CONTRA A MARÉ
O jornalista Mario Marques tem vários atributos, torcer pelo Vasco é um deles (já pensou se o cara fosse Flamengo, hein? Dos males, o menor).
MM cuja saúdável chatice me faz tanto bem, escreveu um ótimo artigo no “Jornal do Brasil” que faço questão de reproduzir aqui, mas sem antes informar que o jornalista é o novo chefão da revista “Set” (e editor do “Caderno B” e da Revista Domingo”, ambos do JB). Leiam e reflitam:
Jornal, eu disse isso no twitter (este campo coletivo das carências), é sexo violento. Revista é o sofisticado. Cada um tem um sabor. Desde 1995, com o início da popularização da internet, ambos os produtos buscam o mesmo: se reinventar para não morrer. Mas não é fácil. Porque há um gap pontual de tempo e espaço. No jornal, em vez de apenas dizermos no dia seguinte que o time tal venceu outro, é necessário que avancemos à outra rodada, que analisemos qual peça pode melhorar o o que não funcionou, é preciso fazer contas, entrevistar que não jogou… olhar para tudo e achar alternativas. Porque o resultado do jogo – e como ele foi – isso todo mundo já sabe, pela TV, pela web e por amigos antes de virar a meia-noite. Na revista semanal, o desafio é cirúrgico. É preciso investir em reportagens, ir a fundo em assuntos que, pela velocidade diária, não foram alcançados. Na mensal, o mundo perfeito é mais distante ainda. Como enfrentar a internet? É sabido que poucos jornalistas de alto escalão têm habilidade para fazer isso. É por isso (e por outras) que as revistas (e jornais) estão fechando as portas. Fazer o sujeito ir a uma banca comprar uma revista (ou um bolo de papel) é uma tarefa hercúlea. Revista nova, jornal novo, então…
Às revistas: as de música foram para o saco. Não suportaram a violenta concorrência da internet e afundaram com a indústria fonográfica. A Bizz, que foi muito forte nos anos 80 e em parte dos anos 90, especialmente na gestão de Pedro Só, encerrou os trabalhos na Editora Abril diante do inevitável. Ninguém mais tira dinheiro do bolso para comprar revista de música, é um fato. Restou a Rolling Stone. Que não é essencialmente uma revista de música. Tremo dos pés à cabeça quando lembro das minhas experiências com o ramo. No fim dos anos 80, cometi a primeira delas, A Clava do Som, dedicada especialmente ao público de rock progressivo. Como era a única publicação direcionada ao segmento, as vendas em bancas e assinaturas eram bem significativas. Quando pintou a internet, vala. Em 2004, mesmo sabendo que os executivos de multinacionais fonográficas estavam em colapso nervoso com os balanços aterrorizantes, atirei-me de novo à empreitada com a Laboratório Pop, paralelamente ao site. Era sólida, muita reportagem, design moderno, distribuição nacional e crescia junto com o mercado independente. Durou 11 edições, no limite do que podia, diante de uma indústria trôpega, que já caminhava para o fim. Dois carros foram embora nessa brincadeira.
Agora estamos aqui às voltas com a SET, a revista de cinema mais cultuada do Brasil. É cinema. Não é música. Se fosse estaria longe disso, em Tegucigalpa. Tenho me comunicado sistematicamente com seus leitores. Um de Crato, no Ceará, outro de Tubarão, em Santa Catarina. Ambos têm a coleção completa da revista e passam todo dia na banca próxima de casa a procurá-la. Eles não querem a SET. Eles DESEJAM a SET tal como a Cléo Pires. Pensar na possibilidade de não tê-la nas mãos é quase uma tragédia grega. Juntando todas as comunidades da SET no orkut são quase 6 mil atuantes leitores. Que comentam, vigiam, criticam e, principalmente, compram a revista. Comecei a pesquisar outras revistas de cinema – e até de tecnologia. E não há sombra dessa participação. O curioso é que se trata do mesmo público que acessa a internet. Gente jovem que transcende a web e quer ver o papel de qualquer jeito. Um movimento oposto de todas as pesquisas de mercado, nas quais a tendência é tratar uma gráfica como um ambiente pré-histórico. Essa mobilização transforma um leitor num fã. Mantendo a qualidade editorial, aumentando suas possibilidades na internet, pondo como motor uma usina de promoções, periga a SET – e alguns outros poucos títulos no segmento de entretenimento – não ter prazo de validade.
A coisa é motivo para estudo sociológico. Noutro dia ligou um sujeito que compra a revista na mesma banca do Recife desde o fim dos anos 80. Diz ele que o dono do ponto (também o mesmo) já não suporta vê-lo entrar com a repetida pergunta: “Já chegou?”. “Eu passo um mês sem ver minha mulher, mas não fico sem a SET de jeito nenhum. É um costume que já dura mais de duas décadas. Não dá para mudar. Eu não consigo”, relata Marcelo Cadwell.
Fenômenos como a SET reforçam os pilares existenciais de Gay Talese, o cidadão para o qual todo jornalista estende tapete vermelho, como se estivesse diante de um artista de Hollywood. Ele costuma dizer que a internet é superficial, que os textos de jornais, a investigação e a construção de reportagens acuradas terão sempre audiência forte. Mas o fato é que quem entrou, entrou. Quem não entrou não entra mais. Nenhuma editora, especialmente desta área de entretenimento, se atreve a lançar produto novo agora. Nenhum jornal quer surgir. O destino seria, invariavelmente, o fim. Tempo aqui é uma grande vantagem.




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1/08/09 às 8:38
Ailton,
Entendo como um devaneio de um profissional que está vendo seu campo de trabalho se deteriorar sem poder fazer nada, ao advento da internet.
É tudo verdade, no entanto, tem uma vantagem, chegando à exaustão publicação em revista, uma coisa teremos certeza, sem sobra de dúvidas, os políticos acostumados a fazerem citações nos discursos da vida nascâmaras deputatórias e senatórias, não terão mais a quem recorrer e, o que é melhor, na própria internet, do mesmo modo, só sobreviverão os bons, muito embora, o campo seja vasto e, qualquer um pode escrever e dizer, comentar ou criar histórias ou estórias, mesmo mentirosas, que não adiantará de nada – ninguém às interessará, quando, na verdade, aqueles políticos safados, só encontrarão apontamentos contra a eles próprios.
Ailton, acredito, no futuro próximo, que você será um desses poucos que sobreviverão.
Esta é minha opinião.
Fui!
1/08/09 às 11:45
Prezado Ailton, parabéns pelo blog, que acesso diariamente. Seu Comentário acderca de “O Deserto dos Tártaros” me levou à releitura dessa obra que considero sensacional. É a leitura do Fim de Semana. Obrigado e muito sucesso. Miguel
1/08/09 às 12:59
Teu fim de semana será maravilhoso, Miguel.
1/08/09 às 13:50
Ailton,
Veja o ótimo texto do seu conterrâneo Josenildo Carlos, falando da hipocrisia de nós brasileiros, que criticamos a roubalheira dos políticos e esquecemos dos nossos deslizes pessoais.
Abração!