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O TOMBO DE CESAR

A foto aí de cima é emblemática dos anos Cesar Maia como prefeito do Rio.

Mostra o prefeito do Rio com as quatro patas no chão. O tombo registrado pelo fotógrafo de “O Globo” ocorreu durante a inauguração da Cidade da Música, sábado à noite.

A propósito, o vídeo do tombo já rola no You Tube.

O QUE É TRANSVERSALIDADE

Woden Madruga na oposição é certamente um dos nossos melhores colunistas. O que vai abaixo não me deixa mentir. Confiram:

E houve a entrevista da prefeita eleita Micarla de Souza, ante-véspera do Dia do Natal, os shopingues lotados e os camelódromos do Alecrim também. Os jornais da manhã seguinte deram destaque, apesar do Papai Noel está na cabeça e nos bolsos de todos. Colunas e blogues seguiram o mesmo rumo e alguns até chamaram a atenção para determinadas concepções intelectuais, conceitos e frases de dona Micarla. Esta, por exemplo: “A Prefeitura de Natal ainda não tem uma missão definida. Vamos definir todos juntos numa missão e também a integração entre os novos auxiliares.”

Nada mais claro e objetivo. Achei perfeito o entendimento da nova prefeita. Claro, todos sabem que desde o capitão Rodrigues Colaço a Prefeitura de Natal ainda não tem missão definida. Teremos  agora, a partir de primeiro de janeiro de 2009, quando os novos auxiliares municipais se integrarem nessa tal missão. Aliás, pelas próprias palavras da prefeita eleita a missão está mais ou menos engendrada, segundo seus avançados princípios de administração pública, de gestora da coisa pública, certamente fruto do “choque de gestão” que ela vem se exercitando em viagens a Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte.

Vejamos o que disse Micarla, mais adiante:

- Na minha administração eu vou cobrar a transversalidade.

Pronto. Está aí à chave do sucesso, a palavra mágica, o abre-te sésamo, o eureca: Transversalidade. Nada mais simples, nada mais claro. Um ovinho de Colombo, agora descoberto neste venturoso ninho municipal, anunciado pela futura prefeita: “Na minha administração vou cobrar a transversalidade”.

E o que danado é transversalidade? Cutuco Houaiss e o mestre, seguro e paciente, define: “Transversalidade, um substantivo feminino, é a qualidade ou característica do que é transversal”. E o que é transversal? O mestre responde:

- Transversal é adjetivo. Pode ser entendido como aquilo cujo sentido é oblíquo em relação à determinada referente. Mas,  numa linguagem mais clara, mais didática, quer dizer aquilo que cruza, atravessa, passa por determinado referente, não necessariamente na oblíqua. Mais ou menos como Transverso: o que está situado no sentido oblíquo, atravessado, desviado.

Houaiss ainda cochicha: “Não esqueça que oblíquo, que significa inclinado ou o que não é nem direito ou reto, também pode ser malicioso, ardiloso, dissimulado. Se tiver alguma dúvida, pergunte a Capitu.”

O MORDOMO DA CASA BRANCA

Pegando carona nas festividades de fim de ano, quero brindar o leitor deste blog com uma bela reportagem de Wil Haygood, publicada em novembro no “The Washington Post”.

Haygoog escreve sobre Eugene Allen, o mordomo negro da Casa Branca, que trabalhou para oito presidentes americanos, de Dwight Eisenhower a Ronald Reagan.

Confiram:

