
Apontado como suspeito de financiar empresas controladas por Carlos Cachoeira, o dono da Delta Construções, Fernando Cavendish, diz em entrevista exclusiva à Folha que não tem relações com o suposto esquema e que o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) não é seu “sócio oculto”, como sugere a Procuradoria-Geral da República.
A Delta é desde 2007 a campeã no recebimento de recursos federais e, pela investigação da Polícia Federal, atuaria com Cachoeira em troca de favorecimento em contratos públicos.
“Vou quebrar”, diz o empresário, para quem as suspeitas levarão à suspensão de pagamentos e ao corte do seu crédito.
Documentos obtidos pela Folha mostram que empresas que doaram para três políticos, entre eles o governador Marconi Perillo (PSDB-GO), receberam dinheiro do grupo de Cachoeira -transferido ontem para um presídio de Brasília.
Hoje o Congresso deve criar a CPI do caso, mas o governo trabalha para “cadenciar” o seu ritmo como forma de reduzir o possível dano a aliados.
MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA
Em uma conversa gravada, o senhor disse que, se colocar R$ 30 milhões na mão de político, ganha negócio. O senhor já pagou suborno?
Nesta conversa, eu debatia com sócios da Sygma, empresa [da área de petróleo e gás] que adquirimos por R$ 30 milhões. Eles não performavam. Eu os chamei para renegociar o preço. E me gravaram clandestinamente. Eu queria dizer: ‘Olha, R$ 30 milhões, se eu fosse fazer projetos políticos, doações de campanha…’
Ganho qualquer negócio.
A expressão foi muito ruim. Ficou horrível, horrível. E agora vou encarar uma CPI da pior forma possível.
Já pediram propina ao senhor? E o senhor pagou?
Olha só, o que se pede são apoios políticos, para campanhas, que é uma coisa legitimada, oficializada e que várias empresas fazem.
Se apoio projetos, faço doações, não é que depois vá ganhar [licitações para obras]. Mas posso estar pelo menos bem representado, tenho a oportunidade de ter informação dos futuros investimentos, das prioridades políticas.
Por que megaempresas fazem doações a campanhas? Vão ter informação. Não é normal? Não é toma lá dá cá. Tem licitação.
A relação de empreiteiras e políticos no Brasil são historicamente promíscuas.
Toda relação entre seres humanos que buscam a intimidade do dia a dia, de trabalho, gera às vezes alguns desvios. Essa intimidade, essa promiscuidade, não são só as construtoras que fazem isso. Só que tem um problema: a gente mexe com dinheiro público. E aí não podemos errar, não podemos pecar.
O senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) é sócio oculto da Delta, como diz o Ministério Público?
Não. Nunca vi o Demóstenes. Ninguém é sócio da Delta. Põe isso na sua cabeça. Já inventaram dezenas de sócios para a Delta. [O ex-governador do Rio Anthony] Garotinho foi sócio da Delta, o [ex-prefeito do Rio] Cesar Maia foi sócio. Esquece isso. Não existe. É factóide. Continuar lendo →