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A mídia partidarizada

O professor e sociólogo Homero de Oliveira Costa envia para o blogue um ótimo texto em que analisa a partidarização da mídia. Segue na íntegra:

A relação entre Mídia e Política tem sido objeto de muitos estudos tanto no campo da comunicação, como nas ciências sociais. Pelo menos desde a década de 1990 foi constituído em várias universidades grupos de pesquisas que analisam a relação entre mídia e política, que tem resultado em dissertações de mestrado e teses de doutorado.

São muitas pesquisas e a publicação de seus resultados. Para fins deste artigo, destacaria mais especificamente alguns estudos que tratam de um dos aspectos relevantes da temática, que é o da partidarização da mídia (considerado aqui a chamada “grande mídia” que inclui jornais, revistas e canais de televisão), entre eles, o artigo “Veja e a construção do CR-P (Cenário da Representação Política) nas eleições presidenciais de 1998” de Murilo Cesar Soares (apresentado no II Encontro Nacional de Estudos de Comunicação e Política, em Salvador, 1998),os livros “Mito e discurso político: uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994 de Luis Felipe Miguel (Editora da Unicamp,2000); “Eleições presidenciais em 2002 no Brasil (Hacker editores, 2004) e “A mídia e as eleições de 2006 (Editora Perseu Abramo, 2007) e, mais recentemente “A ditadura continuada: fatos, factoides e partidarismo da imprensa na eleição de Dilma Rousseff” de Jakson Ferreira de Alencar (Editora Paulus, 2012).

Este último trata das eleições presidenciais de 2010 e da “tomada de partido por parte da imprensa e da Folha de S. Paulo, em particular (…) pelo panorama da cobertura do jornal do período e de seus posicionamentos políticos”. Como disse Venício Lima ao comentar o livro “ele demonstra e confirma o que já sabemos: os jornalões brasileiros, além de partidarizados, não têm compromisso nem mesmo com seus manuais de redação”.

Destacam-se também as pesquisas realizadas pelo Doxa (Laboratório de Pesquisas em Comunicação Política e Opinião Pública) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e artigos de seus pesquisadores como: “Tomando partido: Imprensa e política nas eleições de 2006, de Alessandra Aldé, Gabriel Gutierrez e Marcus Figueiredo (Politica & Sociedade , v.10, 2007).

O conjunto desses estudos (baseados em pesquisas) mostra que não há nem isenção nem imparcialidade dos meios de comunicação na cobertura das eleições e mais do que isso, mostra o seu partidarismo. No artigo “A mídia e os juízes” (Carta Capital, 14/11/2012) Marcos Coimbra diz “ainda há quem duvide quando ouve que a mídia brasileira é partidarizada. Que tem posição política e a defende com unhas e dentes. Por opção ideológica e preferência político-partidária, ela é contra o PT. Desaprovam os dois presidentes da República eleitos pelo partido e seus governos. (…) a chamada “grande imprensa” é formada basicamente por quatro grupos empresariais. Juntos, possuem um vasto conglomerado de negócios e atuam em todos os segmentos da indústria da comunicação. Têm um grau de hegemonia no mercado brasileiro de entretenimento e informação incomum no resto do mundo”.

Para o cientista político Marcus Figueiredo, que tem feito pesquisas sobre a cobertura da mídia em eleições, especialmente em relação às eleições presidenciais, ao analisar a natureza e a cobertura das eleições presidenciais de 2002 e 2006 mostram como se “adotam um híbrido entre dois modelos de pluralismo: formalmente, no discurso ético de autoqualificação diante dos leitores, procuram associar-se aos conceitos e rituais de objetividade do jornalismo americano, como é possível constatar nos slogans, diretrizes oficiais, manuais de redação, cursos de jornalismo. No entanto, na produção do impresso diário, o que vimos são diferenças no tratamento conferido aos candidatos, de amplificação de certos temas negativamente associados a Lula, contraposto à benevolência no tratamento de temas espinhosos relacionados aos seus adversários”.

