Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

FORA DE ÓBITA

Para quem é fã de Woody Allen como este escriba, novembro promete.

O livro ”Conversas com Woody Allen”, de Eric Lax, narrando o percurso fascinante do diretor nova-iorquino, e seu mais recente filme ”Vicky Cristina Barcelona” desembarcam este mês no Brasil.

Para brindar o leitor, aí vão trechos do artigo de João Gabriel de Lima sobre o diretor de “Hannan e Suas Irmãs”  publicado na revista “Bravo!”. Vale a pena ler.

Confiram:

 — Vamos para Oviedo. Lá, comeremos pratos deliciosos, beberemos bons vinhos e  faremos amor.
— Quem vai fazer amor?
— Se tudo der certo, nós três.

O diálogo acima acende o rastilho de Vicky Cristina Barcelona, a nova — e  desconcertante — explosão do talento de Woody Allen.

A cena, uma das primeiras do  filme, é ambientada num restaurante em Barcelona. O pintor espanhol Juan Antonio se  levanta de um jantar com amigos e caminha até a mesa das turistas americanas Vicky  e Cristina.

Diante delas, dispara sua proposta objetiva e acima de tudo  surpreendente, por ser à primeira vista — Juan Antonio não as conhecia. Sua  impulsividade se justifica.

No filme, que estréia neste mês no Brasil, Cristina é  Scarlett Johansson, diante de quem a junção das palavras “loira” e “fatal” nunca  soa como  mero clichê. Vicky é a atriz britânica Rebecca Hall, dona de uma  sensualidade tão intensa quanto Scarlett, porém contida — e portanto perversa.

É  ela quem, nada simpática, pergunta, com ironia cortante: “Quem vai fazer amor?”.  Juan Antonio responde no tom misterioso e insinuante que caracteriza o premiado  ator espanhol Javier Bardem.

Neste momento sabe-se que algo vai acontecer entre o  pintor e as duas turistas. Só não se sabe que vai ser tanta coisa, e com tanta  intensidade, num jogo de reviravoltas tão intrincado que é impossível desviar o  olho da tela.

Se fosse música clássica, Vicky Cristina Barcelona seria uma ópera de Mozart, com  seus duetos, trios e quartetos que mais escondem do que revelam as verdadeiras  intenções dos personagens. Se fosse rock, seria Rolling Stones: o refrão de Satisfaction — “Eu não consigo ter prazer, mas tento, tento e tento” — poderia ser  o mote dos protagonistas do filme. Mas Vicky Cristina Barcelona não é ópera nem  rock ¬— é cinema, e desde já um dos grandes filmes do segundo auge de Woody Allen.

O diretor americano é um dos poucos a ter dois momentos de pico na carreira. O  primeiro foi a virada dos anos 70 para os 80, quando criou, quase que em seqüência,  seu tríptico de obras-primas: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), Manhattan  (1978) e Hannah e Suas Irmãs (1986).

O segundo ocorre a partir do maior sucesso de  público e crítica da carreira do cineasta, Match Point (2005), o melhor filme de  Woody na opinião dele próprio. O qual, de certa forma, marca o início de outro trio  de grandes filmes, junto com o esplêndido e subestimado O Sonho de Cassandra (2007)  e, agora, Vicky Cristina Barcelona.

Chega ao Brasil também neste mês um livro que merece ser lido logo antes ou logo  depois de assistir a Vicky Cristina Barcelona: Conversas com Woody Allen, do  jornalista americano Eric Lax. No gênero entrevistas com cineastas, o volume tem  pelo menos dois antecessores de peso: o livro em que François Truffaut conversa com  Alfred Hitch¬cock, com o intuito de aprender os segredos daquele que escolheu para  mestre; e a obra em que Peter Bogdanovich debate com Orson Welles. 

Truffaut/Hitchcock e Welles/Bogdanovich são diálogos de cineasta com cineas¬ta,  valem por isso, mas se ressentem de perguntas mais esclarecedoras. Conversas com Woody Allen, ao contrário, é calcado na habilidade de um entrevistador  profissional, Lax, que é também biógrafo de Woody.

O livro é resutado do esforço jornalístico de uma vida inteira. Ele se compõe dos  melhores momentos de dezenas de entrevistas que Lax fez com Woody ao longo de nada  menos do que 36 anos — já que a primeira sessão data de 1971 e o livro foi lançado nos Estados Unidos no ano passado.

Em tom de brincadeira, Lax costuma dizer que é a  mais longa entrevista ainda em curso nos Estados Unidos. A edição é primorosa. Ela leva o leitor a acompanhar detalhamente a evolução do pensamento do cineasta. Conversas com Woody Allen possibilita, assim, a rara oportunidade de mergulhar na mente de um artista.

É sabido que Woody Allen tem como maior ídolo o cineasta sueco Ingmar Bergman, que  gostava de dizer que seus filmes eram fruto de motivações inconscientes, e o  resultado final era, em certa medida, obra do acaso. A julgar por Conversas com Woody Allen, o diretor americano é o oposto de seu ídolo.

As entrevistas mostram  como seu processo criativo é uma construção consciente, baseada na identificação e  resolução de problemas concretos. Vicky Cristina Barcelona é uma espécie de súmula  do estilo de Woody, no sentido em que apresenta, magistralmente resolvidos, todos  os problemas que o cineasta colocou a si próprio ao longo da carreira.

Por isso,  ler o livro e assistir ao filme em seguida — ou vice-versa — é uma experiência tão instigante. Vicky Cristina Barcelona tem personagens movidos primordialmente por angústias interiores. São artistas e intelectuais que, embora inteligentes e sofisticados, têm dificuldades de lidar com as próprias emoções.

Suas trajetórias são amarradas num enredo de matriz literária  — no caso, os universos de Jane Austen e Henry James. Angústias interiores, personagens sofisticados, inspiração na literatura — Conversas com Woody Allen mostra como o cineasta fez desse tripé a base de seu estilo.

Para ler na íntegra clique aqui.

Uma resposta para 'FORA DE ÓBITA'

  1. Bruna Diz:

    Olá Ailton,
    Sou Bruna Pallini, trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor.
    Bacana a sua indicação de livro, segue um pouco a linha do livro “Conversas com Almodovar”, que a editora lançou esse ano. Ambos retratam o percurso de dois cineastas bem diferentes entre si. E a Vicky também é com uma das musas de Almodóvar, Penelope Cruz.
    Abraços!

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