O BOPE É POP
“Tropa de Elite” é bem mais do que um retrato do Brasil. Como cinema, é um ótimo thriller, destinado a se tornar ícone da cultura pop
* Por João Gabriel de Lima
Há mais semelhanças entre as fotos que ilustram este texto do que supõe nossa vã sociologia. De um lado temos Wagner Moura. Do outro, Sylvester Stallone. Wagner interpreta Capitão Nascimento, policial truculento e incorruptível. Stallone veste a roupa do tenente Marion Cobretti, o Cobra, policial truculento e incorruptível. Capitão Nascimento faz parte do Bope, Batalhão de Operações Policiais Especiais – divisão da Polícia Militar do Rio de Janeiro que, como o nome sugere, é chamada a intervir em ocasiões complicadas. Cobretti pertence ao Zombie Squad, divisão da polícia de Los Angeles que se encarrega do combate de criminosos de altíssima periculosidade. O filme Tropa de Elite, em cartaz no Brasil, mostra Capitão Nascimento combatendo os bandidos do tráfico carioca, impiedosos e armados até os dentes. Em Cobra, clássico de Sylvester Stallone, o Zombie Squad enfrenta uma gangue de neofascistas que aterroriza a maior cidade da Califórnia e ameaça barbarizar uma testemunha linda e loira, Ingrid Knudsen, interpretada pela atriz Brigitte Nielsen no auge de sua forma.
OK, parece forçado comparar os dois filmes, e num certo sentido é mesmo. Cobra, que tem roteiro assinado pelo próprio Sylvester Stallone, era apenas um thriller, e não se pretendia mais do que isso. Tropa de Elite é dirigido por José Padilha, autor de um dos melhores documentários já feitos no Brasil, Ônibus 174, e tem a intenção de traçar um painel da criminalidade no Rio de Janeiro baseado em fatos reais. Os dois têm, no entanto, algo em comum. Independente da ambição e intenções, são principalmente filmes de ação, e como tal devem ser analisados e entendidos.
O roteiro de Tropa de Elite tem duas partes bastante claras. Na primeira, o espectador passeia pelo mundo do crime carioca ciceroneado pelo Capitão Nascimento. Ele próprio narra as cenas num tom sardônico, que lembra em alguns momentos o do personagem interpretado por Joe Pesci em Cassino, de Martin Scorsese – um mafioso que desvenda para o espectador o submundo do jogo em Las Vegas. As imagens expressam o sarcasmo do policial, em algumas cenas engraçadas ou irônicas. Uma delas mostra como os policiais militares negociam e repartem o dinheiro da corrupção num prostíbulo em Copacabana, entre carícias e goles de uísque. Em outra, um professor universitário tenta ensinar tópicos de Vigiar e Punir, de Michel Foucault, a seus alunos. A ironia é que o único que se aprofunda na leitura do livro é um jovem aspirante ao Bope, de origem humilde. Os alunos bem-nascidos preferem fumar maconha a encarar o tijolo de Foucault.
Na segunda parte, o filme se torna pancadaria pura, no melhor estilo Cobra. Apesar da crueldade – são mostradas cenas de tortura -, o roteiro é de tirar o fôlego. O espectador não desgruda o olho da tela e se contorce na cadeira esperando pelo minuto seguinte. Tudo somado, Tropa de Elite é impiedoso com todos os contendores do jogo do crime. Não diz, no entanto, nenhuma novidade. De uma maneira geral, Tropa de Elite mostra que:
1. A polícia brasileira é corrupta. Os policiais não apenas traficam armas, mas chegam a vender peças dos carros da corporação para ganhar uns trocados.
2. A elite da polícia, o Bope, é truculenta. É do tipo que atira primeiro e pergunta depois. Melhor dizendo: não pergunta. Tortura para conseguir a informação.
3. Os bandidos ligados ao tráfico são impiedosos. Eles não fazem nenhum bem às comunidades dos morros. Apenas barbarizam e oprimem a população pobre e honesta.
4. O ensino de ciências humanas em grande parte das universidades brasileiras é superficial. Professores desmotivados e alunos que não gostam de estudar se limitam a repetir chavões como “o aparelho do sistema legitima a dominação de classe”.
Nas proposições anteriores, existe algo que você não sabia? Surge daí a segunda pergunta: como uma obra que não diz nada de novo provocou tanta polêmica nas semanas que se seguiram ao seu lançamento?
