JORNALISTA POTIGUAR BRILHA NA ÁFRICA
Paulo Araújo é um dos mais talentosos jornalistas de sua geração. Somos amigos há quase quinze anos, nos conhecemos na redação do “Jornal do Estado” onde trabalhamos. Na época, 1997, eu já era um “veterano” jornalista, ele aluno do curso de comunicação.
Em 2001 Paulo foi morar em São Paulo. Selecionado no Curso Abril de Jornalismo saiu de lá direto para redação da revista “Nova Escola”.
Como a vida não é um poema em linha reta, em julho de 2008 Paulo se mandou para Angola com um desafio: montar e dirigir (com mais três amigos) um jornal sobre economia.
O resultado pode ser conferido nessa ilustração.
Abaixo, um texto desse potiguar da peste narrando seus primeiros trinta dias na África.
Confiram:
Quase um mês depois daquele longuíssimo e-mail contando as minhas impressões iniciais sobre os 30 primeiros dias em Angola, volto a dar notícias e, desta vez, enviar em primeira-mão no anexo as capas dos dois primeiros números do Jornal de Economia & Finanças que vim cá ajudar a criar e colocar na rua.
Espero que gostem, aproveitem para ter pequenos “flashes” de como anda esta locomotiva africana e, claro, dar boas risadas com as diferenças da Língua Portuguesa nas chamadas (as coisas diferentes que vocês virem escritas aqui já é por obra do corrector ortográfico).
Não está sendo nada fácil produzir um periódico de 24 páginas (só duas de publicidade até agora!) por semana – mas acho que isso é exactamente o lado gostoso da coisa. Funciona assim: somos seis brasileiros (quatro editores de texto, uma designer e um fotógrafo) actuando como consultores, colocando a “mão na massa” e uma equipe de 15 angolanos loucos para aprender muito connosco.
Esse é o grande barato do projecto: aos poucos, no corre-corre do fechamento, explicarmos como legendar bem uma foto, escolher o melhor título, priorizar esta ou aquela entrevista e entregar um jornal de uma forma nunca vista antes por aqui.
Chegamos do Brasil e não havia sequer a redacção, no sentido físico. Tudo começou numa pequena salinha, enquanto o andar do prédio que hoje abriga o jornal era reabilitado. Entramos na sede ainda com obras, pinturas, móveis sendo montados e demorou duas semanas para termos acesso à Internet. Ainda não há telefones fixos na redacção. E isso é óptimo, sabiam? Em Angola, queimou-se essa etapa do ingresso no mundo das delícias capitalistas e todos portam telemóveis que tocam desesperadamente, sem parar. O bom é que as fontes nunca podem “mentir” que não estão. Achamos elas em qualquer lugar e a qualquer hora.
O acesso às autoridades e especialistas ainda é muito difícil. Depois de 500 anos de colonização portuguesa, outros 20 de governo socialista, não seria de um dia para outro que todo mundo ia sair dando entrevistas por aí, não é mesmo? Solução: escrever longas e muy respeitosas cartas, acompanhadas de carimbo, solicitando entrevistas em ministérios, lojas, universidades etc. E como mandar as cartas, se não há correio? Pessoalmente. É isso que os repórteres fazem para começar a trabalhar. O jornal só tem dois carros, a cidade não conta com serviços de ônibus ou táxis, como conhecemos aí, só pequenas vans (batizadas de táxis pelos angolanos e de candongas por brasileiros).
Muitos repórteres ainda não conheciam uma ferramenta chamada e-mail e tivemos que apresentá-los ao maravilhoso mundo virtual. Resultado: em três semanas de jornal na rua, as reuniões de pauta já são produtivas, eles se esforçam ao máximo, na medida do possível, para fazer e assinar matérias cada vez melhores. Lógico que mesmo os que frequentaram a universidade não escrevem bem, mas aos poucos a gente vai abrindo flancos no jeito muito formal herdado dos portugueses e mostrando a eles um lado leve, directo, objectivo e simples de noticiar as coisas. Bom mesmo é curtir o processo de reflexão juntos e ver a coisa fluir.
Eu acho que se a experiência acabasse agora já teria valido muito a pena, pois tanto Angola quanto esse processo de criação de um jornal do zero, junto com pessoas que tiveram o pior tipo de vida que se possa imaginar (a maioria dos repórteres fez a guerra, vive com o mínimo possível, mas mesmo assim possui uma vontade de vencer fora de série) reprogramou a minha cabeça completamente.
Imagine o mais difícil que se possa ter numa redacção (uma ligação ou Internet que cai, um motorista que atrasa) e pense também em falta de electricidade, mosquitos, ruas esburacadas e cheias de esgoto para ter um parâmetro.
Hoje, especialmente, toda Angola está em silêncio porque a população vai às urnas amanhã, pela primeira vez na história. Há medo sim, há tensão sim entre os integrantes do MPLA (no poder há 30 anos) e Unita (oposição, mas só de enfeite) mas a vontade dos angolanos de esquecer todo o passado de guerra e tomar o lugar que têm direito na história e no continente africano é maior do que tudo.
Portanto, como se diz aqui: “Todos ao voto. Todos por Angola” (o jeito de pronunciar “Angola”, aliás, é um charme fora de série).




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4/09/08 às 23:19
Belíssimo artigo Ailton, quando lí a cronica do Paulo Araújo consegui me sentir na Angola e viver td o que esses emprendedores corajosos fizeram. Admiro muito a tarefa desses jornalistas, e a dos habitantes desse país que se esforçam ao máximo pra melhorar a devastada terra deles.
Sei das profundas feridas que sufreu esse país, graças ao grande jornalista Ryszard Kapuscinski. Recomendo muito leer as cronicas dele.
Por tanto agradeço vc por publicar esse artigo e mando um abraço fraterno a tds os jornalistas corajosos e aos angolanos tds.