« Voltar | Início » Notas » Este garoto pode mudar a história do câncer

Este garoto pode mudar a história do câncer

Tá vendo esse garotão aí de cima com pinta de roqueiro bem comportado? Anote seu nome: Jack Andraka.

Este jovem de 15 anos é a sensação do momento nos Estados Unidos depois que venceu em maio deste ano a Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel com um projeto que pode mudar a história do câncer de pâncreas: um teste capaz de detectar mais rápido e barato a doença.

Filho mais novo de uma médica e um engenheiro civil, ele contactou mais de 200 pesquisadores americanos em busca de um laboratório para trabalhar em seu projeto de pesquisa. Apenas um respondeu que sim.

O iG conversou com o garoto prodígio. Seguem trechos:

iG: Quando você começou a se interessar por ciências?

Jack Andraka: Eu tinha uns três anos quando meu pai comprou para mim e para o meu irmão [ dois anos mais velho ] uma maquete de plástico de um rio, com água e tudo. Nós ficamos brincando com aquilo o dia inteiro, observando a corrente e colocando os mais diferentes objetos nela, para ver o que afundava, o que seguia o curso da água e o que mudava a corrente. A gente queria respostas. Queria entender como aquilo acontecia. Acho que o interesse despertou a partir daí.

iG: Quanto tempo depois disso você começou a participar de competições de ciências?

Jack Andraka: A primeira competição foi na 6ª série, com 12 anos. Eu adaptei um dispositivo de segurança para evitar que o fluxo de água nas quedas d’água de pequenas represas cause afogamentos.

iG: Você venceu?

Jack Andraka: Eu tinha 10 anos e como estava na 6ª série, não podia participar do prêmio da Intel, porque aqui nos EUA ele é apenas para estudantes de ensino médio. Mas tirei segundo lugar na versão internacional do mesmo prêmio com esse projeto.

iG: Como você teve a ideia do projeto vencedor do prêmio internacional deste ano?

Jack Andraka: Eu escolhi um tema que me interessava na época. O câncer de pâncreas teve um impacto importante na minha família, nós perdemos um parente com a doença. Aí fui pesquisar sobre ela e descobri que 85% dos casos são diagnosticados em estágios avançados, quando o câncer já está espalhado pelo corpo e os pacientes em geral têm menos de 2% de chances de sobrevivência. Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito.

iG: E você simplesmente decidiu fazer isso?

Jack Andraka: Bem, eu fui atrás de todas as formas conhecidas de diagnóstico desse tipo de câncer e descobri uma proteína chamada mesotelina, que está presente no câncer de pâncreas, assim como nos de ovário e pulmão. A ideia veio mesmo numa aula de biologia. Estávamos aprendendo sobre anticorpos, essas estruturas produzidas pelo sistema imunológico. No câncer que eu estava estudando, os anticorpos se ligavam apenas à mesotelina. Na mesma época, li um artigo muito legal sobre nanotubos de carbono. Você sabia que essas estruturas têm o diâmetro 150 mil vezes menor do que o de um fio do seu cabelo?

G: Nossa, não tinha ideia de que eram tão pequenas…

Jack Andraka: Sim, os nanotubos têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência. Ok, o que fiz foi meio que conectar essas duas ideias. Eu inventei um sensor de nanotubos de carbono e anticorpos capaz de identificar a presença da mesotelina e dizer, baseado no quanto dessa proteína se liga aos anticorpos, se a pessoa tem câncer de pâncreas.

iG: Quanto tempo você levou para concretizar a ideia?

Jack Andraka: Foram ao todo 7 meses de muito trabalho.

iG: Onde você trabalhou? Em casa? No laboratório da escola?

