Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

FORRÓ NA CORÉIA

Hélio Fernandes, como sempre, lúcido.

Tenho tratado desse assunto desde o início, e não pratiquei o gravíssimo delito da omissão, acompanhando o Supremo no que chamei de “longa exibição de cultura inútil”. Considero que no momento não há nada mais importante a decidir.

Mais importante e delicada só a tentativa (dos dois lados) de transformar a sucessão de 2010, numa decisão plebiscitária. O que chega a provocar perplexidade, é que o PSDB se envolva nessa armadilha política e eleitoral, montada e coordenada pelo PT, perdão, o presidente Lula.

Sem que isso seja a glorificação do atual presidente, não há a menor dúvida que, em qualquer confronto ou comparação, o “sociólogo” perde longe. Por isso cunhei a observação da qual FHC não se livrará: “Comprometeu o país com o retrocesso de 80 anos em 8”. E 8 que não estavam na Constituição.

Quando o Ministro Marco Aurélio Mello, pediu vista do processo, ressaltou: “Votarei contra a extradição, mas a impressão é de que o resultado já está decidido contra Battisti”. O lúcido Ministro aparentemente tinha razão, mas só aparentemente.

No julgamento de quarta e quinta-feira, houve reviravolta tão grande, que o presidente do STJ, Gilmar Mendes (que tem vida dupla, como Ministro e como advogado, ministro no STJ, e advogado dentro de casa) ficou revoltado e confuso. Revoltado pelo fato de ter falado horas e não vencer. E confuso por não saber como DECLARAR o resultado.

O que provocou o comentário (ou sugestão) mordaz e irônico do lúcido Marco Aurélio: “Presidente, podemos convocar UM SIMPÓSIO PARA ESCLARECER como votou o Supremo”.

Amuado, ressentido, amargurado, o presidente ouviu dos Ministros “como deveria anunciar o resultado”, sussurrou o que ninguém ouviu e encerrou a sessão. Levantou-se, passou pelo aliado no dissabor (relator César Peluso) nem falou com ele.

Nesses meses todos não fiquei contra ou a favor do personagem, o que me interessava era o que está no título destas notas: ele praticou crime político ou terrorismo? De qualquer maneira, a Itália não é o país mais credenciado a tratar dessas questões.

Base eterna da MÁFIA. Dominada pelo fascismo desde 1922, protagonista da belíssima campanha das MÃOS LIMPAS, assistiu a morte dos juízes que comandaram a reação. Tão corrupta que ex-Primeiros-Ministros e grandes personalidades ficaram “escondidos” em países vizinhos, até que a revolta contra a corrupção amainasse, que palavra. E amainou, a corrupção sempre vence.

O Primeiro-Ministro Berlusconi não é precisamente um estadista a ser considerado ou respeitado. Manteve durante 12 anos “engavetado”, um processo contra ele. Uma semana depois do processo estar “PRESCRITO”, um juiz-Pinochio, declarou: “Não posso fazer mais nada, o tempo favoreceu o réu”. E ninguém foi preso, nem Berlusconi nem o juiz.

Agora, esse mesmo Berlusconi faz trapaça (no que é praticamente invencível), ameaça o Brasil. E não se incomoda com a intimidação de longe ou de perto, determinando que o embaixador da Itália acompanhasse todas as sessões do STF, no que foi obedecido.

Desde o princípio deixei bem claro: o STJ não tem nada a fazer na questão, o Executivo (presidente da República, seja quem for) tem a primeira e a última palavra, não precisa consultar ninguém. A grande prepotência do Supremo, foi dividir os votos em três fases.

Gilmar Mendes nem se preocupou em votar desabridamente dessa forma, dizendo textualmente: “Esta é a primeira fase, entramos agora na segunda”. E antes do que chamou de “terceira fase do voto”, suspendeu a sessão por 20 minutos. Que se transformaram em 55, um cansaço para o embaixador da Itália e o caríssimo advogado contratado para acusar.

Agora, esse brilhante causídico, entrará com EMBARGOS DECLARATÓRIOS. Geralmente a decisão do Supremo é final, definitiva e irrevogável. Mas como nem alguns ministros sabem como votaram, como recorrer ou como o STJ irá decidir?

Mesmo o recurso, só depois do Acórdão. Normalmente, quando perde, o relator redige o VENCIDO. Mas César Peluso já veio a público, para dizer, “não tenho condições intelectuais para fazer isso”. (Não estou aqui para desmentir ninguém).

O apagão dominou o Supremo, tudo ficou escuro, atingindo mesmo os que votaram claramente. Basta dizer, (como já ressaltei) que pretendiam “interpretar” o voto de Eros Grau, até que ele declarou: “Estou presente, quem sabe como votei sou eu”.

E conhecendo o presidente Gilmar Mendes, afirmou: “Para que não haja dúvidas, voto com Marco Aurélio, Carmem Lúcia, Ayres Brito, Joaquim Barbosa. Somos 5, a maioria”. O fato do Ministro Tofoli ter dito, “não votarei nessa questão”, não tem a menor sustentação.