Em livro publicado recentemente (A explosão do jornalismo – das mídias de massa a massa de mídias) Ignácio Ramonet analisa os grandes grupos midiáticos e a forma como se estrutura um novo cenário global e utiliza o termo “Aparelhos privados de globalização” no qual “O verdadeiro poder é, a partir de agora, mantido por um feixe de grupos econômicos e financeiros planetários e de empresas globais, cujo peso nos negócios do mundo é, às vezes, mais importante do que o dos Estados”. Eles são os “novos mestres do mundo” e na nova guerra ideológica imposta pela globalização, às mídias são utilizadas como uma arma de combate. Elas abandonaram a função de “quarto poder” e procuram defender seus privilégios. Segundo Ramonet tal “Como ocorria antes com a oligarquia latifundiária, esses proprietários de latifúndios midiáticos opõe-se a toda reforma social e a toda distribuição um pouco mais justas das imensas riquezas sociais”.

A mídia, cada vez mais oligopolizada, enquanto aparelho privado insere-se assim no processo de globalização e mantém como um dos núcleos constituintes a difusão da ideologia de seus proprietários, que são integrantes das classes dominantes. A mídia hegemônica, para usar a expressão de Serge Halimi (em “Os novos cães de guarda”, Editora Vozes, 1998) são os “novos cães de guarda” do Capital. Longe de ser um “contra-poder”, como postulam, na verdade está dominada por aquilo que ele chama de “jornalismo de reverência”, a serviço do mercado, dominada por grandes grupos econômicos. Para Ramonet, esses “cães de guarda” se comportam como verdadeiros partidos políticos. “Não reivindicam o direito de crítica, mas se constituem uma oposição ideológica. Sua verdadeira missão é conter as reivindicações populares”.

Para muitos analistas, a revista Veja cumpre esse papel no Brasil, como representante da direita política brasileira, e que tem atuado como um verdadeiro partido político. O proprietário da revista, Roberto Civita, na sua carta ao leitor no final de 2012, reitera a ideia de que na falta de uma oposição digna desse nome, a imprensa deve assumir as funções de partido político: “ Ainda no que diz respeito à imprensa, é preciso notar que a ausência de uma oposição atuante e articulada vem colocando os veículos de informação independentes na curiosa posição de serem praticamente os únicos fiscalizadores e críticos das ações do governo”.

Para Virginia Fontes, professora da UFRJ, autora do livro “Reflexões Im-pertinentes: História e capitalismo contemporâneo”, no prefácio do livro “Veja: o indispensável partido neoliberal” (l989-2002) de Carla Luciana Silva, ao tratar da mídia brasileira na qual “predominam verdadeiros latifúndios (…) alguns deles consolidados pela ditadura militar imposta a partir de l964”, afirma que a revista Veja após breve período inicial no qual procurou manter uma postura menos autocrática, passou a desempenhar um papel primordial como agência aglutinadora de diferentes setores das classes dominantes em torno das necessidades formuladas por um setor especifico exatamente mais próximo às grandes corporações internacionais. “A tarefa de Veja, cumprida por seus editores, é a de disseminar e difundir os projetos e perspectivas desses setores, apresentados como se (re) produzissem os anseios e as necessidades do conjunto do país”.

A partidarização da mídia e da perda de sua credibilidade tem sido objeto de estudo e reflexão de um dos mais importantes analistas da mídia no Brasil, Venicio Lima, autor, entre outros, dos livros “Mídia: teoria e política”, “Política de comunicações: um balanço do governo Lula (2003-2010)”, e “Mídia: crise política e poder no Brasil”. No artigo “A obsessão do jornalismo partidário” ao tratar da erosão da credibilidade da mídia no Brasil, comenta o resultado de uma pesquisa do Ibope Inteligência em 2012 sobre o Índice de Confiança Social (ICS) na qual a mídia foi a instituição brasileira que apresentou maior queda em sua credibilidade, atrás apenas do sistema público de saúde e das escolas públicas.

Segundo o autor a queda acentuada da credibilidade da grande mídia não é um fenômeno que ocorre somente no Brasil, mas no nosso caso específico, entre outros fatores explicativos está “a inconteste e fartamente documentada” partidarização que passou a caracterizar o “jornalismo político” que tem sido praticada nos últimos anos, pretensamente em defesa da “opinião pública”, expressão invocada simplesmente para identificar sua própria opinião, que, embora privada, pretende passar-se por “pública”.

Na análise do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, a chama grande mídia, de uma maneira geral, vem agindo como escudeiro das elites conservadoras do Brasil e tem atuado como um verdadeiro partido político.

