O deserto dos tártaros
“O deserto dos tártaros” não é um livro que agrade a todos que o lêem – é evidentemente um grande livro, um grande texto do Buzzati (é a sua obra mais conhecida, sem dúvida), mas não é uma leitura agradável. O livro é duro, em certos trechos chega a ser quase monótono. É magnífico e terrível ao mesmo tempo. E me emociona pensar neste livro agora, passados quase 22 anos da primeira leitura.
Li “O deserto dos tártaros” logo que foi lançado pela Nova Fronteira, em 1984 – na época eu tinha 30 anos, meus filhos eram bem pequenos (5 e 3 anos de idade), e minha vida estava ainda começando a ser construída. Eu tinha um leque de opções e decisões pela frente. E não tinha como saber o que a vida me traria.
Pois é assim, com a vida pela frente, que nos é apresentado Giovanni Drogo, personagem central do livro. A história começa com o jovem oficial do Exército italiano assumindo seu primeiro posto, num forte de fronteira. Ele chega ao forte com as melhores expectativas, com previsão de permanência de dois anos, mas logo se decepciona: o forte Bastiani está localizado numa fronteira “morta”, considerada de pouca ou nenhuma importância estratégica. As chances de uma invasão inimiga (os tártaros do título do livro) são remotíssimas, e a única tarefa que cabe aos ocupantes do forte é montar guarda nas muralhas e vigiar a planície deserta. Não há como alguém se entusiasmar com o tedioso trabalho ou com o grupo de militares que serve no forte. Não há diversão possível. Não há rigorosamente nada para fazer.
Drogo percebe que o forte não é o que ele imaginava, e não quer perder tempo de juventude naquele fim de mundo – imediatamente se organiza para ficar apenas quatro meses no forte. Quatro intermináveis meses, e só!
Mas, aos poucos, Drogo vai se adaptando à nova e dura rotina. E vai se anestesiando. Nas cartas para a família, mente. Um pouco para não assustar a mãe. Um pouco para se convencer de que a realidade não é assim tão ruim. À medida que os dias passam, que os meses passam, Drogo se afasta mais e mais da vida que sempre sonhou, e se acostuma ao forte, adiando sonhos e planos. E, num certo momento, a transferência imediata já não é mais tão desejada. Ou possível. No final dos primeiros quatro meses, aceita ficar mais vinte meses. E no final dos 24 meses, já não tem o mesmo ímpeto de buscar outras alternativas para sua carreira.
Drogo se deixa convencer de que seus motivos para permanecer no forte são nobres, louváveis. Que age de boa-fé. Não percebe que se prende à rigidez do ambiente, à disciplina da vida no quartel, ao ritmo monótono do serviço na fronteira. Acredita que não tem press – que o bom da vida está a sua espera, que tem todo o tempo do mundo pela frente.
Os meses vão passando, as estações se revezando… Ao completar dois anos de forte, Drogo aceita permanecer por dois anos mais. Aqui e ali algum acontecimento mais relevante marca a vida no forte, altera a rotina. Mas, no geral, é sempre mais do mesmo.
Na primeira vez em que Drogo volta para casa, quatro anos depois de partir, já se sente um estrangeiro na sua cidade, e não fica à vontade nem mesmo junto da mãe. Uma tentativa de transferência acaba não dando certo, e Drogo, injustiçado e preterido, volta para o forte. Nesse momento poderia ter pedido baixa – mas acaba preferindo evitar mudanças bruscas de vida. Ilude-se de que saberá provar seu valor no forte, que tudo terá valido a pena.
Drogo consome os anos seguintes aguardando uma possível chegada dos inimigos – com uma luneta, percebe-se ao longe uma diminuta luz nos confins do deserto. Serão os tártaros, construindo uma estrada? Quinze anos se passam até que a movimentação estrangeira seja visível a olho nu. E o tempo continua passando, implacável – vemos agora Drogo com 54 anos, já major, debilitado por sérios problemas hepáticos. Os estrangeiros, depois de construir a estrada, sumiram de vista. Voltarão algum dia?
Eis que a tão esperada invasão, o momento que justificaria todos aqueles anos de espera, de vigília, de isolamento, de exílio, de sacrifício pela pátria, acontece. E, quando chega a notícia de que os tártaros estão vindo “aos batalhões”, Drogo está doente, de cama. Chegam reforços, o forte vira o centro das atenções do país – mas é tarde para Drogo. Ele é removido, e morre sozinho numa estalagem, no caminho de volta para a cidade.
Olhar para trás e ver onde nossas escolhas nos levaram, quais foram nossas grandes encruzilhadas, o papel do acaso, da sorte, do azar… O que poderíamos (e deveríamos) ter feito de diferente? Onde fomos corajosos? Ondo fomos fracos? Onde fizemos a escolha certa, por ser a escolha mais étic – a despeito do resultado prático? Em que momento nos acomodamos? Como podemos nos defender das armadilhas que o destino nos trará?
Ler sobre uma história inteira de vida desperdiçada como a de Giovanni Drogo é chocante. Quais são e onde estarão nossos fortes Bastiani?
Lucia Riff – jornalista




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