Por mais de três décadas Eugene Allen trabalhou na Casa Branca. Em boa parte desse tempo pesavam sobre o país as leis de segregação racial. Eugene voltava a pé toda noite para casa, onde sua mulher, Helene, o mantinha fora da cozinha.
Na Casa Branca Eugene trabalhava mais perto dos pratos sujos do que da grande escrivaninha do Salão Oval. Helene não se importava e irradiava orgulho. Afinal, o presidente Harry S. Truman  (1945-1953) chamava seu marido de Gene. O presidente Gerald Ford (1974-1977) gostava de discutir golfe com ele. Eugene viu oito administrações começarem e terminarem , trabalhando seis dias por semana. “Nunca perdi um dia de trabalho”, diz.
Ele era o homem na cozinha, o homem nos bastidores da história. Trabalhou para oito presidentes, seis dias por semana. Estava lá quando a história racial dos Estados Unidos era feita: a marcha de 1963 em Washington, as cidades queimadas, a Lei dos Direitos Civis, os assassinatos.
Quando começou a trabalhar na Casa Branca, em 1952, a lei proibia que negros como ele usassem os banheiros públicos em sua terra natal, a Virgínia. “Nunca tivemos nada”, diz Eugene, de 89 anos, relembrando aquele tempo.
A sede do poder americano teve um relacionamento problemático com os negros. Em 1901 o presidente Theodore Roosevelt convidou o escritor negro  Booker T. Washington para uma reunião na Casa Branca. Temendo represálias, Roosevelt não anunciou o convite. Mas a notícia vazou e gritaria foi rápida. Em um editorial, o “Memphis Scimitar” escreveria, na feia linguagemn da época: “Não faz muito tempo o presidente Roosevelt se gabou de sua mãe ser uma mulher sulista. Ao convidar um negro para sua mesa ele presta uma péssima homenagem a sua mãe”.  Cinqüenta anos depois convites para jantares na Casa Branca ainda eram carregados de subtexto racial.
O primeiro negro a ter um cargo político ou executivo no governo americano foi E. Frederick Morrow, executivo de relações públicas da emissora de televisão CBS. A equipe da campanha do presidente Dwight Eisenhower (1953-1961) ficou impressionada com o trabalho diligente de Morrow durante a campanha que lhe prometeu um emprego na Casa Branca se Eisenhower fosse eleito. “Ike” venceu, mas Morrow acabou sendo exilado no Departamento do Comércio. Sentiu-se tão diminuído que apelou a amigos republicanos para forçar o presidente a cumprir sua promessa. A pressão surtiu efeito e Morrow foi nomeado funcionário administrativo para projetos especiais.
Na maior parte do tempo sua função era lidar com assuntos relacionados à decisão da Suprema Corte que acabou com a segregação racial nas escolas, o boicote aos ônibus liderado por Rosa Park no Alabama e a crise escolar em Little Rock, no Arkansas, em 1957.
Antes de ser mordomo de presidentes, Gene Allen trabalhou como garçon em um resort em Hot Springs, na Virgínia, e em um clube de campo em Washington. Ele e a mulher se conheceram numa festa de aniversário, em 1942. Ele era tímido demais para pedir o telefone dela, então Helene tratou de descobrir o dele. Casaram-se um ano depois. Em 1952 Gene conseguiu o emprego de copeiro na Casa Branca. Lavava pratos, arrumava a cozinha e polia a prataria. Ganhava US$ 2 400 por ano. Com o tempo foi promovido a mordomo.
“Fazia aniversário junto com o presidente Ford”, afirma. “Havia sempre festa na Casa Branca e a senhora Ford dizia que era meu aniversário também. E então eles cantavam “Parabéns a Você” para o mordomo. E Gene, que usava um smoking para trabalhar, enrubescia. “Jack Kennedy era muito legal e a senhora Kennedy também”. Eugene conta que estava na cozinha da Casa Branca no dia em que JFK foi assassinado. Recebeu um convite para ir ao enterro, mas resolveu trabalhar. “Alguém tinha que servir o pessoal que voltava do funeral.”
A primeira-dama Nancy Reagan um dia veio procurá-lo na cozinha. Queria lembrá-lo do jantar para o chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Kohl. Ele disse que estava bem adiantado nos preparativos e que já havia escolhido a porcelana. Mas Nancy disse que ele não estaria de serviço naquele di. “Você e Helene vão ao jantar como convidados do presidente Reagan e meus”, lembra-se Eugene. “Estou dizendo! Acho que sou o único mordomo já convidado para jantar de Estado.”
O tema raça envenenou até mesmo os anos Kennedy. Em 1963 o presidente convidou 800 negros para comemorar os 100 anos da Proclamação da Emacipação. Louis Martin, militante democrata que ajudou a preparar o evento, pôs o nome do artista negro Sammy Davis Jr. e de sua mulher, a branca May Britt, na lista de convidados.
A Casa Branca riscou os nomes e Martin listou-os de volta. Segundo Martin, Kennedy ficou passado ao ver o casal inter-racial andando pela Casa Branca. JFK ficou vermelho e instruiu os fotógrafos a não tirar nenhuma foto
Lyndon Johnson (1963-1969) dedicou uma dose considerável de energia à legislação sobre os direitos civis, chegando a indicar o primeiro negro para a Suprema Corte. Mas isso não se traduziu num número apreciável de negros trabalhando em seu gabinete. Clifford Alexander diz que era o único negro na Casa Branca de Johnson, primeiro como funcionário do Conselho de Segurança Nacional e depois como conselheiro associado. “Estávamos lutando por algo bastante novo”, diz Alexander. “Você sabia quanto o seu emprego significava. E você sabia que o presidente Johnson estava lutando a seu favor.”
Colin Powell se tornou o negro com posição mais alta na Casa Branca quando foi nomeado assessor de Segurança Nacional do presidente Ronald Reagan, em 1987. Condoleeza Rice teria a mesma posição na administração de George W. Bush (2000-2008).
O mordomo Gene se lembra de ver Powell e Rice no Salão Oval. Gene estava servindo lanche. E não podia deixar de observar que os negros estavam se aproximando do poder. Estavam mais perto do que ele jamais sonhara. Ele dizia a Helene quanto orgulho isso lhe dava.
Gene foi promovido a maître em 1980, depois de 34 anos de serviços. O presidente Reagan escreveu-lhe uma nota simpática. Nancy Reagan lhe deu um abraço apertado. Numa parede do porão há fotos de todos os presidentes que Gene serviu. Há uma pintura que o presidente Eisenhower lhe deu e uma foto do presidente Ford abrindo presentes de aniversário com Gene circulando por perto.
Dias antes da eleição de Obama, entrevistados em sua casa, Gene e Helene especulavam sobre o que significaria a eleição de um negro como presidente. “Imagine só”, disse Helene. “Isso seria realmente uma coisa impressionante”, afirmou Gene.
“Nós já passamos bastante da idade de sair para passear”, disse Helene, de 86 anos. “Mas nunca se sabe. Se ele chegar lá, certamente seria legal dar uma passada pela Casa Branca de novo.”
Eles falaram sobre como rezariam para Barack Obama chegar à Casa Branca. Votariam juntos, como sempre. Ela iria à seção eleitoral apoiada na bengala em uma mão e nele com a outra. E faria o almoço depois.
Na véspera da eleição Helene tinha uma consulta médica. Gene acordou e cutucou-a. Ele passou para o lado dela na cama. Cutucou de novo. “Eu acordei e minha mulher não”, disse mais tarde. Alguns amigos e membros da família se apressaram a visitá-lo. Ele quis fazer café. Tiveram que expulsar o mordomo da cozinha.
A senhora com quem ele foi casado durante 65 anos foi enterrada na sexta-feira, dia 7, três dias depois vitória de Obama. E ele ficou sem ter com quem comentar sobre o negro destinado a ocupar o Salão Oval da Casa Branca.