Ao analisar mais especificamente a imprensa ele afirma que ela se considera indestrutível porque resiste à democratização e à republicanização do Brasil (uma das expressões dessa resistência é o combate permanente a qualquer forma de regulação da mídia, a mesma que a mídia conservadora de outros países, como na Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina têm em relação às medidas para a democratização dos meios de comunicação). O partidarismo, portanto, não é específico do Brasil, nem apenas em relação aos governos Lula e agora de Dilma Rousseff. Vem de longe e justifica-se porque no Brasil, segundo ele “tem uma circunstância peculiar que é o fato de que as empresas jornalísticas têm os interesses empresariais também fora do circuito de informação. E isso cria uma situação muito particular, porque, afinal de contas, os interesses econômicos e empresariais de proprietários de jornais deviam ter suas instâncias de defesa e não utilizar a imprensa para isso. Esta é uma peculiaridade do Brasil. E é isso o que se mistura com frequência no Brasil: as campanhas políticas desenvolvidas pela imprensa, sob o pretexto de que são questões que se querem públicas, mas, na verdade, são interesses privados dos próprios empresários jornalísticos”.

Uma imprensa que tome partido e tire a máscara da isenção e da imparcialidade e em defesa dos privilégios que julgar pertinentes, é preferível à da simulação, de veicular opiniões sob a aparência de reportagem isenta e pretensamente neutra. No entanto, esse tipo de jornalismo, a considerar a progressiva desconfiança dos leitores, mostra que pelo menos uma parcela considerável tem sabido distinguir manipulação e panfletagem do que deveria ser informação, imparcialidade e isenção.

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7 ideias sobre “A mídia partidarizada

  1. Queda de credibilidade da grande mídia? Nota-se de cara que a intenção desse senhor é apoiar os falcões PeTralhas no que concerne a censura à imprensa. Afirmar que a Veja não é séria é no mínimo uma delinquência intelectual. E o que dizer dos blogs sujos financiados pelo Estado com o NOSSO dinheiro? O que dizer da Carta Capital? Do Paulo Henrique Amorim? Tenham santa paciência!!

  2. Os candidatos que representam à direita, a exemplo de Zé Serra, são blindados.

  3. Ailton, ai vai mais uma DELLES:

    Esquema Veja-Cachoeira agiu contra Renan, revela colunista.

    Tereza Cruvinel, no artigo “Dedo de Cachoeira”, diz que matéria de Policarpo Jr inventou grampo de Renan contra Demóstenes e Perillo em 2007.

    A jornalista Tereza Cruvinel colunista do jornal “Correio Braziliense”, acaba de trazer à tona um documento do Senado, apontado como sigiloso, que revela mais evidências contundentes das ligações tenebrosas entre o diretor da revista Veja, Policarpo Júnior, e a quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira.

    A queda do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) da presidência do Senado em 2007 foi, segundo a jornalista, em seu artigo “Dedo de Cachoeira”, conseguida através da montagem de uma “denúncia” falsa feita pela revista com a ajuda de arapongas. A “denúncia” era de que Renan teria montado um esquema para espionar os senadores, entre eles Demóstenes Torres (então do DEM) e o tucano Marconi Perillo, na época senador e atualmente governador de Goiás. A matéria forjada por Veja acabou acarretando a renúncia do peemedebista.

    O texto de Veja, “O jogo sujo de Renan”, afirmava que o senador havia montado um esquema de espionagem contra seus pares, com direito a câmeras de vídeo instaladas num hangar de Brasília. Veja mentiu dizendo que o ex-deputado goiano Pedrinho Abrão, dono do hangar, teria confirmado o pedido de Renan para instalar câmeras e espionar senadores. O fato, apurado formalmente pelo então corregedor do Senado, Romeu Tuma, falecido em 2010, dizia exatamente o contrário. O material-farsa montado por Veja, segundo Cruvinel, “incendiou o plenário” e foi estratégico para que o então senador Demóstenes Torres abrisse suas baterias contra Renan.

    O documento, ao qual a jornalista teve acesso, é a íntegra do depoimento do empresário Pedrinho Abrão ao então corregedor do Senado, Romeu Tuma. O senador ouviu o desmentido, mas pediu o arquivamento do documento, sem divulgá-lo. Tuma fez isso porque estava sendo pressionado pelo DEM, partido de Demóstenes, que viria a ser cassado posteriormente, depois de ser desmascarado como um dos tentáculos de Cachoeira. Marconi Perillo também é denunciado por ligações com Cachoeira. O DEM ameaçava processar Tuma por infidelidade partidária, tirando-lhe o mandato, por ter migrado para o PTB.

