Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

CRÔNICA DE UMA IMPORTALIDADE ANUNCIADA

Um texto divertido, como sempre, do dramaturgo, jornalista e craque das palavras  Sérgio Roveri sobre a imortalidade humana.  Confiram:

A capa deste mês da revista Super Interessante traz uma manchete de um otimismo assustador. Aplicado na foto de um garoto, surge o título “Ele Pode ser Imortal”. Embaixo, a explicação: em 50 anos é possível que ninguém mais morra de velhice. A ciência está preparando um arsenal de drogas e tecnologia que permitem manter você vivo para sempre. E com o corpo que sempre quis.

Eu teria ficado bem menos preocupado se a manchete da revista fosse: Confirmado o Fim do Mundo para 2012. Não consigo imaginar uma civilização capaz de extinguir a idéia da morte – ou sua existência, como propõe a revista. Este tipo de previsão só não me deixa mais alarmado porque eu tenho certeza de que, se tudo der certo, em 50 anos eu já estarei morto, enterrado e esquecido. E digo isso com muita alegria e um alívio maior ainda. Eu creio que só existe uma coisa pior do que a morte: é não morrer. Por mais otimista que eu esteja, e mesmo naqueles dias de alegria intensa e absoluta, me anima a ideia de que um dia as coisas vão terminar para mim e que a gente vai poder ir embora, sabe-se lá para onde. É sério.

Falo isso sem qualquer traço de morbidez ou depressão: tenho certeza de que um dia vai ser muito bom levantar acampamento deste planeta, mesmo sem saber se existe alguma coisa do lado de lá. Eu não gostaria que a ciência nos transformasse numa legião de Nosferatu: gente vivendo até os 200 anos de idade só para dizer que agora tudo é uma bosta e que bom mesmo era no tempo da juventude. Porque é isso que iremos fazer, tenho certeza. Reclamaremos destes anos extras como almas ranzinzas aprisionadas em corpos plastificados. Não sei como será o ser humano sem a ideia da finitude.

Penso que continuaremos a morrer de acidentes aéreos, de desastres naturais, vítimas da violência urbana e outras dezenas de causas que seguramente surgirão. E tenho certeza, também, de que nos mataremos muito mais: aposto que, aos 120 anos, por exemplo, não agüentaremos uma nova desilusão amorosa e vamos nos atirar do primeiro prédio que encontrarmos com as janelas abertas. Porque eu acho que não fomos programados para tanta vida. Sei que odiamos a ideia da morte, da nossa e a dos nossos entes queridos. Mas odiaremos muito mais a ideia de que viveremos para sempre ao lado dos nossos entes a quem o tempo se encarregará de tornar menos queridos a cada década: a imortalidade é uma prisão que nós não merecemos.

Não sabemos de onde viemos, para onde vamos e nem o que estamos fazendo aqui. E agora vem a ciência disposta a acabar com a única certeza que a gente tem nesta vida: a de que vamos morrer.

3 respostas para 'CRÔNICA DE UMA IMPORTALIDADE ANUNCIADA'

  1. Bertram Diz:

    Saramago concorda com Sérgio Rovieri. Em sua obra “As intermitências da morte”, narra o escriba lusitano os fatos decorrentes exatamente da ausência de morte; a partir de primeiro de janeiro de determinado ano, ninguém houve de morrer mais nos limites de uma cidade não identificado. As consequências sociais, políticas e econômicas da condenação à vida são mostradas com aquele jeito especial e único que Saramago tem de criar, romantizar e escrever sobre situações absurdas, tal qual fez em “Ensaio sobre a cegueira” e em “Jangada de Pedra”.

    Leitura extremamente recomendada.

  2. Tiago Holanda Diz:

    Sei não, acredito que não estamos aqui á passeio e, em algum momento de nossas vidas “isso” fará algum sentido, espero, ou será que tudo que tem inicio poderá não terá fim? A nossa “lógica” responde que sim. Rapaz, acho que esse papo de imortalidade da carcaça humana é pura estupidez, infantilidade ou desvirtuação científica, né não?

  3. Lis Diz:

    Antigamente, se morria
    1907, digamos, aquilo sim
    é que era morrer.
    Morria gente todo dia,
    e morria com muito prazer,
    já que todo mundo sabia
    que o Juízo, afinal, viria,
    e todo mundo ia renascer.
    Morria-se praticamente de tudo.
    De doença, de parto, de tosse.
    E ainda se morria de amor,
    como se amar morte fosse.
    Pra morrer, bastava um susto,
    um lenço no vento, um suspiro e pronto,
    lá se ia nosso defunto
    para a terra dos pés juntos.
    Dia de anos, casamento, batizado,
    morrer era um tipo de festa,
    uma das coisas da vida,
    como ser ou não ser convidado.
    O escândalo era de praxe.
    Mas os danos eram pequenos.
    Descansou. Partiu. Deus o tenha.
    Sempre alguém tinha uma frase
    que deixava aquilo mais ou menos.
    Tinha coisas que matavam na certa.
    Pepino com leite, vento encanado
    praga de velha e amor mal curado.
    Tinha coisas que têm que morrer,
    tinha coisas que têm que matar.
    A honra, a terra e o sangue
    mandou muita gente praquele lugar.
    Que mais podia um velho fazer,
    nos idos de 1916,
    a não ser pegar pneumonia,
    e virar fotografia?
    Ninguém vivia pra sempre.
    Afinal, a vida é um upa.
    Não deu pra ir mais além.
    Quem mandou não ser devoto
    de Santo Inácio de Acapulco,
    Menino Jesus de Praga?
    O diabo anda solto.
    Aqui se faz, aqui se paga.
    Almoçou e fez a barba,
    tomou banho e foi no vento.
    Agora, vamos ao testamento.
    Hoje, a morte está difícil.
    Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
    Agora, a morte tem limites.
    E, em caso de necessidade,
    a ciência da eternidade
    inventou a criônica.
    Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

    (Paulo Leminski)

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