Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

INIMIGO DO GOLPISMO

Há luz no fim no túnel da grande imprensa brasileira. Trata-se de Elio Gaspari.

Seu artigo na “Folha” desta quarta-feira é uma pérola. Ah, sim, Gaspari é alvo constante de tucanos e petistas, o que prova sua independência. O que diz Gaspari? Que Lula fez o certo em condenar o golpe em Honduras. Essa “praga das 300 quarteladas do século passado precisa de uma vacina”, escreve o jornalista.

Abaixo o texto, na íntegra:

LULA DISSE bem: “O Brasil não acata ultimato de governo golpista. E nem o reconheço como um governo interino (…) O Brasil não tem o que conversar com esses senhores que usurparam o poder”.

Os golpistas hondurenhos depuseram um presidente remetendo-o, de pijama, para outro país, preservam-se à custa de choques de toque de recolher e invadiram emissoras. Eles encarnam praga golpista que infelicitou a América Latina por quase um século. Foram mais de 300 as quarteladas, uma dúzia das quais no Brasil, que resultaram em 29 anos de ditaduras. Na essência, destinaram-se a colocar no poder interesses políticos e econômicos que não tinham votos nem disposição para respeitar o jogo democrático.

Decide-se em Honduras se a praga ressurge ou se foi para o lixo da história. Nesse sentido, o governo de Nosso Guia tem sido um fator de estabilidade para governos eleitos democraticamente. Se o Brasil deixasse, os secessionistas de Santa Cruz de La Sierra já teriam defenestrado Evo Morales. Lula inibiu a ação do lobby golpista venezuelano em Washington. Se o Planalto soprasse ventos de contrariedade, o mandato do presidente paraguaio Fernando Lugo estaria a perigo.

Para quem acredita que a intervenção diplomática é uma heresia, no Paraguai persiste a gratidão a Fernando Henrique Cardoso por ter conjurado um golpe contra Juan Carlos Wasmosy em 1996. Em todos os casos, a ação do Brasil buscou a preservação de governos eleitos pela vontade popular.

No século do golpismo dava-se o contrário. Em 1964, o governo brasileiro impediu o retorno de Juan Perón a Buenos Aires obrigando-o a voltar para a Europa quando seu avião pousou para uma escala no Galeão.

A ditadura militar ajudou generais uruguaios, bolivianos e chilenos a sufocar as liberdades públicas em seus países. (Fazendo-se justiça, em 1982 o general João Figueiredo meteu-se nos assuntos do Suriname, evitando uma invasão americana. Ele convenceu o presidente Ronald Reagan a botar o revólver no coldre. Nas suas memórias, Reagan registrou a sabedoria da diplomacia brasileira.)

O “abrigo” dado ao presidente Manuel Zelaya pelo governo brasileiro ofende as normas do direito de asilo. Pior: a transformação da Embaixada do Brasil em palanque é um ato de desrespeito explícito. Já o cerco militar de uma representação diplomática é um ato de hostilidade. Fechar a fronteira para impedir a entrada no país de uma delegação da OEA é coisa de aloprados. A essência do problema continua a mesma: o presidente de Honduras, deportado no meio da noite, deve retornar ao cargo, como pedem a ONU e a OEA.

Lula não deve ter azia com os ataques que sofre por conta de sua ação.

Juscelino Kubitschek comeu o pão que Asmodeu amassou porque deu asilo ao general português Humberto Delgado. Amaciou sua relação com a ditadura salazarista e, com isso, o Brasil tornou-se um baluarte do fascismo português. Ernesto Geisel foi acusado de ter um viés socialista porque restabeleceu as relações do Brasil com a China e reconheceu o governo do MPLA em Angola.

As cartas que estão na mesa são duas: o Brasil pode ser um elemento ativo para a dissuasão de golpismo, ou não. Nosso Guia escolheu a carta certa.

7 respostas para 'INIMIGO DO GOLPISMO'

  1. elizabeth Soares Diz:

    Decepção. Assim como todo ídolo, o meu, tb. tem os pés de barro….Mas vou fazer de conta que não li esta matéria.O conjunto da obra deste grande jornalista é o que fica valendo…

  2. Gonçalo Diz:

    Sr. Ailton;
    já que és gamado pelo torneiro governante e lanças mão de agumentos alhieos (Gaspari) para engrossar a turba cega que tenta justificar a magnífica cagada diplomática no caso de Honduras, pergunto: quando vocês vão retirar o Chaves do poder? Se vocês não apoiam golpismo eu – e a torcida do Falmengo – não entendemos mais nada.
    Como você pede muito quando se depara com um absurdo ou contradição, pode descer que o mundo parou especialmente para atender o seu desejo.

  3. Ailton Medeiros Diz:

    Ué, Gonçalo, Chávez foi eleito democraticamente, assim como Lula, Obama e FHC. Que golpe? Se houve, esqueceram de avisar a ONU.

  4. Soares Diz:

    Ailton,
    O esquema de acabar com candidaturas já começou na revistinha do gonçalo (VEJA). Leia a reportagem da revista nesta semana ironizando a cidade de Sobral.

  5. FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO Diz:

    Naõ Esquenta não, Caro Ailton, esse pessoal da extrema direita putrefata e golpista, sofre permanentemente de amnésia seletiva.

    Quem sabe mais um cinco governos de centro esquerda, eleitos democraticamente em todos os países do cone sul, façam essa corja parar um pouco e refletir sobre a história de golpes e quarteladas, todos eles, financiados, articulados e implementados pela velha direitona.

    Um abraço
    Amigo e, continue tentando iluminar esses obscurantistas de plantão!!!!

    fransueldo vieira de araújo

  6. Ailton Medeiros Diz:

    Eu li, Soares, que coisa mais rídicula, hein? A Veja acabou se transformando numa espécie de Hora do Povo da direita.

  7. walsil Diz:

    O gonçalo é totalmente mal informado, isso é o que dá ler a veja.

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