    No depoimento, Abraão nega taxativamente ao corregedor que o então assessor de Renan, Francisco Escórcio – que fora senador como suplente e hoje é deputado federal – tenha lhe pedido autorização para instalar câmeras no hangar e captar imagens comprometedoras dos dois senadores para chantageá-los.

    Em 10 de outubro de 2007, Veja publicou a matéria, assinada por Policarpo Junior e Otávio Cabral, com reportagem de Alexandre Oltramari, afirmando que Renan montara o tal esquema para espionar seus pares. Disse que a trama era chefiada pelo assessor Francisco Escórcio. Que este fora a Goiânia e se reuniu com Abraão, pedindo-lhe para instalar duas câmeras em seu hangar, com o que ele não teria concordado. A reportagem-intriga se esforça para envolver Abraão na trama, diz que ele confirmou ter os senadores como clientes e conhecer os envolvidos. Mas omite as negativas peremptórias de Abraão, apenas registrando que ele negou ter participado de reunião com este objetivo. A matéria diz que o suposto plano de Renan só não foi adiante porque o dono do hangar não concordou.

    Depois de incendiar o plenário com a matéria mentirosa, lembra a jornalista, Demóstenes fez um discurso indignado. O DEM e o PSDB apresentaram ao Conselho de Ética a quinta representação contra Renan. As outras envolviam a sua vida privada, mas esta, de que espionava os colegas, fez com alguns deles lhe retirassem apoio. Mesmo após a absolvição pela acusação de uso de dinheiro de um empresário para o pagamento de despesas particulares, o então presidente do Senado não resistiu à série de críticas e renunciou ao cargo.

    Cruvinel revela que Abrão tinha relatado a Tuma que Demóstenes o visitara dias antes, afirmando já saber que Francisco Escórcio lhe propusera a arapongagem. “O Demóstenes veio para mim com um ímpeto… me especulando como promotor”. Abrão esclareceu que não ouviu proposta em tal sentido e teria acrescentado que o hangar já tem mais de 60 câmeras instaladas. “E tudo filmado por segurança, pois certa vez roubaram um avião aqui”. “Então, se eu quisesse fazer ou contribuir com alguma arapongagem, seria a coisa mais simples”.

    A participação da quadrilha de Cachoeira neste episódio foi confirmada pelas declarações de Francisco Escórcio, hoje deputado. Ele fala sobre o episódio e confirma o conteúdo do depoimento de Abraão a Tuma: “A conversa foi banal. Eu fui a Goiânia contratar o Heli Dourado para mover a ação eleitoral que veio a garantir a posse de Roseana. Na conversa, alguém mencionou Pedrinho Abraão, com quem tive boa convivência no Congresso. Pedi o numero dele e liguei. Ele se propôs a ir lá me rever. O que eu não sabia, e vim a saber, é que, por ser assessor do Renan, tivera meu telefone grampeado pelo esquema deles (Cachoeira). Deduziram que meu encontro com Pedrinho Abraão era alguma armação”, afirmou Escórcio.

    O documento revelado agora só reforça o que já se sabia sobre o modo de agir do bando e que Policarpo e Cachoeira não tinham limites nas suas armações para desestabilizar o governo e atingir adversários. A realidade mostrou também que títulos da revista como este contra Renan, ou aqueles em sentido oposto como “Demóstenes, o mosqueteiro da moralidade” ou “O menino pobre que salvou o Brasil”, na verdade não passavam e não passam de senhas, disfarces e acobertamentos dos esquemas obscuros da revista.

    Policarpo Jr, diretor da sucursal de Veja no Distrito Federal, foi flagrado em intensas articulações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira pelas interceptações telefônicas legais feitas nas operações Vegas e Monte Carlo da Polícia Federal, que levaram o contraventor à prisão. Através de Policarpo, Cachoeira plantou matérias na Veja de interesse do esquema da quadrilha. O ex-senador Demóstenes Torres foi cassado porque ficou comprovado que ele atuou no Senado a serviço do bicheiro. E tinha cobertura e apoio de Veja que publicou matéria (entre outras) considerando-o como um dos “mosqueteiros da ética” (matéria de Otávio Cabral e Alexandre Oltramari). Policarpo também utilizava os serviços da quadrilha. Numa das gravações da PF, ele pede a Cachoeira para realizar uma escuta ilegal contra o deputado Jovair Arantes, do PTB de Goiás. Policarpo: “Como é que eu levanto aí umas ligações do Jovair Arantes, deputado?” Cachoeira: “Vamos ver, uai. Pra quando, que dia?” Policarpo: “De imediato, com a turma da Conab”.

