Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

CRONICA DA BANALIDADE

O livro sobre Lavoisier Maia criou um novo bordão: tudo se perde, nada se transforma. Foi escrito pelo sociólogo Itamar de Souza. Há depoimentos de gente que participou de seu governo, todos, claro, elogiando o político de Catolé do Rocha. Não há um contraponto, o que só demonstra a incapacidade critica da nossa intelectualidade papa-jerimum.

Li algumas páginas e me entediei com o estilo rebuscado do autor. Lavô é sem dúvida um grande personagem, mas Itamar que convive com ele há anos não percebeu o óbvio. Para o leitor ter idéia, Lavô perdeu os pais ainda criança.

Foi adotado por uma tia que o criou como se fosse um filho, formou-se em  medicina e quase morreu num tiroteio até se tornar governador do Rio Grande do Norte substituindo Tarcísio Maia, seu primo, de quem foi secretário de Saúde.  Lavô ainda foi senador e deputado federal. Não é pouca coisa.

Joyce escreveu uma obra prima, “Ulisses”, a partir de um evento banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia.

Itamar fez o inverso: transformou uma vida extraordinária numa banalidade.

2 respostas para 'CRONICA DA BANALIDADE'

  1. João Carlos Diz:

    Ailton, vc provou que é possível filosofar em potiguês. Valeu, cara.

  2. Zé Dias Diz:

    Perfeito.

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