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A CIDADE QUE A VELHA MÍDIA ADORA FALAR MAL. E POR QUE TODO O MUNDO QUER MORAR LÁ?

A velha mídia brasileira (“Veja”, “Folha”, em particular) adora falar mal do Rio.

Por quê?

E por que todo o mundo quer morar lá? Inclusive quem fala mal da cidade?

Indagado pelo repórter Jorge Kajuru se aceitava dirigir a seleção brasileira,  Pep Guardiola disse que sim desde que fosse para morar… no Rio.

OLHO NO OLHO

Acabo de assistir em DVD um bela entrevista com o roteirista italiano Tonino Guerra que morreu em março aos 92 anos.

Tonino foi colaborador de Antonioni, Fellini, Vittorio de Sica e dos irmãos Taviani.

O que diz Tonino? Que as pessoas devem deixar de amar somente as historias. Precisam amar também como são contadas as historias.

Nessa quesito nada se compara a Antonioni, o homem da imobilidade. Seus personagens não se mexem. Tudo é imóvel: pensamentos e personagens.

Fellini por sua vez é cheio de movimento.

Antonioni é o mestre dos planos-seqüência. Como esquecer a sequência final de “Passageiro: Profissão Repórter” (1975)?

A câmera passeia pelo quarto e observa a movimentação de fora, atravessa as grades da janela e continua a observar.

Uma obra-prima, sem dúvida. E um grande momento de Antonioni que consegue iluminar os filmes subtraindo os feios.

Confiram abaixo:

O SUICÍDIO É UM ATO DE PUBLICIDADE OU UM PROBLEMA FILOSÓFICO

O que dizer quando alguém na alvorada da existência dar cabo de sua vida?

Ao se suicidar, diz alguns manuais, a pessoa confirma apenas sua vontade de viver. Se eu me suicido é porque minha vontade de viver era impossível de ser satisfeita.

A única maneira de se separar da vontade de viver é a renúncia. Eu mato em mim a vontade de viver.

Há quem considere o suicídio um ato de publicidade. Camus via o problema pelo lado filosófico.

O debate está aberto.

GIGOLÔ DE BIBELÔS

O editor Luiz Schwarcz lembra sua convivencia com o poeta Waly Salomão narrando um episódio engraçado envolvendo o poeta, Caetano Veloso e o próprio Schwarcz no início dos anos 1980.

Uma leitura agradável neste sábado cheio de som e fúria.

A Brasiliense realizava eventos na Rua Barão de Itapetininga aos sábados de manhã, retomando a tradição que começara com Monteiro Lobato. Pelo que ouvi dizer, o criador do Sítio do Picapau Amarelo agitava a Barão de Limeira.

Quando entrou na editora de Caio Prado Jr, Lobato aprofundou ainda mais a vocação, já presente na tradicional editora de esquerda, propiciando ao centro da cidade mais um destacado ponto de encontro intelectual e literário.

Bem antes da minha chegada ao mundo editorial, Caio Graco recuperara a atividade de Lobato, montando um palanque na frente da livraria aos sábados, em pleno calçadão, e convidando escritores, artistas e políticos para darem seu recado.

Caetano Veloso acabara de lançar por uma pequena editora (Pedra que ronca) o livro Alegria Alegria — uma reunião de textos esparsos, organizada por Waly Salomão. Contrariando seus horários costumeiros — Caetano só consegue dormir quase com a chegada da manhã e inicia o dia bem após o almoço — o compositor aceitara participar de um debate no calçadão.

O entrevistador escolhido era Matinas Suzuki Jr e o mestre-sala, Waly Salomão. Este último, não sei se a pedido do próprio Caetano ou por algum motivo que ninguém acabou sabendo qual era, gorou o evento antes mesmo dele se iniciar.

Alegou que as condições eram péssimas — fazia mesmo muito calor — e o debate logo após começar, acabou.

É possível que Caio tenha feito algo que desagradou ao artista e a seu poeta-protetor. Ninguém esperava porém que Caetano se retirasse do local, com o circo armado e um razoável público à espera de ouvi-lo. Waly saiu aos brados, como sempre.

Muitos anos depois procurei Waly Salomão para que participasse da coleção Circo de Letras. Eu desconhecia o detalhes do affair no calçadão. Caio, sem mágoas, não se opôs à ideia de ter Gigolo de bibelôs, o emblemático livro de poemas e prosa poética, reeditado por nós.

Nessa época eu havido retomado meu contato com Matinas, através do Leia livros. Também já conhecia Caetano Veloso pessoalmente, e por meio dele fui apresentado a Waly Salomão. Lembro-me bem do dia, ou melhor, da noite. Foi num jantar na Pizzaria Guanabara no baixo Leblon.

Na mesa estavam uma adolescente muita quieta, namorada do Caetano, chamada Paula Lavigne, e Luciana de Moraes, de quem me lembro com saudades. Com Waly presente, poucos podiam tomar a palavra, ou para tal tinham que falar num volume considerável. Luciana conseguia.

Caetano, é claro, tinha seus trunfos para furar o discurso do poeta. Eu, muito jovem, tinha pouco a dizer e me preocupava mesmo em ouvir e não falar nenhuma besteira. Continuar lendo