  4. A propósito, alguém sabe de alguma ação do STF (grande Joaquinzão!) com relação à CPI do Cachoeira? Pelo que se sabe, o relatório da CPI, que incrimina Pirilo, Policarpo, Cachoeira e o Cavendish, foi encaminhada ao Procurador “só contra o PT” Gurgel.
    O brasil é engraçado: Já tivemos um procurador geral que era o cão para engavetar. Agora temos um que só age contra o PT.
    E o mensalão mineiro, onde anda?

    Astrogildo Cruz

  5. Esse José Carlos de Medeiros é mesmo um “inocente útil”!!!!!

  6. Ailton, nas minhas pesquisas ai vai mais uma pérola do verdadeiro jornalismo:

    Eleições e democracia: como a mídia golpista falseia os fatos

    No enfoque dos diferentes processos eleitorais, palavras como democracia, ditadura, popular, populismo, opressão, liberdade de imprensa, censura, perdem totalmente seus significados etimológicos e são manipulados para confundir as mentes e impor uma visão unilateral dos fatos

    PAULO CANNABRAVA FILHO*

    Atualmente e não tão recentemente, têm havido eleições em várias partes do mundo e chama a atenção como os meios de comunicação tratam a cobertura desses eventos, seja no aspecto mídia-espetáculo, seja no aspecto conceitual, o que é muito mais importante.

    O que mais salta à vista é o diversionismo ideológico explícito no enfoque desses diferentes processos eleitorais. Palavras como democracia, ditadura, popular, populismo, opressão, liberdade de imprensa, censura, perdem totalmente seus significados etimológicos e são manipulados para confundir as mentes e impor uma visão unilateral dos fatos. Um ato de guerra contra uma população desarmada, por exemplo, é terrorismo, contudo, na mídia os terroristas são as vítimas da agressão imperial.

    Fica no ar a dúvida: o que é uma democracia? A de Atenas ou de Roma? A do Reino Unido ou da Itália? A dos Estados Unidos ou de Cuba?

    É preciso refletir, repensar a democracia desde seus primórdios históricos. A queda da monarquia (e nem todas as monarquias caíram) deu lugar à criação de um sistema eleitoral que contivesse as massas oprimidas e assegurasse a hegemonia para a nova classe emergente.

    O poder monárquico se confundia com o poder da Igreja de Roma, para garantir a sobrevivência da hegemonia ameaçada com atomização dos Impérios, desde Roma até os atuais. E nesse contexto a Igreja de Roma se configura como o mais antigo e poderoso dos conglomerados empresariais transnacionais.

    Vale a pena uma reflexão, e o fazemos com intuito provocatório, sobre alguns dos processos eleitorais em evidência ou não tão em evidência na mídia.

    VENEZUELA BOLIVARIANA

    Desde 1999 a Venezuela já realizou 16 eleições de acordo com as regras que tipificam a chamada “democracia ocidental e cristã” com participação massiva da população. O ex-presidente Carter e outros observadores de peso, admitiram publicamente que o processo eleitoral venezuelano é o mais limpo e democrático. Ele não poderia falar nada diferente, pois é o tipo de eleição que seu país quer impingir ao mundo. Não obstante, como não deu resultado o marketing político e a campanha publicitária bilionária dos partidos tradicionais e foi eleito um adventício, ou seja, um de fora da corte, o governo legalmente eleito foi todo tempo demonizado.

    Se tivesse sido eleito um oligarca branco ou um caboclo servil seria apresentado pelos meios como exemplo da democracia em nossa América. Mas, como foi eleito um caboclo, de origem humilde, é exemplo de populismo, de demagogia, de ditador castro-comunista. Só não acusaram Chávez de comedor de criancinhas.

    Em abril a Venezuela realizará novas eleições para a presidência. Se eleito Maduro terá sido eleito por utilização da máquina governamental. Se Caprilles for eleito (quase impossível) será por manifestação democrática. E já não faltam os que estão semeando discórdia acusando Maduro de violar a Constituição, o que não é verdade.

    Se a expressão das massas populares se transforma em força política, os conservadores entram em pânico por que se lhes fecha o caminho de retorno e reconstrução da hegemonia.

