Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

A MANIA DE FALAR MAL DO BRASIL

A velha mídia brasileira se especializou em retratar o Brasil da pior maneira possível. Essa visão de que somos piores em tudo se estende à sociedade que parece se deleitar em falar mal do país.

O professor e sociólogo Alberto Carlos Almeida examina a questão de forma lúcida e claro na revista ÉPOCA desta semana. Confiram:

Grande parte da mídia brasileira se especializou em falar mal do Brasil. Graças a isso, a percepção que a sociedade tem de si mesma, em diversos aspectos, é inteiramente equivocada.

Vende-se algo que não existe: a visão de que somos piores em quase tudo, quando comparados com a maioria dos países desenvolvidos. Nem mesmo as boas notícias são recebidas de maneira positiva. Por exemplo, a recente informação de que ultrapassamos o Reino Unido quanto ao PIB foi divulgada cheia de ressalvas, afirmando-se que o PIB per capita é um indicador mais relevante e coisas do gênero.

A covardia com o Brasil atinge o ápice quando se tenta comparar nosso sistema político com o dos outros países. Afirma-se que o presidencialismo é pior do que o parlamentarismo, mas não dizem que os países parlamentaristas têm gastos públicos sistematicamente maiores do que os presidencialistas e que é justamente por isso que a Europa se encontra mergulhada na pior crise econômica de sua história recente.

Diz-se que o sistema eleitoral distrital é melhor do que o proporcional com lista aberta, mas não dizem que um dos países que melhor escapou da crise mundial é a Suécia, que adota o mesmo sistema eleitoral que o nosso tão criticado Brasil.

Como sempre, a lista de críticas ao Brasil é muito longa. É difícil imaginar como um país tão ruim, com tantas coisas negativas, possa ter chegado aonde chegou. Opa, para os críticos ele não chegou a lugar algum, continua lá atrás, sendo um dos países mais problemáticos do mundo.

A crítica permanente ao Brasil está fundamentada em excesso de provincianismo: como não se conhece o que acontece em outros lugares, assume-se que aquilo que conhecemos de muito perto, em detalhes, é muito ruim.

A greve dos policiais da Bahia e a desordem e criminalidade resultantes é um prato cheio para a frase típica dos que sofrem de complexo de inferioridade: “Isso só acontece no Brasil”. É possível ver o outro lado da moeda, o lado positivo. A greve dos policiais baianos será resolvida de uma forma inteiramente diferente de greves congêneres que ocorrem nos Estados Unidos. Ao contrário de nosso vizinho mais rico, aqui não será dado um aumento salarial que comprometa a situação de nossas finanças públicas.

É isso mesmo. Para aqueles que não sabem, vários Estados e municípios americanos estão quebrados porque concederam aumentos salariais a perder de vista para policiais e bombeiros. Esse é o caso, tão bem relatado por Michael Lewis em seu livro “Bumerangue”, recentemente publicado no Brasil, da Califórnia e dos municípios de San Jose e Vallejo.

Aqueles que idolatram o federalismo americano deveriam saber que justamente por isso lá não há nada que se assemelhe a nossa Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Governadores e prefeitos estão livres para exercer sua prerrogativa de gastar muito, endividar o setor público ao ponto de comprometer seu funcionamento para as futuras gerações. Não serve aqui o argumento em abstrato, o princípio teórico, de que descentralizar é necessariamente melhor do que centralizar.

Os policiais da Bahia e de outros Estados estão limitados pela nossa centralização, que se traduz na possibilidade de ter algo como a LRF. Mais do que isso, a simples discussão ora em curso sobre a PEC 300, um sinal evidente de nossa centralização, mostra que jamais nossos Estados ou municípios ficarão na situação, como é o caso de Vallejo, de ter somente um funcionário público, aquele que tem como função pagar os salários, aposentadorias e pensões de policiais e bombeiros. Isso mesmo, em Vallejo, os sinais de trânsito estão todos piscando permanentemente em amarelo. O município, falido, não tem recursos para sustentar uma burocracia que faça valer as leis de trânsito. Isso jamais ocorreu ou ocorrerá no Brasil.

