O editor Luiz Schwarcz lembra sua convivencia com o poeta Waly Salomão narrando um episódio engraçado envolvendo o poeta, Caetano Veloso e o próprio Schwarcz no início dos anos 1980.
Uma leitura agradável neste sábado cheio de som e fúria.
A Brasiliense realizava eventos na Rua Barão de Itapetininga aos sábados de manhã, retomando a tradição que começara com Monteiro Lobato. Pelo que ouvi dizer, o criador do Sítio do Picapau Amarelo agitava a Barão de Limeira.
Quando entrou na editora de Caio Prado Jr, Lobato aprofundou ainda mais a vocação, já presente na tradicional editora de esquerda, propiciando ao centro da cidade mais um destacado ponto de encontro intelectual e literário.
Bem antes da minha chegada ao mundo editorial, Caio Graco recuperara a atividade de Lobato, montando um palanque na frente da livraria aos sábados, em pleno calçadão, e convidando escritores, artistas e políticos para darem seu recado.
Caetano Veloso acabara de lançar por uma pequena editora (Pedra que ronca) o livro Alegria Alegria — uma reunião de textos esparsos, organizada por Waly Salomão. Contrariando seus horários costumeiros — Caetano só consegue dormir quase com a chegada da manhã e inicia o dia bem após o almoço — o compositor aceitara participar de um debate no calçadão.
O entrevistador escolhido era Matinas Suzuki Jr e o mestre-sala, Waly Salomão. Este último, não sei se a pedido do próprio Caetano ou por algum motivo que ninguém acabou sabendo qual era, gorou o evento antes mesmo dele se iniciar.
Alegou que as condições eram péssimas — fazia mesmo muito calor — e o debate logo após começar, acabou.
É possível que Caio tenha feito algo que desagradou ao artista e a seu poeta-protetor. Ninguém esperava porém que Caetano se retirasse do local, com o circo armado e um razoável público à espera de ouvi-lo. Waly saiu aos brados, como sempre.
Muitos anos depois procurei Waly Salomão para que participasse da coleção Circo de Letras. Eu desconhecia o detalhes do affair no calçadão. Caio, sem mágoas, não se opôs à ideia de ter Gigolo de bibelôs, o emblemático livro de poemas e prosa poética, reeditado por nós.
Nessa época eu havido retomado meu contato com Matinas, através do Leia livros. Também já conhecia Caetano Veloso pessoalmente, e por meio dele fui apresentado a Waly Salomão. Lembro-me bem do dia, ou melhor, da noite. Foi num jantar na Pizzaria Guanabara no baixo Leblon.
Na mesa estavam uma adolescente muita quieta, namorada do Caetano, chamada Paula Lavigne, e Luciana de Moraes, de quem me lembro com saudades. Com Waly presente, poucos podiam tomar a palavra, ou para tal tinham que falar num volume considerável. Luciana conseguia.
Caetano, é claro, tinha seus trunfos para furar o discurso do poeta. Eu, muito jovem, tinha pouco a dizer e me preocupava mesmo em ouvir e não falar nenhuma besteira. Continuar lendo →