Esqueçam as baboseiras que os bocós andaram escrevendo por aí sobre o Fla-Flu. Como dizia Nelson Rodrigues, só as partidas medíocres precisam ter qualidade. O Fla-Flu basta.
Faz sentido.
Ora, que clubes no mundo podem se gabar de ter 32 confrontos entre si com mais de 100 000 pessoas nos estádios?
Um desses, aliás, com 194 mil pessoas (foto), o recordista de público em uma partida interclubes até hoje.
Muita gente ignora, mas Fla-Flu foi uma criação de Mário Filho, irmão do dramaturgo.
Em uma de suas crônicas, Nelson conta que a grã-fina das narinas de cadáver não sabia quem era a bola, mas conhecia a magia do Fla-Flu.
Vale pena conferir na íntegra:
NELSON RODRIGUES
Grã-Fina das Narinas de Cadáver
Amigos, pensam vocês que o futebol tem a simplicidade dos outros esportes. Não, não tem. Não é apenas técnico e tático como os outros. O futebol é mágico. Quantas vitórias, quantas derrotas, desafiam todo o nosso raciocínio e toda a nossa experiência?
Vocês se lembram de 50 e quem não se lembra de 50? O Brasil não podia perder. Técnica e psicologicamente estava em condições muito superiores às do adversário. Só a presença da nossa torcida (duzentos e cinquenta mil brasileiros) bastava, ou devia bastar para esmagar o Uruguai. Mas perdemos o jogo. Não podíamos perder e perdemos. Aconteceu o seguinte: – vitoriosa, a “Celeste” ainda fez a volta olímpica. Tivemos que aplaudir a nossa própria humilhação. Pois este episódio negro na nossa história esportiva foi um milagre contra nós, um milagre pró-Uruguai.
Aí está dito tudo: – há milagres no futebol. E a reação da torcida é a mais imprevisível. Amanhã, há um Fla-Flu, mais um Fla-Flu. É um clássico que magnetiza toda a cidade. Ontem, encontrei-me com a grã-fina das narinas de cadáver. Ela veio para mim feliz do encontro. Disse: – Vou ao Fla-Flu. Imaginem vocês que, outro dia, ela me entra no “Mário Filho” e pergunta:- ” Quem é a bola? ” Não sabia quem era a bola, mas era tocada pela magia do Fla-Flu. Sabe quem é o Fla-Flu e não sabe quem é a bola.
Venho acompanhando o destino do clássico, desde a minha infância profunda. Naquele tempo, era Flamengo x Fluminense. Foi Mário Filho que alguns anos depois criou o diminutivo fascinante : – Fla-Flu. Eu queria dizer que o Fla-Flu apaixona até os neutros. Ou por outra: – diante do formidável clássico não há neutros, não há indiferentes. Há sujeitos que não gostam do Fluminense, não gostam do Flamengo, mas estão lá. Encontrei um desses, no último Fla-Flu. No intervalo, fui tomar um café. No caminho, vi o meu conhecido num canto, estrebuchante. E mais: – babava na gravata. Aquilo me escandalizou: – “O rapaz! Você não é Flamengo não é Fluminense. Estás torcendo por quem?” Arquejou: – “Torço contra os dois”. Mas torcia, o desgraçado…
Não interessa que seja ou não um grande jogo. Só as partidas medíocres precisam ter qualidade. O Fla-Flu vale emocionalmente. Ou por outra: – é Fla-Flu e basta.