    No caso da Venezuela não há dúvida de que o que sustentou Chávez 14 anos no poder foi a força política dessa expressão das massas. As fotografias e os audiovisuais sobre as manifestações de pesar pela morte de Chávez deixa ver nitidamente a cor da pele e a dimensão dessa multidão. Não obstante, a mídia dos conservadores trata por todos os meios desqualificar, demonizar essa democracia, por causa daquilo que ela tem de melhor: é popular, de massas.

    Fato novo da Nossa América, os meios conservadores já não conseguem convencer às grandes massas, pois estas adquiriram saber, têm opinião própria, reconhecem a seus líderes e não se deixam mais conduzir pelos arautos do Apocalipse. Quase todos os meios impressos venezuelanos são de oposição. A televisão e as rádios ainda têm grande importância, mas, ao assumir um combate insano contra um governo e um líder que é do agrado das massas, perderam credibilidade. Paralelamente, surgem meios públicos e estatais de comunicação, porém, não vinculados a uma estratégia de comunicação revolucionária.

    Sabiamente, a Revolução Bolivariana deu voz aos bairros organizados através das rádios comunitárias. E estão surgindo informativos impressos alternativos, além dos foros de discussão sobre o processo bolivariano por toda parte.

    Isso não aparece nos meios, como tampouco aparecem as conquistas da Revolução, tais como: a erradicação do analfabetismo; nenhuma criança fora da escola; é o 5º país do mundo com maior taxa de matrícula escolar e universitária; saúde gratuita para todos; construção de 8.500 hospitais, etc.

    Dados da ONU confirmam que, antes de Chávez, a Venezuela tinha 70% de pobreza, com 40% de pobreza extrema. Hoje a pobreza está em torno de 26% e a pobreza extrema foi reduzida para 6%. A inflação, que era de 103%, está hoje em 22,8%.

    Tudo isso foi alcançado a duras penas, com erros e acertos. Os críticos apontam tão somente os erros e reclamam de ineficiência do setor produtivo. Se esquecem de que também em seus países os obstáculos para o desenvolvimento são os mesmos: ausência de infraestrutura, ausência de uma base produtiva prévia, ditadura do capital financeiro, e, fundamente, ausência de mão de obra qualificada.

    IGREJA DE ROMA

    No processo eleitoral do Vaticano 115 cardeais elegeram, entre eles, um novo papa. Alguém elegeu esses cardeais? Evidentemente que não. Eles conduzem uma Igreja de uns 400 mil presbíteros e quase um bilhão de seguidores (fiéis), entre os quais mulheres, que, apesar de maioria, são admitidas na igreja apenas como serviçais. Nenhum desses padres votou para eleger um bispo nem tem direito algum de opinar sobre os candidatos a papa. Vão dizer que no caso se trata de religião, coisas do espírito, tudo é diferente. Não é bem assim. O Vaticano é um estado e reconhecido como tal tem representação diplomática de vários outros estados. O Brasil, por exemplo, mantém embaixador no Vaticano. Tem também um banco central (o IOR) e uma disputa feroz pelo poder vacante.

    Do ponto de vista das regras políticas que servem de paradigmas para definir as democracias ocidentais e cristãs, o Vaticano é a mais típica e prolongada das ditaduras. O cargo de bispo de Roma, que é também de pontifício ou Papa, além de ser escolhido por um punhado de “iluminados”, é por toda a vida. Só perde o mandato por morte. No caso – muito raro – de renúncia, o direito canônico não prevê a perda da condição de representante de deus. Sendo o papa vitalício, após a fumacinha branca veio a proclamação: habemus papi.

    O direito canônico (a constituição deles) determina a infalibilidade do papa. Isso significa que as ordens ditadas por ele têm que sem cumpridas sem discussão. Por isso, após a escolha, todos os seus eleitores juram se submeter à palavra do papa. Muito democrático, não é?

    Nesta democracia do Vaticano, patriarcal e machista, quem desobedecer ou contrariar a palavra (leia-se vontade) do papa é imediatamente castigado, senão com a excomunhão, com “cale a boca e fique quietinho no seu canto”, como ocorreu com o teólogo brasileiro frei Leonardo Boff. Não faz muito tempo, o castigo poderia ser bem maior. O museu da inquisição em Lima deixa qualquer pessoa, até mesmo da Operação Condor, horrorizada com a crueldade dos instrumentos de tortura. Para os mais recalcitrantes em aceitar a palavra infalível do papa, o castigo era a fogueira. Hoje existem outros métodos menos explícitos.