4 respostas para 'FORRÓ NA CORÉIA'

  1. walsil Diz:

    Muito lúcido o Helio Fernandes, assim como ele, não tinha uma posição definida quanto ao caso, mas precisamos fazer alguns fatos, que podemos observar depois do julgamento: ocorreu empate (4×4) sobre a extradição, logo concluimos que o supremo estava em dúvida; em caso de dúvida, não seria o caso do benefício do réu (não é isso que a lei diz)? Então, após o julgamento, chego a conclusão que o Brasil deve posicionar-se contra a extradição e este argumento, o Presidente Lula deve usar, pois não houve concenso, nem entre os membros do Supremo, além, de confirmar, que desde o início, a decisão era do executivo e não do supremo, como acabaram confirmando.

  2. Helton fogo Diz:

    Ailton, você que se acha alto conhecedor da língua portuguesa, a ponto de corrigir as mensagens enviadas para o seo blog, que na maioria das vezes são feitas sem nenhuma preocupação linguística, me explique: por que máfia a palavra máfia está inserida no texto em letra maiúscula, se não é sigla de alguma coisa, nem aparece entre as aspas, nem muito menos representa algum movimento. Esplique.

  3. Maria Luiza Diz:

    Excelente artigo. Quando o Hélio Fernandes diz que “O apagão dominou o Supremo, tudo ficou escuro, atingindo mesmo os que votaram claramente” tem toda razão. Na minha modesta opinião a respeito do caso, o Supremo meteu-se num imbróglio ao acatar o processo contra Battisti, que deveria ser rejeitado na origem, por incompetência. Três ministros (Eros Grau, Joaquim Barbosa e Carmen Lúcia) votaram contra a extradição afirmando que o processo estava prejudicado. Mas a mídia corporativa quer fabricar uma opinião pública no sentido de fazer crer que quem se encontra numa situação embaraçosa é o Presidente, caso decida pela não extradição, como se este estivesse com uma “batata quente nas mãos”. Se não extraditar Battisti Lula estará “desobedecendo” ao STF e que, além disso, tal medida poderá trazer “conseqüências sérias” nas relações entre Brasil e Itália. Battisti foi capturado no Brasil em 2007 numa operação conjunta entre a Polícia Federal, serviço secreto italiano e Interpol. O que o governo da Itália deveria fazer, caso tivesse o mínimo respeito pelo Brasil seria pedir a extradição de Battisti através do Ministério das Relações Exteriores. O que fez o governo do “democrata” Berlusconi? Passou por cima do governo brasileiro, do Itamaraty, e foi direto ao STF, numa clara adesão ao que se conhece hoje por processo de judicialização da política. Como esse processo tem o outro lado da moeda, que é o da politização do Judiciário, deu no que deu. Sabemos que o Estado de Direito brasileiro tem como norma fundamental o princípio da separação dos poderes, onde cada poder não pode ultrapassar os limites da competência do outro (o sistema de freios e contrapesos). A extradição compete ao chefe do Executivo, ou seja, não se trata de uma decisão por uma maioria qualquer, seja do Judiciário, seja do Legislativo e sim de uma decisão monocrática, discricionária, o que não significa necessariamente uma decisão arbitrária. Além disso, quando o ministro da Justiça concedeu a Battisti a condição de refugiado pela lei 9474/1997 amparado no artigo 33 onde consta que o reconhecimento da condição de refugiado dada pelo Executivo impede qualquer pedido de extradição, significa simplesmente que no momento em que Tarso Genro concedeu o refúgio o processo de extradição se extinguiu, ou seja, que não cabia ao Supremo sequer acolher o processo contra Battisti. Caso tivesse agido desta forma o STF, ao não extrapolar sua competência, teria demonstrado uma atitude republicana. O processo que condenou Battisti à prisão perpétua é carregado de suspeitas e alguns chegam a afirmar que se trata de uma grande farsa. Na dúvida sobre o que pode haver por trás disso tudo, penso que o Presidente da República deverá considerar o caso como uma questão de Direitos Humanos, pois apesar de ser prerrogativa sua, a extraditabilidade mesmo sendo de natureza política, não jurídica, tal decisão deve ser baseada no fato de se tratar de uma questão humanitária. Lula, em respeito ao STF, vai aguardar o acórdão dos ministros, mas certamente não vai dar uma de Pôncio Pilatos extraditando Battisti simplesmente com base na decisão por maioria daquela corte. Seja qual for a decisão, será a do Poder Executivo e não a decisão do Judiciário. O que está em jogo neste caso não é apenas o destino de Battisti, mas uma oportunidade para que fique claro que o Estado de Direito não pode ser confundido com o governo dos juízes, ou com ditadura do Judiciário, o que dá no mesmo. É bom sempre lembrar que na Democracia a Política e o Direito são coisas distintas. Posso estar totalmente equivocada, mas tenho a leve suspeita de que, ao acolher o processo contra Battisti, passando por cima do Executivo sem levar em conta a Constituição, no que se refere à extradição, o STF suspendeu a norma. Esta é uma questão que Giorgio Agamben, filósofo italiano como Battisti, trata muito bem em seu livro Estado de Exceção.

  4. Ailton Medeiros Diz:

    Simnples, seu bocó, o texto é de Hélio Fernandes, não meu meu!

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