À ESPERA DOS BÁRBAROS
Poucos livros provocaram um impacto tão grande em minha vida quanto “O deserto dos tártaros”. Li em 1984, de uma sentada só.
De cara me identifiquei com o personagem central do livro, Giovanni Drogo. Considero sua leitura necessária e obrigatória.
A obra de Dino Buzzati é a preferida da jornalista Lucia Riff em “Dez livros que abalaram meu mundo”, da Casa da Palavra. Alguns trechos:
“O deserto dos tártaros” não é um livro que agrade a todos que o lêem – é evidentemente um grande livro, um grande texto do Buzzati (é a sua obra mais conhecida, sem dúvida), mas não é uma leitura agradável. O livro é duro, em certos trechos chega a ser quase monótono. É magnífico e terrível ao mesmo tempo. E me emociona pensar neste livro agora, passados quase 22 anos da primeira leitura.
A história começa com o jovem oficial do Exército italiano (Giovanni Drogo) assumindo seu primeiro posto, num forte de fronteira. Ele chega ao forte com as melhores expectativas, com previsão de permanência de dois anos, mas logo se decepciona: o forte Bastiani está localizado numa fronteira “morta”, considerada de pouca ou nenhuma importância estratégica. As chances de uma invasão inimiga (os tártaros do título do livro) são remotíssimas, e a única tarefa que cabe aos ocupantes do forte é montar guarda nas muralhas e vigiar a planície deserta. Não há como alguém se entusiasmar com o tedioso trabalho ou com o grupo de militares que serve no forte. Não há diversão possível. Não há rigorosamente nada para fazer.
Drogo percebe que o forte não é o que ele imaginava, e não quer perder tempo de juventude naquele fim de mundo – imediatamente se organiza para ficar apenas quatro meses no forte. Quatro intermináveis meses, e só!
Mas, aos poucos, Drogo vai se adaptando à nova e dura rotina. E vai se anestesiando. Nas cartas para a família, mente. Um pouco para não assustar a mãe. Um pouco para se convencer de que a realidade não é assim tão ruim. À medida que os dias passam, que os meses passam, Drogo se afasta mais e mais da vida que sempre sonhou, e se acostuma ao forte, adiando sonhos e planos. E, num certo momento, a transferência imediata já não é mais tão desejada. Ou possível. No final dos primeiros quatro meses, aceita ficar mais vinte meses. E no final dos 24 meses, já não tem o mesmo ímpeto de buscar outras alternativas para sua carreira.
Drogo se deixa convencer de que seus motivos para permanecer no forte são nobres, louváveis. Que age de boa-fé. Não percebe que se prende à rigidez do ambiente, à disciplina da vida no quartel, ao ritmo monótono do serviço na fronteira. Acredita que não tem press – que o bom da vida está a sua espera, que tem todo o tempo do mundo pela frente.
Os meses vão passando, as estações se revezando… Ao completar dois anos de forte, Drogo aceita permanecer por dois anos mais. Aqui e ali algum acontecimento mais relevante marca a vida no forte, altera a rotina. Mas, no geral, é sempre mais do mesmo.
Na primeira vez em que Drogo volta para casa, quatro anos depois de partir, já se sente um estrangeiro na sua cidade, e não fica à vontade nem mesmo junto da mãe. Uma tentativa de transferência acaba não dando certo, e Drogo, injustiçado e preterido, volta para o forte. Nesse momento poderia ter pedido baixa – mas acaba preferindo evitar mudanças bruscas de vida. Ilude-se de que saberá provar seu valor no forte, que tudo terá valido a pena.
Drogo consome os anos seguintes aguardando uma possível chegada dos inimigos – com uma luneta, percebe-se ao longe uma diminuta luz nos confins do deserto. Serão os tártaros, construindo uma estrada? Quinze anos se passam até que a movimentação estrangeira seja visível a olho nu. E o tempo continua passando, implacável – vemos agora Drogo com 54 anos, já major, debilitado por sérios problemas hepáticos. Os estrangeiros, depois de construir a estrada, sumiram de vista. Voltarão algum dia?
Eis que a tão esperada invasão, o momento que justificaria todos aqueles anos de espera, de vigília, de isolamento, de exílio, de sacrifício pela pátria, acontece. E, quando chega a notícia de que os tártaros estão vindo “aos batalhões”, Drogo está doente, de cama. Chegam reforços, o forte vira o centro das atenções do país – mas é tarde para Drogo. Ele é removido, e morre sozinho numa estalagem, no caminho de volta para a cidade.



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12/11/08 às 10:49
É exatamente isso. O livro não é um folhetim, não prende o leitor. No final, porém, quando se coloca a cabeça no travesseiro, é como ter levado um tiro de canhão.