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ZUENIR EXPLICA O PECADO DELES

Com o mesmo título aí de cima, este artigo do jornalista Evandro Carlos de Andrade, publicado no jornal “O Globo”, em 1999, fez um barulho danado. Evandro, que morreu em maio de 2001, faz aqui um retrato minuncioso da revista “Veja”.

Para quem não sabe, ele dirigiu o departamento de jornalismo da TV Globo durante 24 anos.

Leia e se deleite, leitor hipócrita, meu igual, meu irmão.

Evandro Carlos de Andrade

No começo se chamava “VEJA e leia”. A segunda recomendação bem pequenina, quase como se desaconselhasse o leitor. Era bem ilustrada, o que justificava o título grande, e bem escrito, o que tornava enigmático o pequeno.

Afinal, estavam grandes jornalistas: Mino Carta, Elio Gaspari, Dorrit Harrazim, José Roberto Guzzo, Marcos Sá Corrêa, Roberto Pompeu de Toledo, Flávio Pinheiro, muitos mais. Valia a pena ler suas reportagens ou seus artigos. Com o passar do tempo,os grandes nomes foram deixando a revista ou abandonando funções executivas, do que fatalmente decorreria, como decorreu, uma significativa perda de qualidade editorial. Até que, num gesto elogiável de humildade, a revista resolveu abolir do título aquele e leia. Passou a desejar ser só vista. Antes, só assinavam matérias os grandes nomes. Reduzido radicalmente o número deles, passou-se a assinar tudo, ou quase.

      A edição da semana de “Veja” trazia 19 matérias assinadas por nada menos de 39 nomes, o que sugere a existência de alguns mutirões. Há anônimas, também. Quem é do ramo sabe que são apenas assuntos da semana “chupados” de outras publicações (cá pra nós, prezado assinante eventual da “Veja”: tirando as amarelas, o Ancelmo, o Marcos Sá Corrêa ou o Flavio Pinheiro e mais o Roberto Pompeu, quanto tempo você leva para descartar aquelas velharias que só eram novidade nos jornais ou telejornais da semana anterior?).

      Entre as não assinadas, duas chamavam especial atenção: a mais extensa ocupava seis inteiras páginas da revista. Só texto. Estranhei. Aquela recomendação de ver em vez de ler tinha-se acentuado desde maio , quando a ”Veja” apressou-se a imitar o formato gráfico, muito ilustrado, da recém-lançada revista “Época”.

      Era direito de resposta. Publicação obrigatória. Tintim por tintim. Ordem da juíza Maria de Fátima dos Santos Gomes, na sentença em que condenou a empresa proprietária da “veja” por julgar que esta “não exerceu sua liberdade de imprensa de maneira consciente e responsável, mais denegriu a imagem de Baltazar”etc. Baltazar é o queixoso, que ainda vai ser indenizado pela revista com mais de 50 vezes o valor do rendimento liquido do seu salário e todas aquelas correções a que tem direito desde 1992, o que corresponde a R$ 603.655.

      Seis paginas inteiras, e nem uma fotografiazinha, uma 3×4 que fosse. Afinal, a gente fica querendo saber como é a cara da vitima dos danos morais causados pela revista, ou a dos juizes de direito que sucessivamente condenaram a “Veja’’ou até, quem sabe, um pequeno gráfico que apresentasse a evolução dos processos a que responde a revista na justiça.

      Nada. Foi uma dureza ler aquela maçaroca. Espero que na próxima publicação de direito de resposta a “Veja” faça fineza de encomendar ao seu departamento de arte alguma contribuição para não nos tornar pesado o ajantarado de domingo.

      A outra matéria anônima, digitada a artelhos, foi uma retaliação ao “Jornal Nacional”. Esse tipo de matéria pré-elaborada custa a encontrar quem a assine.

      Para entender a razão do ataque ao “JN” bastaria ler o texto bem á direita da pagina dupla, numa coluna aproximadamente coprocromática, se me é permitido tentar na origem grega uma certa elegância para referir-me á cor dos detritos que escorrem em esgotos.

      O motivo foi uma tentativa dos responsáveis pela revista de dissuadir-nos de abordar do “Jornal Nacional” as estranhas relações entre a revista e a advogada que corre o risco de ser afastada pela OAB do caso do chamado Maníaco do parque sob a acusação de ferir a ética profissional. O processo contém acusação á revista de beneficiar-se do procedimento antiético e ilegal que se imputa a advogada.

     A revista soube que trataríamos do assunto justamente porque a procuramos para cumprir o dever de ouvi-la, como envolvida na história, pois fora citada nos autos do processo. Em vez de explicar-se, porém, reagiu mandando-nos um questionário bobo, que compilava opiniões desprezíveis dessas que brotam vez por outra de uma concorrência ressentida, como se tivesse o direito de exigir-nos explicações sobre nossos critérios editoriais.

      Seria como se resolvêssemos interpelar a “Veja” a respeito da escolha da girafa e outros bichos das paginas 86 e 87 ou perguntar-lhe por que na semana da eleição presidencial este assunto só lhe mereceu uma esquálida página, seguida de duas dedicadas á chatice da gorda belezura da Mônica Lewinsky. Mas isso é problema deles, com os seus assinantes (seriam leitores?).