Jack Andraka: Não, eu contatei 200 pesquisadores na Universidade Johns Hopkins e nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos pedindo espaço em laboratório e apoio para desenvolver a minha pesquisa. Apenas um me disse sim [ Anirban Maitra, professor de Patologia, Oncologia e Engenharia Química e Biomolecular da Escola de Medicina da Johns Hopkins ]. Uns me responderam que não tinham espaço, outros que não tinham o equipamento, outros simplesmente não responderam. Quando finalmente fui aceito, cumpri um rigoroso processo para me transformar em um pesquisador e iniciei o trabalho.

iG: Durante a pesquisa, como ficou a escola? Você conseguia dar conta de tudo?

Jack Andraka: Normalmente eu consigo fazer todas as coisas da escola durante o período das aulas. Enquanto desenvolvia o projeto, eu ficava até tarde da noite no laboratório fazendo e refazendo os testes, então aproveitava o tempo entre eles para completar o dever de casa.

iG: Os seus pais não reclamavam de você ficar até tarde da noite trabalhando?

Jack Andraka: Meus pais não reclamavam, pelo contrário. Eles sempre valorizaram o trabalho e o esforço. Acho que só consegui chegar até aqui porque como pais eles me ajudaram e me incentivaram.

iG: Com todas essas atividades, você consegue passar algum tempo com os amigos e a família? Aliás, você tem namorada?

Jack Andraka: Não tenho namorada. Mas eu gosto de socializar sim. Este ano, com todo o trabalho no projeto, a minha vida social ficou um pouco comprometida, mas os meus amigos me apoiam e entendem isso. E continuam meus amigos.

iG: Depois da vitória no prêmio da Intel você foi contatado por algum interessado em produzir e vender o seu teste?

Jack Andraka: Sim, já fui contatado por sete empresas de biotecnologia interessadas em produzir o teste. Estou aguardando a conclusão do processo de patente, ainda não decidi que direção quero tomar.

iG: Além do câncer, quais outras áreas você ainda gostaria de pesquisar?

Jack Andraka: Eu definitivamente gosto de Biologia, mas também tenho interesses em Física e Química. Então venho tentando combinar essas três coisas nos meus próximos projetos.

iG: Já pensou sobre a faculdade? O que pretende cursar e onde deseja estudar?

Jack Andraka: Hum…não tenho a mínima ideia de onde ou o que vou estudar. Há tantas opções hoje em dia e tanta gente com diploma. Não sei se quero seguir esse caminho.

iG: O seu histórico e a sua mais recente invenção geraram uma grande expectativa em torno da sua performance no concurso do próximo ano. Como você lida com isso?

Jack Andraka: Acho que será um novo desafio. Quero participar do concurso do ano que vem e pretendo me divertir com isso. Só quero seguir pesquisando.

3 ideias sobre “Este garoto pode mudar a história do câncer

  1. É Ailton, com o QI dele (pai e mãe), qualquer um que não seja irresponsável e tenha vontade, consegue. Lembro de uma frase de Airton Senna, se não me engano é mais ou menos assim:

    “QUANDO VOCÊ FIZER OU DECIDIR EM FAZER ALGO FAÇA COM AMOR, COM DEDICAÇÃO QUE UM DIA VOCÊ CHEGA LÁ”.

    Às vezes, também, traumas ajudam no combate do seu objeto causador do mal, no meu entender, foi o que aconteceu com ele. Por ter perdido um familiar com o problema o marcou e com dedicação chegou lá ou, pelo menos, descobriu um meio de poder se evitar que a doença vença.

    É brilhante ver jovens interessados em pesquisas desse tipo, são novos cientistas que surgem e a vida continua.

    É isso.

  2. Mto interessante Ailton. É um belo exemplo de como canalizar a energia dos jovens para descobertas e educá-los para a ciência. Claro que tudo acontece num país que apóia e da suporte para essas experiências, o que não significa que não pode acontecer por aqui. É uma questão de melhorar nossa educação em todos os seus aspectos e deixar nossa criatividade fluir. É impressionante como pequenos estímulos e exemplos ajudam na formação dos filhos. Vamos divulgar!!