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Batman estava em Aurora, disfarçado de espectador

Na “Folha”, Contardo Calligaris escreve sobre o massacre do cinema Aurora, no Colorado. Impagável, como sempre. Segue na íntegra:

Por Contardo Calligaris

O filme “O Cavaleiro das Trevas” estreia amanhã. Pelo trailer, entendi que Batman reaparece em Gotham City, que precisa dele, desesperadamente. O novo vilão que assola a cidade é Bane, vestido de colete à prova de balas e máscara antigás.

Na madrugada do dia 20, em Aurora, Colorado, um tal James Holmes, 24, vestido à la Bane e armado de rifle, espingarda e duas pistolas, atirou na plateia que assistia à pré-estreia do filme. Ele matou 12 pessoas e feriu dezenas. Por sorte, a arma mais letal, o rifle, travou no meio da matança.

Na noite do massacre, a frase que pipocava na tela era: “Where is Batman when we need him?”, onde está Batman quando precisamos dele?

Entre os espectadores sobreviventes, vários vestiam a camiseta com o logo do morcego. Alguns talvez estivessem completamente a caráter, pois existe, nos EUA, o hábito de comparecer a uma estreia vestindo o figurino de um personagem do filme. Ora, os espectadores disfarçados de Batman não supririam a falta de Batman. Em compensação, é possível que tenha acontecido o inverso: talvez Batman tenha comparecido lá, em Aurora, disfarçado de espectador.

Jon Blunk, Matt McQuinn e Alex Teves jogaram suas namoradas no chão e as protegeram dos tiros com seu corpo: eles se sacrificaram, e elas se salvaram. E Jarell Brooks, 19 anos, no meio daquele inferno, empurrou na sua frente e levou até à saída Patricia Legarreta com suas duas filhas pequenas, que ele encontrou perdidas no escuro e nos disparos. Patricia e as meninas se salvaram. Jarell não morreu, mas, ao amparar as três como um escudo, foi baleado nas costas.

Fazer a coisa certa não é um automatismo: o marido de Patricia e pai das meninas, por exemplo, desorientado no meio do massacre, encontrara só a saída, não a mulher e as filhas, que ficaram por conta.

Em suma, talvez Batman estivesse naquele cinema de Aurora, disfarçado de Jarell Brooks, Jon Blunk, Matt McQuinn e Alex Teves.

Infelizmente, além de Batman em vários disfarces, no cinema de Aurora, havia também seus (e nossos) inimigos -James Holmes estava disfarçado de Bane e com os cabelos do Curinga.

A moral dessa história é que os “ruins” se vestem de Bane ou de Curinga: eles querem se destacar, mostrar ao mundo que eles são únicos e confirmar seu “glamour” graças ao nosso olhar -admirativo ou apavorado, pouco importa, contanto que fiquemos vidrados neles.

Em tese, a mesma coisa poderia ser dita de Batman, que, apesar de não revelar sua identidade, é tão espalhafatoso quanto qualquer Curinga. Só que Batman não esteve em Aurora. Em Aurora, nossos heróis, os “bons”, ao contrário do assassino, foram quase invisíveis.

Como explicar o que aconteceu aos nossos filhos? Acharia bom lhes dizer que o que aconteceu (ou algo parecido) vai acontecer sempre; e, quando acontecer, não poderão contar com a chegada de Batman, mas poderão, isso sim, descobrir se há um Batman neles, ou não.

2 ideias sobre “Batman estava em Aurora, disfarçado de espectador

  1. Ailton eu entendo como pura filosofia. Essa camarada é bom. Boa leitura.

    Abraços.

  2. Batman sem Robin ou com ele, é igual a necessidade de matar, de massacrar, de exterminar, que os fabricantes de armas dos EUA possuem por força dos seus ofícios. Chacais que os próprios chacais vomitariam cuspindo( Neruda), a grande ave de rapina difunde a cultura da violência e tem como principal valor o assassinato, para que sua industria bélica floresça. Não se iludam, isso não foi um massacre de pessoas, foi apenas uma demonstraçao da eficiência das suas mercadorias, dizem-nos com todas as letras os falcões da guerra.