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Jornalista cria programa na web para falar merda

Cagando

Vou estrear dois programas nos próximos dias. O primeiro, Papo de Café, estréia dia 13 de agosto na TV União. O outro com previsão para entrar no ar em dezembro, na web, vai se chamar “Falando Merda”.

Os dois definem-se basicamente como programas de entrevistas. Papo de Café será gravado num café montado pela emissora nos seus estúdios.

Mas é do segundo programa, cujo cenário vai reproduzir o formato de um banheiro onde receberei meus convidados sentado num vaso – mimo que se estenderá aos convidados – que quero falar.

Por que o programa vai se chamar “Falando Merda”? Eu explico.


Um dos traços mais notáveis da nossa cultura é falar merda. Cada um de nós contribui com sua parte, não é mesmo? Eis a minha.

Há um interessante ensaio de Harry G. Frankfurt sobre o assunto cujo título é apropriado: “Sobre falar merda”. Quando caracterizamos uma conversa como papo furado, diz Frankfurt, queremos dizer que o sai da boca do falante é mero vapor, ou seja, a fala é vazia, sem substância ou conteúdo.

Frankfurt identifica certas semelhanças entre papo furado e excremento que fazem papo furado parecer um equivalente especialmente apropriado de falar merda.“Da mesma forma que papo furado é uma fala que foi esvaziada de todo conteúdo informativo, excremento é matéria da qual foram removidos todos os nutrientes”, escreve Frankfurt.

Falar merda, em suma, pode ser visto como o cadáver dos nutrientes, o que resta quando os elementos vitais da comida foram exauridos.

Desse ponto de vista, o excremento é uma representação da morte que geramos e, na verdade, que não podemos impedir de gerar no processo de manutenção de nossa vida. Talvez seja por tornarmos a morte tão íntima que consideramos o excremento repugnante.

Frankfurt faz uma ponte entre falar merda e blefar a partir da frase “Conseguir as coisas falando besteira”.

Parece que falar merda envolve algum tipo de blefe. Significa mais blefar que contar uma mentira. Mas qual seria a diferença relevante aqui entre o blefe e a mentira?

Mentir e blefar são formas de embuste ou de logro. Assim, o conceito mais fundamental que caracteriza uma mentira é o de falsidade: o mentiroso é, em essência, alguém que divulga de propósito uma falsidade. O blefe, também, transmite uma coisa falsa.

Entretanto, de forma diferente da mentira pura e simples, ele é mais um caso de tapeação que de falsidade. Isso é o que o torna próximo do falar merda. Pois a essência de falar merda não é algo falso, mas adulterado.

No romance “Dirty Story”, de Eric Ambler, citado por Frankfurt, um personagem chamado Arthur Abdel Simpson lembra-se do conselho recebido do pai quando criança:

Embora tivesse apenas sete anos quando meu pai foi morto, ainda me lembro muito bem dele e de algumas coisas que costumava dizer (…) Uma das primeiras lições que ele me ensinou foi: “Nunca conte uma mentira se você pode conseguir as coisas falando merda.”

Ora, o Simpson pai não julgava, certamente, que falar merda fosse superior a mentir em termos morais. Nem é provável que considerasse mentir sempre menos eficaz que falar merda, na obtenção dos propósitos para os quais algum desses dois expedientes fosse empregado.

Talvez Simpson julgasse ser mais fácil obter êxito falando merda do que mentindo.

É isso.

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