    Apesar de minúsculo, o Vaticano possui uma das maiores fortunas do mundo. Suas propriedades se estendem por quase todos os centros urbanos, notadamente nas metrópoles cuja história se desenvolveu mais ou menos paralela à do Vaticano, ou Igreja de Roma. O IOR, ou Banco do Vaticano, é o banco preferido pela máfia italiana e por quantos se enriquecem com negócios ilícitos. Os investimentos do Vaticano estão no mercado financeiro, petróleo, comunicação, indústria bélica, aluguel de imóveis e tudo que possa gerar lucro. Os grandes especuladores financeiros e os portadores de dinheiro ilícito operam em paraísos fiscais como Bahamas, Luxemburgo, Mônaco, entre tantos, e o próprio Vaticano e seus bancos filiados (lembre-se do Banco Ambrosiano). Por que ninguém se atreve a levantar os ativos do Vaticano?

    Toda a conquista territorial e política de extermínio das populações nativas de Nossa América foi feita em conluio com a Igreja de Roma. Ao longo da história, todas as ditaduras, das mais cruéis às mais brandas, massacraram seus povos com o beneplácito do Vaticano. Toda política de saqueio e genocídio do colonialismo europeu foi realizada com as bênçãos pontifícias. Que democracia é esta?

    ESTADOS UNIDOS

    Nos EUA, já sua primeira constituição dizia que os governantes deveriam ser brancos e ricos. O desenvolvimento capitalista que conduziu à potência que o país é hoje manteve esse princípio. Para se chegar ao estado de bem estar que deveria servir de modelo para o mundo, correu muito sangue dos trabalhadores reprimidos, perseguição ao diferente, exclusão social, racismo e saqueio das riquezas e da força de trabalho das nações em desenvolvimento.

    Nos Estados Unidos, só tem chance de se eleger para qualquer posto executivo ou legislativo quem tem muito dinheiro e for ungido com o apoio de um dos partidos do status quo. O processo passou por aperfeiçoamentos que tornaram suas eleições bem mais democráticas que as do Vaticano, mas tão elitista quanto.

    Lá, no dia da eleição, o cidadão que quiser comparecer às urnas, vai, vota no seu candidato, mas quem decide o vencedor não será o seu voto e sim o de um Colégio Eleitoral. Antes, para ser aceito como candidato por um dos dois partidos hegemônicos, terá de passar pelas prévias nos principais colégios eleitorais. Existem outros partidos, porém, o custo para uma campanha é tão alto que a realidade que se impõe é a de um bipartidarismo em que as únicas diferenças entre Democratas e Republicanos são de método ou de índole, nunca de princípios ou de concepção de estado e de governo.

    Por exemplo, em 2000, George Bush perdeu a eleição para Al Gore pelo voto popular, ganhou no tapetão, isto é, por decisão do Colégio Eleitoral, que é o mesmo que dizer por fraude. O Colégio é integrado por 538 delegados, indicados pelos partidos nos estados, em número proporcional ao peso demográfico, e vence quem obter os votos de 270 delegados. Mas eles mesmos e nossa mídia insistem em que democracia é isso.

    Esse modelo, em que dois partidos com a mesma proposta se alternam no poder é o que apregoam como paradigma para os povos de Nossa América. Tentaram impor pela força no Brasil, quando da ditadura civil militar (1964-1985), depois de ter fechado o Congresso e extinto cerca de 16 partidos, criaram o MDB e a ARENA.

    ELEIÇÕES NO EQUADOR OBSERVADAS PELO MUNDO

    Em meados de fevereiro, os equatorianos foram às urnas para eleger presidente e vice-presidente, os parlamentares à Assembleia Nacional e cinco representantes ao Parlamento Andino. Para vencer no primeiro turno, de acordo com a Constituição, é necessário mais de 40% dos votos e 10% a mais que outros colocados. Não alcançado este quociente, haveria segundo turno.

    Tudo foi feito dentro das regras do jogo que qualificam a democracia formal. Fato inédito na história do Equador e de qualquer outro país de Nossa América, para garantir a lisura dessas eleições foram enviados mais de 600 observadores. Além da OEA e da Unasul, o Parlamento Andino, Liga Árabe, União Africana, Associação das Nações do Sudeste Asiático e a União Interamericana de Organismos Eleitorais, além de cerca de 60 personalidades políticas e intelectuais, compondo um contingente de cerca de 300 pessoas.

