Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

ASSIM FALAVA ZARATUSTRA

Acaba de chegar às livrarias americanas um livro interessante. “Os Fantasmas da Casa Branca: Os Presidentes e Seus Escritores de Discursos”, de Robert Schlesinger. O autor é filho de Arthur Schlesinger que escreveu três ou quatro discursos de John Kennedy.
Ted Sorensen, claro, é um dos destaques do livro juntamente com John Kenneth Galbraith, que morreu beirando aos 100 anos em 2007. Galbraith revezava com Sorensen na redação dos discursos de Kennedy.

Kennedy fez grandes discursos. Um deles, porém, se tornou histórico.

Vamos aos fatos. Em novembro de 1963, dois estudantes negros, James Hood e Vivian Malone, tiveram garantido pela justiça americana seu direito de estudar na universidade do Alabama, até então exclusiva “para brancos”.

George Wallace, um ex-boxeador e governador do Estado, que era contra, tentou barrar a entrada dos dois estudantes se fixando na entrada da universidade. Bob, irmão do presidente e ministro da Justiça, enviou tropas federais para a capital, Montgomey, com a finalidade de assegurar o cumprimento da decisão judicial.

À noite, Kennedy fez o discurso, escrito por Sorensen, que entraria para a história dos direitos civis americanos (no documentário “Crise”, de Robert Drew, há uma seqüência curiosa. Nela, Sorensen aparece no Salão Oval da Casa Branca discutindo o teor do discurso com o próprio presidente). Começava assim:

Esta nação foi fundada sobre o princípio de que todos os homens são iguais. E os direitos de cada homem diminuem quando os direitos de um homem são ameaçados. Estamos nos confrontando principalmente com uma questão moral. Antiga como as escrituras, e clara como a constituição americana. O cerne da questão é se todos os americanos devem ter direitos e oportunidades iguais. Se vamos tratar nossos compatriotas como desejamos ser tratados.
Se um americano, por ter a pele escura não puder desfrutar da vida plena e livre que todos nós desejamos então qual de nós estaria disposto a ter a cor de sua pele mudada e colocar-se em seu lugar?
Cem anos de atraso se passaram desde que o presidente Lincoln liberou os escravos. E mesmo assim seus herdeiros e netos ainda não estão livres das algemas da injustiça.

Todos os presidentes têm seus ghost-writers. Juscelino teve três: Augusto Frederico Schmidt e Álvaro Lins (favor não confundir com o deputado). A famosa frase “Deus poupou-me o sentimento do medo”, pronunciada por JK na Escola Sousa Marques, no Rio, é de Schmidt.

Getúlio Vargas, que entrou para a Academia com um calhamaço, intitulado “Discursos” (lia mal e falava ainda pior), teve vários. Os mais famosos foram Osvaldo Aranha e Lourival Fontes.

Um notório senador da Roma antiga costumava dizer: “Quando eu falo o povo aplaude e diz que eu falo bem. Quando Demóstenes fala, o povo pega em armas e se declara logo em guerra”. Essa é a diferença entre um falastrão e um orador.

Carlos Lacerda foi o maior orador brasileiro e ninguém tem dúvida disso. O discurso mais importante do parlamento brasileiro, porém, é de Afonso Arinos de Mello Franco às vésperas do suicídio de Vargas. Diz um trecho:

Há uma tradição legendária que declara que, no momento em que a maior justiça se encontrou com a maior injustiça e no dia em que o erro supremo se defrontou com a suprema verdade, nesse dia o juiz, o interessado na justiça, o representante de poder estatal, que era Pôncio Pilatos, em face da perturbadora fúria, em face do transviamento das multidões arrebatadas, esquecendo-se dos deveres morais que incumbiam a sua pessoa e dos misteres políticos que incumbiam a seu cargo, respondeu, a uma advertência, com estas palavras melancólicas: “Mas, o que é a verdade?”.
A resposta a esta pergunta tem sido inutilmente procurada pelos pensadores e pelos filósofos. O que é a verdade? Para cada um ela se apresenta para cada além, para cada esperança, para cada paixão, para cada interesse. Para cada além, para cada esperança a verdade se reveste de roupagens enganosas. Ninguém jamais formulou esta pergunta em relação à negação da verdade, ninguém perguntou jamais: “O que é a mentira?”.
Ao Sr. Presidente respondo que, se não é possível saber o que é a verdade, é perfeitamente possível saber-se o que não é a mentira.

E imaginar que tudo isso foi de improviso?

Uma resposta para 'ASSIM FALAVA ZARATUSTRA'

  1. Philópedes Augustus Diz:

    Em política não existe verdades, e sim, meias verdades, pois quase sempre tudo é dito no calor das emoções.

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