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A MELHOR SELEÇÃO DE TODOS OS TEMPOS

PAULO MOREIRA LEITE

A Seleção espanhola é a melhor de todos os tempos? Não.

Bastaria uma frase para preencher este artigo. Não.

Mas vamos em frente. Era inevitável que este tipo de especulação aparecesse depois da vitória da Espanha na Eurocopa. Sobretudo porque, antes, a Espanha levara a Eurocopa de 2008 e a Copa do Mundo de 2010. Hoje no site da BBC a pergunta que dá título a este artigo animava um debate intenso.

A Espanha não suporta comparações com dois Brasis: o de 1958 e o de 1970.
Não eram tempos de televisão ubíqua, e a internet estava bem longe no futuro, e portanto a repercussão era bem menor do que agora.

O time do Brasil de 58 tinha Pelé aos 17 e Garrincha com pouco mais de 20. Pronto.
Discussão encerrada. Era um time tão bom que, envelhecido quatro anos, e sem Pelé contundido, ganhou o bi no Chile em 1962.

A grande pergunta é Brasil de 58 ou de 70?

Os que viram os dois times jogarem – quase todos já mortos – apontavam quase que unanimemente a seleção de 58 como a melhor. Em 70, Pelé já estava bem mais velho, Garrincha já trocara o futebol pela bebida. Em compensação tinham surgido gênios como Rivelino, Gérson, Jairzinho e, numa escala ligeiramente menor, Tostão.

Para mim, empate entre as duas. Com muitos gols: 4 a 4, ou 5 a 4.

Vistas as coisas em retrospectiva, 70 foi o canto do cisne do futebol brasileiro tal como se imortalizou na nostalgia dos fanáticos pela arte com a bola.

Sem que houvesse razão nenhuma para isso, vistos os resultados da seleção (três copas em quatro, e a derrota na Inglaterra porque caçaram Pelé sob a complacência dos juízes), o Brasil passou a imitar os europeus.

A prioridade passou do ataque à defesa. Zagallo foi o grande mentor disso, em parte porque ele próprio foi um atacante limitado e mais apto a defender do que a causar estragos na zaga adversária. Zagallo só jogou na seleção em 58 e 62 por ser do Rio, que dominava a então CBD. Pepe, do Santos, era um ponta-esquerda muito melhor que Zagallo.

O que ele fez em 1974, como técnico, foi o começo do sim do futebol arte. A partir de então, o Brasil passou a defender em vez de atacar. Virou uma Itália, ou uma Inglaterra.
A exceção notável foram as seleções de Telê, em 82 principalmente. Por um incrível azar o Brasil não foi campeão na Espanha, e então a tentativa de devolver a arte ao futebol nacional foi abortada.

Alguns anos depois, os clubes brasileiros já tinham consagrado os famosos cabeças de área, bons para destruir mas incapazes de construir, como Chicão, ou Dunga, ou Alemão. Os técnicos colocavam três ou até quatro em campo, e como consequência jogadores talentosos iam para o banco.

Coube ao Barcelona – e esta é uma contribuição milionária – ressuscitar o futebol bonito, de gente que sabe jogar, incluído o goleiro.

A surra que o Barcelona ofensivo deu no Santos retrancado foi um bálsamo para o Brasil.
No meu time, por exemplo, serviu para desfazer a tese de que Danilo e Alex, dois jogadores hábeis e de armação, não poderiam jogar juntos.
Clap, clap, clap para os espanhóis do Barcelona.

Agora. Dizer que que a seleção espanhola é a melhor de todos os tempos só pode ser entendido se o objetivo é elevar a auto-estima de um país que enfrenta uma brutal crise econômica.

6 ideias sobre “A MELHOR SELEÇÃO DE TODOS OS TEMPOS

  1. Concordo em boa parte com o texto, mas, de uns tempos para cá, comecei a achar que Dunga foi muito injustiçado. Não tinha o nível técnico de um Falcão, claro, mas passou longe de ser um simples brucutu, pois, embora distribuísse suas bordoadas, sempre foi um jogador de qualidade técnica, que sabia passar – e bem – a bola, tanto por baixo como por lançamentos longos, depois de efetuar desarmes ou antecipações, muito diferente de jogadores meramente brucutus, como um Zé Elias da vida.

  2. Prezado Ailton,

    Plenamente de acordo com o texto acima, ainda afirmo que o técnico Zagallo foi tão limitado, quanto o jogador Zagallo.

    Gerson, o Canhotinha de Ouro, diz que a bola tem que chegar trabalhada, rodondinha pros atacantes. Ou seja, tem que botar no meio de campo jogadores habilidosos, que saibam criar, saibam “meter” um bola, como magistralmente fazia o próprio Gerson.

    Gerson ainda acrescenta: “se for pra dar chutão lá atrás, até eu vou, também sei fazer isso”.

    O sucesso da Espanha e do Barcelona é exatamente por isso: jogadores habilidosos do goleiro ao ponta esquerda; ainda que nem todos sejam craques, mas sabem tocar e fazer o jogo andar, e rápido, muito bem.

    Tem que defender? Tem que lutar pela posse de bola? Claro. E a espanha e o Barça, sem nenhum cabeça-de-área tipo o Dunga, defendem-se e mantêm a posse da bola como nunca visto.

  3. Complementando:

    A Seleção de 1958 foi a melhor de todos os tempos. Não é todo dia que se pode reunir numa mesma seleção dois genios iguais a Pelé e Garrincha.

    Aliás, com os dois Genios em campo o Brasil nunca perdeu para ninguém. Isso basta para encerrar a discussão.

  4. Perfeito o texto! A atual seleção espanhola não chega nem perto do Brasil de 82. Que dirá das míticas de 58, 62 e 70. Quiçá a seleção da Espanha pode ser comparada com o Brasil de 94, para a fúria, já está de bom tamanho!

    Abraço Ailton e parabéns pela remodelação do blog.

  5. Ailton, no dia que a seleção brasileira venceu a Suécia por 5 X 2, eu tinha oito anos de idade e, me lembro como se fosse hoje (numa tarde de domingo, não me lembro da data, mas estava brincando na rua com outros moleques). Um vizinho nosso era fanático por futebol por nome de Chiquinca, a cada gol que o Brasil fazia ele soltava uma bomba de estrondo absurdo que chamava a atenção de Quilômetros de distância e fazia uma festa fantástica. Logo após, ganhei até uma carteira de cédulas com a foto da seleção e o placar 5 x 2. Foi nessa época que despertei o interesse por futebol, mas nunca fui de nada com a bola.

    Na minha opinião é de concordância com Caranguejo. Realmente a de 58 foi fantástica. Na época não se conhecia nem o ocidente América do Sul, muito menos, Brasil, soava como fim do mundo para aqueles que não nos conheciam.

    É isso.

  6. Esse cidadão que soltou as bombas pela vitória do Brasil em 58, nos anos sessenta, numa campanha eleitoral, também, era muito fanático e, numa disputa com um vizinho seu, ora adversário naquele pleito, coincidentemente, trocavam farpas e, ele soltou uma bomba semelhante diante da casa do vizinho que, ao preparar outra, no meio da rua, mas, enfrente à caso do vizinho, o vizinho aproveitando que se encontrava agachado preparando a bomba, disparou um tiro de revolver na cabeça e o matou.

    É isso.