    O presidente Rafael Correa foi reeleito com quase 60% dos votos (57,17%), 34,49% de diferença do segundo colocado, o banqueiro Guillermo Lazo, o preferido da mídia mundial. O empresário Álvaro Noboa Pontón, segundo favorito na torcida midiática, conseguiu 3,72% dos votos.

    Confirmado pelo voto popular, Correa agora passou à categoria de “ditador eleito”, tal como Chávez. Se a vitória fosse de Noboa, sem dúvida as manchetes diriam que foi “restaurada a democracia” no Equador.

    Correa conquistou a confiança do povo por governar com decência, por utilizar os recursos advindos do petróleo e outras commodities em obras de infraestrutura e de redenção social, com ênfase nas áreas de educação e saúde, e também por ouvir as maiorias e minorias. As oligarquias de Nossa América não se conformam com que, enquanto os modelos por eles apregoados estão economicamente estagnados ou cresceram abaixo de 3% nos últimos seis anos, o Equador cresceu 4,3%.

    Não é fácil superar os estragos provocados em décadas de desgoverno conduzidos por agentes do capital financeiro especulativo e dos saqueadores das riquezas nacionais. Tal o descalabro que até mesmo a moeda nacional foi substituída pelo dólar estadunidense. Tudo isso com apoio dos meios de comunicação. Meios que se transformaram em partidos e instrumentos da contrarrevolução e do entreguismo. Com tudo isso, a população de mais baixa renda que era de 37,6% em 2006 baixou para 27,3% em 2012.

    Por pretender democratizar o sistema de governo e os meios de comunicação, por pretender garantir que cumpram com a Constituição e as leis, que as riquezas minerais e naturais sejam utilizadas em benefício da Nação, e por pretender dar voz às maiorias, e democratizar os meios de comunicação, Rafael Correa passou para a categoria de ditador, por nacionalizar o petróleo, comunista. Ou seja, está sendo tratado pela mídia como se inimigo fosse da democracia. Democracia para quem, cara-pálida?

    ELEIÇÕES NA CUBA SOCIALISTA

    Cuba realizou eleições para a Assembleia Nacional em janeiro, com mais de 90% de comparecimento. Todos os candidatos de todos os municípios foram eleitos. Em fevereiro, os 612 deputados eleitos elegeram o novo governo, com mandato de cinco anos.

    Como o sistema eleitoral e de governo cubano não segue a cartilha da democracia ocidental e cristã, já descritas nos tópicos anteriores, os meios de comunicação, quando não ignoraram o fato, retiraram-lhe importância. Para a mídia, Cuba é simplesmente a ditadura dos Castro. Será mesmo?

    Antes disso, em 2011, o VI Congresso do Partido Comunista de Cuba aprovou novas diretrizes para a estratégia de desenvolvimento do país, as quais vêm sendo seguidas pelo governo. Esse congresso revelou fatos de grande relevância que estão a ocorrer em Cuba e escondidos pelos meios de comunicação servis ao Império. O que mais me chamou a atenção foi o componente humano: 50% negros, 50% mulheres e 50% jovens. Fato realmente surpreendente, um grande avanço numa Cuba de origem social machista e elitista governada por brancos.

    A composição da nova Assembleia Nacional e do novo governo revela o mesmo fenômeno de ascensão social e renovação etária. A idade média dos integrantes do Conselho de Estado é de 57 anos, 39% são negros ou mestiços e quase 42% mulheres. E percebe-se, tanto nos discursos como na prática cotidiana, que as mulheres se dispõem a aumentar ainda mais a presença nas entidades, em todas as instâncias do país.

    Ao ser reconduzido à presidência, Raúl Castro anunciou que este é seu último mandato e que nenhum outro cubano poderá permanecer no poder, seja executivo ou legislativo, por mais de dois mandatos (dez anos). Essa e outras reformas, que dependem de reforma da Constituição, deverão ser aprovadas em plebiscito. Justificam com que há que dar lugar às novas gerações e estas não têm o carisma e a legitimidade dos que fizeram a Revolução vitoriosa de 1959.

    Todos os meios especulam sobre o futuro de Cuba sem Fidel. O que será de Cuba? Para onde irá Cuba? São perguntas que devem ser formuladas às novas gerações que, formadas pela Revolução, estão ascendendo – sob o silêncio sepulcral dos grandes conglomerados de mídia – às direções dos organismos políticos e de governo.

    * É jornalista e editor da revista virtual bilíngue Diálogos do Sul.

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