Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

MEU LAR É UM BOTEQUIM

Como o assunto ganhou dimensão além do previsto, aí vai um texto deste escriba sobre boteco publicado há mais de um mês e que rendeu vários comentários. Confiram:

O crítico de teatro americano George Jean Nathan bebia para tornar as pessoas interessantes, eu escrevo.

Mesmo sem beber, adoro bar. É o único lugar onde me sinto em casa fora de minha casa. Tenho mais amigos garçons do que jornalistas, economistas, médicos, advogados e até padeiro, minha primeira e talvez mais nobre profissão.

Comecei a freqüentá-lo ainda adolescente, escondido dos meus pais. Minha mãe não queria isso para seu filho caçula e meu irmão achava um lugar de vagabundo. Já meu pai, que adorava uma branquinha, nunca teve opinião formada sobre o assunto. Ou pelo menos nunca explicitou.

O primeiro boteco a gente nunca esquece, não é mesmo? O meu foi um pé-sujo lá em Caicó, não tinha nome, cadeira nem mesa. Os freqüentadores bebiam em pé com os cotovelos no balcão. Uma maravilha. Não lembro exatamente quantos anos eu tinha, é provável que entre 15 e 18 anos de idade.

Antonio Maria conta que quando fez quinze anos, ganhou um relógio de pulso e cinco mil-réis. “Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei no botequim”.

Quando saiu, morreu e entrou para a história.

A pergunta que não quer calar é: Existe o bar perfeito? Para o poeta Paulo Mendes Campos não.

Numa crônica antológica “Por que bebemos tanto assim”, o poeta mineiro escreveu que um boteco legal teria que ter cinco qualidades fundamentais: boa circulação de ar, bom proprietário, bons garçons, bons fregueses e boa bebida.

Campos considerava impossível um bar reunir todas essas qualidades ao mesmo tempo. E explicava:quando o garçon é um flor de sujeito, o dono do bar costuma ser uma besta; se os fregueses são alcoólicos esclarecidos, o ambiente às vezes é quente e abafado; quando o bar é refrigerado, o uísque é fabricado no Engenho de Dentro.

“O boteco perfeito, em suma, é uma utopia”, dizia o poeta.

Há controvérsia, claro. Mas vamos deixar esse papo para ser discutido em mesa de bar. De preferência acompanhado de uma bela mulher.

Pode parecer estranho nos dias atuais, e é, mas já ouve um tempo em que mulher não freqüentava bar. Não freqüentava é modo de dizer. Elas eram proibidas.

O McSourley’s Ale House, de Nova York, foi o último a proibir a entrada delas. Apelou até a Suprema Corte sob a alegação de que não tinha banheiro feminino. Perdeu a causa, claro, e foi obrigado a construir um para as damas.

Hoje, as mulheres são freqüentadoras, algumas até donas de botecos. Mas aqui pra nós, boteco sem mulher é um porre.

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