Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

NATAL, RN

*Moacyr Scliar

Aquelas magníficas praias, aquelas dunas que são um convite à aventura, uma paisagem de sonho, tendo como fundo um mar deslumbrante

Natal, RN (onde estive para um evento literário), é longe. Não há vôos diretos de Porto Alegre e, por causa dos inevitáveis atrasos, leva-se umas 10 horas para chegar lá. Mas vale a pena, quanto a isto não tenham dúvida. Em Natal descobrimos que, como diz a música de Jorge Ben Jor, moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Que natureza é aquela, que natureza! Estamos falando do litoral, obviamente. Aquelas magníficas praias, aquelas dunas que são um convite à aventura – é o lugar em que provavelmente se vê mais buggies – enfim, uma paisagem de sonho, tendo como fundo um mar deslumbrante.
E o mar. Os verdes mares de minha terra natal, celebrados por José de Alencar, são algo. Mar é coisa que apela para as camadas mais profundas, mais arcaicas e portanto mais autênticas de nosso ser. Do mar nasceu a vida, ao mar a vida sempre quer voltar, e daí a atração que a praia de mar exerce sobre nós, e que, a cada ano, leva milhões de brasileiros e estrangeiros para o litoral potiguar.
Há mar e há mar. Nós, gaúchos, temos mar, o Nordeste tem mar. Mas estamos falando de mares diferentes. O nosso mar, mar de praias abertas, de um litoral que é uma linha reta de Torres até o Cassino, é um mar bravo, um mar frio. Um mar que nos desafia, que nos castiga até. É preciso enfrentar, nos diz este mar gaúcho. Enfrentar o choque das ondas, enfrentar sobretudo o frio, porque vida é assim mesmo, viver é lutar. Claro, depois a gente se acostuma, e até gosta. Contudo, o rito de passagem que é entrar no mar é desafiador e inevitável.
No Nordeste é diferente. A água é tépida, a água é límpida, a água é acolhedora – é maternal, até, a coisa mais próxima ao líquido amniótico que poderíamos imaginar. Este mar, aliás, é uma metáfora para um jeito de ser brasileiro: o jeito amável, o jeito receptivo, o jeito que pode ser visto como submisso e quem sabe como servil. E esse jeito condicionou boa parte de nossa história e de nossa cultura. Dele se aproveitaram o coronelismo, o autoritarismo em geral, a corrupção.
O Rio Grande do Norte atraiu estrangeiros por duas razões. A primeira por sua posição estratégica. Olhem o mapa e constatem: é o extremo leste da América Latina, a região mais próxima à Europa e à África, razão pela qual na Segunda Guerra os norte-americanos construíram ali a sua maior base aérea, o que valeu a Natal o apelido de “Trampolim da Vitória”. Mas Natal também é a “Cidade do Sol”; em média são 300 dias ensolarados por ano, o que funciona como ímã para os europeus: a viagem entre Natal e Lisboa ou entre Natal e Madrid leva menos tempo do que ir de Natal a Porto Alegre. Resultado: o crescimento da cidade é espantoso, constrói-se por toda a parte. O Rio Grande do Norte e o Nordeste em geral estão mudando. Mas o mar ainda continua o mesmo, ao menos por enquanto. O que, convenhamos, é um consolo.
 
* Publicado no jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, em 2 de dezembro de 2007


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