Na Grécia, não há cartões de crédito na grande maioria dos estabelecimentos comerciais. A razão é simples: o pagamento em dinheiro vivo está a serviço da mais fácil e completa sonegação de impostos. Não adianta dizer que os gregos são uma piada e isso e aquilo. Sempre foi assim, desde o momento em que a Alemanha aceitou a entrada da Grécia no acordo que estabeleceu o euro. Os gregos vão muito além de não utilizar cartões de crédito. Em ano eleitoral, o governo relaxa o controle fiscal, faz vista grossa para o não pagamento de impostos.

É muito interessante que o Brasil seja tão ruim, mas que um país europeu utilize o (não) pagamento de impostos como moeda de troca eleitoral. Cá entre nós, comprar votos em comunidades pobres é muito mais redistributivo. Nosso sistema de controle fiscal pode não ser germânico, mas certamente temos uma burocracia muito mais avançada do que muitos países europeus. Os críticos contumazes do Brasil não sabem disso, são provincianos demais para imaginar que algum país supostamente desenvolvido possa não controlar o pagamento de impostos, como se faz na nação de Macunaíma.

Aliás, nada mais distante do espírito germânico do que Macunaíma, nosso herói sem caráter. Ele é um retrato da nossa incredulidade. O brasileiro jamais acredita no que se diz. Essa credulidade alemã não faz parte da nossa cultura. Foi graças a isso que os alemães sempre acharam que a Grécia estava cumprido as metas de gastos definidas pelo tratado de Maastricht.

Um burocrata ou um ministro da Fazenda brasileiro jamais confiaria na Grécia quanto a isso.
O livro “Bumerangue” é um excelente antídoto para o excesso de pessimismo quanto ao Brasil. Michael Lewis mostra que nos Estados Unidos, Grécia, Islândia, Irlanda e Alemanha aconteceram e acontecem coisas terríveis, que jamais atingiram e provavelmente nunca farão parte de nossa realidade. É claro que temos coisas ruins e abomináveis, mas isso está longe de ser o cenário catastrófico pintado pelos críticos. Todo país e toda sociedade têm problemas, mas também não somos piores do que os outros em tudo ou quase tudo.

Os alemães de Lewis são crédulos ao ponto de serem os únicos que, já com a crise no horizonte, continuavam comprando os papéis do “subprime” em Wall Street. Aliás, quando um “trader” americano tinha dificuldade para vender tais papéis, recebia invariavelmente a seguinte recomendação: “Venda para aqueles otários de Dusseldorf, que eles compram de tudo”. Não creio que algum dia será possível trocar otários de Dusseldorf por otários de São Paulo ou do Rio de Janeiro, e muito menos de Brasília.

Os brasileiros acreditam em coisas mágicas como o boto da Amazônia ou o nêgo d’água em Minas Gerais. Ambos cumprem o mesmo papel de justificar, em uma sociedade conservadora, a gravidez de mulheres solteiras ou a traição das casadas. Isso causa muito menos prejuízo aos cofres públicos do que os duendes nos quais acreditam.

Isso mesmo, na Islândia se acredita em duendes e quando uma empresa como a Alcoa foi se instalar por lá teve que aguardar por seis meses, até que fosse concluído um estudo que verificaria que em determinada área não havia duendes. É a mesma Islândia que transformou dezenas de pescadores em banqueiros. Isso mesmo, os banqueiros islandeses tinham sido pescadores durante toda sua vida profissional.

Mais do que isso, David Oddsson, que foi primeiro-ministro e presidente do Banco Central islandês, nunca teve experiência alguma com bancos e era poeta de formação. Talvez por isso os bancos alemães tenham colocado US$ 21 bilhões na Islândia, a Holanda tenha apostado US$ 305 milhões, o Reino Unido US$ 30 bilhões e a Universidade de Oxford tenha perdido US$ 50 milhões. No Brasil, é impensável que alguém que não tenha familiaridade com o mercado financeiro assuma a presidência do Banco Central. Mesmo assim, há aqueles que insistem em criticar tudo ou quase tudo.

Trata-se de uma questão de ponto de vista, de como olhamos o Brasil. O exemplo da centralização é emblemático. Não há nada necessariamente melhor em ser tão descentralizados como são os Estados Unidos.