Existem várias respostas possíveis a essa questão: a contundência das cenas de violência, o fato de tratar de um tema explosivo, o retrato multifacetado e sarcástico do mundo do crime. Mas é inevitável reconhecer que a maior parte da polêmica foi levantada por articulistas que se basearam numa premissa falsa: a de que o filme faria apologia da tortura e da violência policial. As imagens na tela desmentem isso. O Bope é mostrado de forma negativa em vários momentos, e José Padilha zomba dele da mesma maneira que o Capitão Nascimento faz troça com a polícia corrupta. Os integrantes do Bope são apresentados como adeptos de uma seita de fanáticos, uma espécie de Ku Klux Klan militarista. Em Tropa de Elite, enquanto marcham num charco durante um teste de sobrevivência na selva, os integrantes do esquadrão entoam cânticos como: “Homem de preto, qual é sua missão?/ Entrar na favela e deixar corpo no chão”.
O engano de que o longa seria “fascista” tem mais a ver com seus méritos do que com seus defeitos. Tropa de Elite é, antes de tudo, um bom filme de ação. Num bom filme de ação, é inevitável torcer para o protagonista, ainda mais quando ele é interpretado por um ator carismático como Wagner Moura. Torcer para o Capitão Nascimento não significa apoiar seus métodos. Da mesma maneira que torcer para Cobra no filme de Sylvester Stallone não é sinônimo de defender os métodos truculentos empregados por parte da polícia de Los Angeles. A má sociologia que se fez em torno da primeira sessão de Tropa de Elite, no FestRio, em que parte da platéia aplaudiu o protagonista, é, assim, apenas isto: má sociologia.
Aos poucos, essa interpretação pretensamente séria de Tropa de Elite foi sendo substituída por algo mais apropriado a um filme de ação: um culto pop. Que começou quando o longa nem havia sido lançado. O bordão “Pede para sair, 01!”, repetido pelo Capitão Nascimento no filme com o intuito de fazer um policial corrupto desistir do treinamento do Bope, foi empregado pela torcida do Flamengo, em setembro, em pleno Maracanã. Os flamenguistas queriam a saída do técnico Joel Santana, apontado como culpado pela má campanha do time no campeonato brasileiro. Depois do lançamento, outras frases do filme – “Tá com medinho, 01?”, “Não atira na cara para não estragar o velório” – se tornaram igualmente bordões. Como ocorre com produtos da cultura pop, o culto em torno de Tropa de Elite é em geral bem-humorado. Pipocam na Internet sites com os “Capitão Nascimento Facts”, listas de façanhas fictícias do protagonista de Tropa de Elite inspiradas nos Chuck Norris Facts, alusão a outro astro dos filmes de ação. Exemplo. Quando Deus disse que faria o mundo em sete dias, Capitão Nascimento teria respondido: “Faça em seis, senhor 01!”. Blogs atribuídos ao Capitão Nascimento também foram criados. Num deles, o personagem do filme participa de um divertidíssimo debate virtual com o escritor João Paulo Cuenca, que criticou o longa num jornal. Até o fechamento desta edição, havia mais de 30 comunidades dedicadas a Capitão Nascimento no Orkut. O personagem virou sucesso também no YouTube. Imitações toscas e divertidas de cenas do filme se tornaram sucesso no maior site de compartilhamento de vídeos na internet.
Agora, falta o Capitão Nascimento ser homenageado na data mais importante da cidade onde vive o personagem. Sim, isto mesmo o que você pensou: o Carnaval, o maior momento da cultura pop no Brasil, onde os personagens que se tornaram ícones ao longo do ano são homenageados com máscaras (em 2008, esperam-se muitas de Renan Calheiros e do papa Bento 16). Capitão Nascimento será mais do que máscara. Ele merece a fantasia completa. Elas já começaram a ser vendidas nas lojas especializadas, com a indefectível camiseta preta estampada com a caveira. Certamente o traje será sucesso nos blocos da zona sul, como Simpatia É Quase Amor, Sovaco do Cristo e Monobloco. Sociologia, dizem, é coisa de francês. Carnaval, como todos sabem, nós fazemos melhor do que ninguém.
* Diretor de Redação da revista Bravo!





Carregando...