Essa é justamente a pergunta que o livro ‘A modernidade Rio de Janeiro: construção de um cenário para o turismo’, lançado esta semana, em Niterói.

Até meados do século XX, a principal intervenção que mudou a cara do Rio de Janeiro foi a reforma de Pereira Passos. O propósito era, justamente, transformar o Rio no cartão postal do Brasil.

O Rio era considerado uma cidade atrasada, colonial, por isso era preciso mudar essa cara, principalmente para atrair mais investimentos, além da mão de obra qualificada – afirma o autor do livro, professor Marcello de Barros Tomé Machado, da Faculdade de Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF).

De acordo com o professor, foi apenas depois da reforma urbana feita pelo prefeito Pereira Passos na cidade que o Rio de Janeiro recebeu o primeiro grupo de turistas na cidade, em 1906.

Daí para frente, o Rio começou a receber mais pessoas interessadas em apreciar a beleza da cidade. Na época da inauguração do Teatro Municipal, o Rio já era considerado por muitos a ‘Cidade Maravilhosa’, termo que acabou se consolidando com a marchinha de André Filho e que acabou se tornando o hino oficial da cidade – disse o autor do livro.

O estudo, considerado inédito, aborda, além das reformas de Pereira Passos, que aconteceram entre os anos de 1902 e 1906, até a Exposição Internacional de 1922 e a Copa do Mundo de 1950.

Entre as obras construídas durante o período estão os principais monumentos da cidade, desde o Cristo Redentor, as avenidas Central e Beira Mar – que chegou, inclusive, a ser considerada a mais bela do mundo -, até a construção do Maracanã, considerada a última grande intervenção urbana no Rio.

Imperdível. O livro custa somente 27 reais.