Uma postura cética indica que o que melhor e pior, o benéfico e maléfico, dependerão das consequências. A comparação entre os gastos com funcionários públicos estaduais e federais no Brasil e nos Estados Unidos mostra que a centralização política e administrativa tem sido mais efetiva para conter seu descalabro. Indo além, ser um pouco macunaímico quando se trata de comprar papéis do “subprime” teria sido bom para os germânicos. Nada disso se escolhe: são coisas que as nações são ou não são. Ultimamente, temos sido os grandes beneficiários de ser como somos.

17 respostas para 'A MANIA DE FALAR MAL DO BRASIL'

  1. valmir lopes Diz:

    a quem interessa possa…

  2. Francisco Bezerra Diz:

    Trabalho com crédito e descarto em torno de um terço dos proponentes que atendo com uma simples consulta aos cadastros restritivos. Uso a mesma metodologia em outras áreas. Por exemplo, quando ouço alguém afirma “Isso só acontece no Brasil” ou outra frase do gênero “complexo de viralatas”, costumo perguntar “Que outros países você conhece a ponto de tecer comparações com boa margem de segurança nessa área em que está criticando?”. O descarte nesses casos passa facilmente dos 95%. Serasa=Seraza=Semraza=Semrazao=Sem razao=Sem razão.

  3. Marcos Monner Diz:

    Quando leio alguma refência a imprensa como “mídia, velha mídia, etc.” já identifico de cara a canalha petralha tentando desqualificar quem realmente informa. Com todo o crescimento e desenvolvimento do Brasil que começou com a morte da inflação com o Plano Real que o PT foi contra, não se pode comparar NUNCA a qualidade de vida dos americanos ou europeus. Quem já esteve nesses lugares sabe do que estou falando!

  4. leonardo Diz:

    Mas olha só quem fala! Você tem mania pior ainda de só falar mal de Natal e dos Natalenses! Não seja tão hipócrita, meu caro…

  5. Nimuendayub Diz:

    Fala Grande Ailton

    Passei uns dias.. em NYC…estava andando em uma Rua proxima ao Lincoln Center. E que vejo em um cinema.. que pertence ao complexo do Lincoln, que so passa filmes autorais. Em cartaz o filme “Lula the son of Brazil”.. resolvi da uma olhada, mas tive que fazer alguma coisa antes com minha mulher e filha, e so assim, tive tempo de ir ver o filme. (na realidade já tinha visto o filme aqui em Sampa onde moro) estava mais interessado, na reação do publico intelectualizado classe media, daquela região de NYC. Bem fui a bilheteria comprar o ingresso,(minha filha e mulher não quiseram ir) a vendedora de tickets, disse que estava nos trinta minutos, que estavam encerrada a venda de tickets, etc, etc) para aqueles curiosos, acho que para mim (senior citizen) 10 USD… bem fui ate o porteiro e passei-lhe uma lábia a Brasileira, que deploro, mas, não ia causar danos a nimguém, e fui ver o restante do filme..
    A sala, uma sala para cultores do cinema estava lotada (era o ultimo dia de exibição do filme) pela metade. O publico ligado a tela. Publico americano, alguns não disfarçaram as lágrimas no episódio da prisão e morte D Lindu, a chegada para o sepultamento, a comoção do publico. Somente as pessoas mais velhas acompanharam estes momentos, como eu, que sou um pouco mais velho e vivi estes momentos terríveis, que espero nunca mais apareçam na nossa história. Término do filme, o baião de Luiz Gonzaga, em português, que conta a estória de um retirante, que levava tudo em um matulão, tudo, tudo, as esperanças, a roupa, as recordações, as amarguras, etc, etc, tudo em um matulão,… e ouvi palmas.
    Para aqueles que não foram ver o filme, ou tem preconceito com uma liderança, autentica da nossa sociedade, que tem defeitos, mas muitas qualidades, que foi forjado no dia a dia, e não montado nos bastidores, como um certo principe da Sorbone… que deveriam ver o filme, e conhecer um pouco da nossa historia que narrado, e montado com recortes de foto jornalismo, retratam um período da nossa historia, em que a Veja, O globo, Tv Globo, que pausterizam e distorcem os fatos históricos,

    não vou fazer revisão do texto, estou cansado da viagem, que fiz .. preciso arrumar o apartamento.. tudo virado, deixo para voce, revisar que é jornalista de oficio…a proposito , leiam este excelente jornal da Media independente que se posiciona a favor das causas populares que é o http://www.indypendent.org/
    um abs. Nimuendayub

  6. Ailton Medeiros Diz:

    Falo e continuarem falando: Todo natalense como você é 99% idiota, Leo.

