Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

JOSÉ SARAMAGO

JOSÉ SARAMAGO

Antônio Júnior – Especial para o Blog

De 1995 a 2002 o jornalista e escritor baiano Antônio Júnior perambulou pela Europa. Nesse período, entrevistou atores, diretores de cinema, escritores, bailarinos músicos, cantores e o diabo quatro.
As entrevistas – publicadas em jornais e revistas brasileiros – resultaram no livro “Artepalavra”, editado aqui pela A.S. Livros.
O Blog publica com exclusividade a entrevista com o escritor português e Prêmio Nobel de Literatura José Saramago. Ela ocorreu num café no centro de Lisboa. “De sua alta varanda é possível avistá-se o imponente Castelo de São Jorge, as colinas melancólicas, o rio Tejo e pombas gordas e barulhentas”, conta Júnior. Saramago chegou ao local na hora marcada, acompanhado da mulher, a espanhola Pilar Del Rio. Abaixo, a entrevista.

O senhor tem uma relação difícil com Portugal, inclusive vive em outro país. Mesmo assim os portugueses insistem em colocá-lo como representante desse país.

Eu não posso e nem quero representar Portugal. Nada do que penso transmite tal idéia. Quanto a viver aqui, por que tenho que fazê-lo depois da infame proibição de O Evangelho Segundo Jesus Cristo? Fiquei indignado e triste e as circunstâncias me levaram a viver em Lanzarote. Além do mais, Jorge de Sena vivia no Brasil e depois nos Estados Unidos, Eduardo Lourenço vive na França e muitos outros escritores e poetas viveram ou vivem fora daqui. O importante é que pago os meus impostos. Nunca houve uma ruptura com o meu país. Não sou um exilado como dizem os meios de comunicação, que chegaram a me chamar do Salman Rushdie português.

Volta sempre à sua pequena aldeia em Alentejo?
Estive lá um dia desses. Mas acredito que sou filho do tempo em que vivo e não do lugar onde nasci. Digo porque, a vila onde eu nasci já não é a mesma depois de 70 anos. Mudou completamente a paisagem. Havia extensões incríveis de oliveiras que foram arrancadas. Quando chego ali, me encontro em outro mundo, que não é o mundo da memória.

Vive numa ilha tranqüila. Não se sente diante do mundo moderno?

Não vivo distante do mundo. Estou sempre viajando, venho a Portugal todos os meses. E escrevo novelas que provam que tenho um certo interesse e algumas idéias sobre o mundo e sobre os seres humanos .

Acredita num mundo melhor?

Acredito que temos que fazer algo por um mundo mais justo, buscar soluções para os problemas. Efetivamente, não adianta a crença num mundo melhor se continuarmos de braços cruzados, apenas acreditando em conceitos como esperança e utopia. É preciso indignarmos-nos. Ou melhor, deveríamos refletir seriamente sobre o que está acontecendo no mundo, na economia, na ecologia, na desigualdade, na indiferença, no racismo.

Por que o senhor evitar qualificar-se como pessimista?

Porque eu não sou pessimista, apenas observo a realidade. É só olhar o mundo e ver o que está acontecendo, ver o desespero de milhões de pessoas que vivem miseravelmente. Aparentemente existe o protótipo do mundo feliz para poucos. O mundo é um pesadelo e poderia não sê-lo, porque existem muitas formas de contornar essa situação.

Mas a sua literatura é considerada pessimista.

Não gosto de discutir esse conceito, não leva a nada. Não existe o pessimismo puro. O que posso dizer é que não sou pessimista, apenas tenho uma visão do mundo bastante pessimista.

Crê que a literatura pode ajudar a humanidade?

A literatura pode muito pouco. Não vamos embarcar em ilusões, no otimismo. Ajudar a humanidade? Não sei se a humanidade quer ser ajudada. Mas a missão do escritor se existe alguma, é não se calar, que deveria ser a missão de todas as consciências.

A sua criação não é fácil. Acredita que as pessoas intelectualmente mais simples podem captá-la?

A idéia não é procurar escrever pensando que todo mundo vai compreender sua literatura. O problema não estar em levar os livros para a gente mais simples; está em que cada um de nós faça da melhor maneira possível aquilo que sabe. Seria um erro fazê-lo pior, podemos fazê-lo melhor. A criação de um autor deve estar ao alcance de todas as pessoas, para que elas procurem e possa entendê-la. O caminho é a cultura ao alcance de todos. Sei que há livros meus que muita gente não entende, e tenho que declarar, muito humildemente, que há livros que não entendo, que também não estão ao meu alcance.

Como o senhor descreveria a novela, talvez o gênero literário que mais trabalhe?

Faço novelas porque não aprendi a escrever ensaios. Eu não tenho imaginação. A novela, como eu a vejo, mudou muito, não é mais como as magníficas novelas do passado que contavam histórias sobre a vida das pessoas. Vejo a novela não como um gênero literário, mais um espaço criativo onde devem estar o ensaio, o drama, a filosofia, a ciência. É preciso transformar a novela num depósito de sabedoria humana.

Este é um conceito antigo.

Talvez, mas que teve a sua meta desviada. Nas minhas novelas, tenho a história que quero contar, limitada ao essencial. Logo, sem perceber, entro com uma reflexão ensaística ou filosófica, deixando o narrador ou os personagens por instantes. O autor fala sem estar previsto inicialmente.

Esse autor que fala confunde com o narrador?

Eu não acredito no narrador, ele não existe, é uma invenção. O que estar no texto é um senhor que se autor e nada mais, muitas vezes fingindo que é o narrador.

Camilo José Cela declarou que, ao ganhar o Nobel, precisou de muita força e saúde para não se esgotar completamente.

É verdade fiquei muito cansado. Não fazia outra coisa senão viajar. Foram muitos congressos, entrevistas, lançamentos, apresentações, doutoramentos honoris causa. O próprio Cela já havia me avisado que o ano imediato ao prêmio é perdido. Mas não me queixo.

A cultura se move muito por modas. Quando pensamos que os brasileiros estão interessados na literatura portuguesa, como é o caso da sua obra e da de Lobo Antunes, não estaremos dando importância a algo passageiro?

As modas não são negativas. Sem moda seguiríamos como antes. É bom que surja algo diferente, mesmo efêmero. Algo sempre permanece. Inclusive falando de autores que estão na moda. Se com a moda da literatura portuguesa, que você disse que existe no Brasil e eu não creio muito, passamos a vender um pouco mais, já é bastante interessante.

Saramago não é o verdadeiro sobrenome?

Eu fui o primeiro Saramago da família, porque o empregado do registro civil fez uma pequena confusão. Sou um Souza. Saramago é uma planta que no tempo da minha infância, e antes, as pessoas da minha aldeia, em épocas de crises, digamos, comiam saramagos. Gosto do meu sobrenome, não queria ser chamado de José de Souza.

Por que escreve dia após dia?

Eu vivo desassossegado, escrevo para desassossegar. Não desejo abandonar-me à comodidade existencial. Mas o que procuro saber com a minha escrita, no fundo, é essa coisa tão simples e que não tem resposta: quem somos? Porém, quando esgotar o que tenho que dizer, terei a sensatez de não escrever mais.


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