      O que nos diz respeito e não pode passar batido é mentira consciente do titulo dado a um quadrinho fajuto posto no pé da matéria : “O ‘JORNAL NACIONAL’ mudou…mas a audiência continua caindo.”

      Mentira. A Globo não costuma discutir audiência. Entende que os números interessam mesmo é aos anunciantes. Quanto aos espectadores, o que interessa é avaliar o quanto lhes dá satisfação a programação da Globo.

      Mas, em face da mentira da “Veja”, é forçoso explicar ao leitor algumas coisas:

       O Ibope divulga diariamente boletim que se refere ao total de aparelhos de televisão da cidade de São Paulo. Isso inclui os que estejam desligados.

       Sobre esses números a “Veja” mentiu. A medida de audiência do “Jornal Nacional” de janeiro a setembro de 1997 foi de 37,3; no mesmo período, este ano, foi de 41,3. Portanto, MAIS quatro pontos de audiência em média. Mas não basta isso. Os números se tornam mais expressivos quando observamos o comportamento dos aparelhos de TV LIGADOS no período e na mesma região: em 1997 a média do “Jornal Nacional” foi de 54 pontos e este ano, também até setembro, foi de 60.

       E que responde a esses “critérios de televisão”, a nova classe de não-fazedores que se ombreia em impostura com a dos auto-intitulados “analistas políticos” ou “filósofos”-e conseguem viver disso? Dizem eles que o “Jornal Nacional” busca um jornalismo popularesco pêra conquistar a audiência das classes pobres. Não sabem de nada. Em 1997, até setembro, de cada cem espectadores do “Jornal Nacional”, 32 eram da classe AB: este ano, no mesmo período, esse número passou a ser 33.

       E esse pessoal da revista parece que tem dificuldade para decorar o velho ditado que alerta para as pernas curtas da mentira. Essa da “Veja” não deu nem dois passos antes que a suposta fonte daquele quadro mentiroso- a agencia almap/BBDO- desmentisse os dados, simplesmente dizendo que não mede audiências de televisão e nem tem qualquer pesquisa a respeito. Era tudo cascata.

       É por essas e outras que a “Veja” acaba publicando tantas paginas de direito de resposta.

       Não é á toa que isso acontece. Como reconheceu a “Veja-Rio” em julho do ano passado (antes mesmo do crescimento registrado acima), o jornalismo da Globo esquentou, para usar palavra da revista,mas não esquentou por causa das matérias sobre bichos ou sobre atores que incomodam tanto esses “críticos”, como se trabalhássemos para eles e não para o publico.

      Essas matérias agradáveis de que tanto reclamam compõem um programa telejornalistico equilibrado e que foi escolhido como o melhor programa de toda a televisão brasileira pelo público paulista (em pesquisa da Datafolha encomendada e publicada pela Folha de “S.Paulo”) e pelo público carioca (em pesquisa do instituto Gerp, encomendada e publicada pelo “Jornal do Brasil”). O JN só não obteve o primeiro lugar na pesquisa do InformEstado encomendada e publicada pelo “Estado de S.Paulo”; conformou-se em ser o melhor programa do ano foi, para os leitores do “Estadão”, o Globo Repórter .

      A serie de furos de reportagem do telejornalismo da globo que se acentuou há três anos com a revelação, pelo Caco Barcelos, do cemitério clandestino de desaparecidos políticos em Perus, São Paulo, continuou como se segue e demonstra a causa do sucesso:

       A denuncia da falsificação de remédios.

       A apresentação ao povo das desgraças que a seca causou este ano no Nordeste. (A “Veja” só reparou no assunto duas semanas depois e ainda falsificou a capa da edição.)

       A localização e entrevista da advogada Jorgina, foragida na Costa Rica e hoje presa no Rio.

       Foram da Globo as cincos telerreportagens finalistas do prêmio Cásper Líbero deste ano. Foi do “Jornal Nacional” o prêmio do instituto Ayrton Senna para o veículo que mais se destacou na área de reportagens sobre educação.

       E mais:

       O “Globo Repórter” com a história secreta do atentado do Riocentro, a exibição do massacre de Eldorado-Carajás, a prova de assédio sexual de um médico da previdência a clientes num consultório oficial, a relação da prefeitura de São Paulo com a máfia dos precatórios, importações irregulares da Marinha, a violência policial em Diadema e Cidade de Deus, o esquema de contrabando de armas com participação de policiais, a fúria teatral do ex-presidente Collor, a máfia Chinesa de falsificação de CDs.

       Agora, quem não tem informação nova, relevante e bem apurada não ganha prêmio nem ganha audiência e nem segura a atenção do leitor. Reconheçamos que é doloroso.

       Não há telejornal no mundo que sequer se aproxime dos índices de audiência do “Jornal Nacional”. Acaso foi bichinho, ator acidentado ou criança recém-nascida que motivou essa preferência do povo brasileiro?”Veja” e qualquer desses outros que se roem de despeito e inveja sabem que não. (por falar nisso, já leram o livro do Zuenir Ventura?; acho bom pra quem tenha que prestar contas a Deus por esse pecado, afinal é tanta gente…já a revista, se alterar o logotipo não lhe causou trauma, que tal aproveitar a oportunidade e mudar o nome para “In-veja”?)

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