  7. Ailton Medeiros Diz:

    Você entrou 2012 mais estúpido ou é impressão minha, Monner? O termo serve para diferenciar os jornais impressos da internet, essa sim, a nova mídia.

  8. José Américo Diz:

    Belíssimo texto. A Época, por incrível que pareça, possui alguns articulistas desintonizados com a filosofia Kameliana. Correm o sério risco de nunca mais escrever por lá.

  9. Marcos Monner Diz:

    Meu caro escriba, a minha estupidez me deixa ver que imprensa é imprensa, e mídia é pilantragem…

  10. Lulaz Diz:

    Será que a velha mídia, ou PIG é a mesma coisa, tinha a mesma opinião sobre o Brasil durante o governo tucano de FHC???

  11. walsil Diz:

    O Monner deve ser mais um dos “bem informados” da grande mídia. Engraçado que trabalho com alguns destes “bem informados” leitores da “oia” e perguntei se eles sabiam alguma coisa da “privataria tucana” que naquele momento era o livro mais vendido e eles respoderam, nunca ter ouvido falar. Esses são os leitores da grande mídia, recebem as informações que lhes querem passar e ainda se acham melhores informados que todo mundo. Tem pai que é cego.

  12. Marcos Monner Diz:

    Meu caro Walsilão,
    Os “pobremas” citados no livro do Amaury Ribeiro Jr. são conhecidos desde sempre. Por que será que nunca foram apurados? Sugiro também outros trabalhos maravilhosos do autor, que além de escritor também é ótimo compositor. Ou você nunca ouviu falar da bela “marli meu travesti”?

  13. Hermenegildo bufante Diz:

    Ta tudo muito bom.A velha mídia do RN adora joão Pessoa…

  14. Almir Diz:

    Os tais países desenvolvidos chegaram onde estão simplesmente porque seus cidadãos jamais jogaram lama em si mesmos.

    Imprensa que “informa”? Tenha dó. Imprensa “tradicional”, dominada por coroneletes decadentes, que distorce, manipula e direciona incautos pro abismo. O povo já se deu conta disso, tanto que têm se repetido os episódios em que a população escorraça equipes de reportagem dos jornalões e tvzonas. A verdadeira imprensa agora somos nós, os internautas.

    O Brasil precisa muito de um “Hugo Chávez”. Por isso, não tardará a eleger um presidente pra chamar Dirceu.

  15. FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAUJO Diz:

    Boa, muito Boa, Caro Almir.

    Isso mesmo, de há muito venho comentando o fato, pois a nossa venal e udenista imprensa realmente só deserve ao povo brasileiro quando se presta a reiteradamnte desinformar e alienar gande parte da massa.

    Massa essa, que, infelizmente não possui capacidade crítica para dircenir como e por que históricamente somos tão levados acreditar em versões mais que tendenciosas de fatos políticos ou não.

    Um Abraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  16. Marcos Monner Diz:

    “Num tô intendendo”! Quando alguns viram a foto da presidente cercada por “coronéis” analisando papéis, a chiadeira foi geral. Agora elogiam o coronel chaves. Muito bom também são os coronéis castristas da ilha maravilhosa profundamente admirada pelos dirceus que se emocionam profundamente quando se encontram.
    E quanto a mim que lutou pela liberdade de vocês, maravilhosos petralhas?

    CEL AV. RR MONNER

  17. Luiza Lucarelli Diz:

    è verdade, o brasileiro tem mania de falar mal do proprio pais e parece que quer que as coisas piore,… o brasileiro é masoquista mesmo. Posso afirmar sem medo de errar que aqui na Italia a situaçao està 1000 vezes pior, nao tem emprego pra ninguem, as universidades tao caindo aos pedaços, quem quer trabahar aqui tem que tentar na Alemanha ou outros paises do norte da europa, e os politicos… Deus me livre!!! Pior ainda a Grecia e o coitado do Portugal

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