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MUY AMIGOS

“Amigos de golpe paraguaio não desistem” é o título do artigo de Paulo Moreira Leite que lembra ao distinto público que o senado do Paraguai que derrubou o presidente Fernando Lugo, eleito soberanamente pela população, é o mesmo que se posicionou contra o ingresso da Venezuela no Mercosul. Segue na íntegra:

É tão difícil defender o golpe de Assunção que seus aliados procuram dizer que o ingresso da Venezuela no Mercosul representa a mesma coisa.

É duro de acreditar.

Ocorreu em Assunção um clássico golpe parlamentar, estratégia que sempre fez parte dos movimentos contra a democracia no Continente mas nem sempre foi fácil de realizar.

Em 1973, a CIA despejou milhões de dólares no Chile – a confissão é de William Colby, diretor da agência na época – para ajudar a oposição parlamentar a derrubar Salvador Allende. Num país onde a constituição exigia uma votação de dois terços para o impeachment, a ideia era reunir votos para destituir o presidente depois das eleições ocorridas no fim de 1972. Mas Allende cresceu e a oposição mudou de estratégia. Foi bater à porta dos quartéis.

Em 1962, quando a Casa Branca decidiu apoiar o golpe que derrubou João Goulart, a primeira iniciativa foi assinar um cheque de 5 milhões de dólares para os parlamentares e senadores de oposição. Era tanto dinheiro que se transformou num escândalo, que terminou em CPI, sobre a direção do deputado Rubens Paiva.

Em 64, quando os tanques derrubaram Goulart, um Congresso amolecido e comprado declarou que a “presidência estava vaga” e assim deu posse a Ranieri Mazzili, laranja que antecedeu a posse de Castelo Branco.

A entrada da Venezuela tem, obviamente, outra origem. Não envolve a soberania de um país. O Mercosul é um acordo comercial.

A Venezuela vinha negociando legitimamente seu ingresso no Mercosul. Todos os países haviam cumprido o ritual para permitir sua entrada. Isso aconteceu porque há um interesse comum entre as partes.

Com uma economia de US$ 350 bilhões, ou dez vezes o Paraguai, a Venezuela é um parceiro que interessa aos vizinhos – e vice-versa. O petróleo venezuelano é e será cada vez mais essencial para o desenvolvimento da região.

O mercado interno daquele país é um destino privilegiado para as exportações brasileiras, que ali garantem um importante superávit comercial.

Se você pensa que alianças regionais são um estratégia adequada para enfrentar o mundo globalizado, deve concluir que o único problema do ingresso da Venezuela no Mercosul é que ele deveria ter acontecido muito antes.

Quem era contra o ingresso da Venezuela?

Apenas o senado do Paraguai, o mesmo que derrubou um presidente eleito soberanamente pela população e não tem compromissos maiores com o desenvolvimento regional. O país tem uma imensa dependência dos vizinhos, mas a parceria estratégica de suas oligarquias se encontra em Washington.

E era por essa aliança que o senado paraguaio barrava a entrada da Venzuela no Mercosul.

De olho nas reservas de petróleo, a Casa Branca não tem o menor interesse em assistir o ingresso da Venezuela numa aliança regional da qual não faz parte.

E por essa razão pressiona os aliados preferenciais para manter a Venezuela à distância de seus vizinhos, usando para isso o fantasma de Hugo Chávez, a quem pretende isolar de todas as formas depois que fracassou no golpe militar-televisivo de 2002.

Ao derrubar Lugo, os golpistas paraguaios se excluíram do Mercosul e suas cláusulas democráticas. Na véspera da encenação parlamentar, a oposição foi informada pelos governos vizinhos do vexame a que estava se submetendo – e tinha ciência do que poderia acontecer.

Mas foi em frente, imaginando que poderia derrubar um presidente e correr para o abraço. Calculava, certamente, que era apenas blefe e, mais tarde, tudo terminaria em pizza.

Mas não. Sem retaliações econômicas, os vizinhos resolveram punir o governo politicamente.

O ingresso da Venezuela no Mercosul foi a única consequência prática que os golpistas receberam por seu gesto. É uma lição para quem não respeita a democracia.

Como é que alguém pode achar ruim?

11 ideias sobre “MUY AMIGOS

  1. As revelações feitas pela cúpula do governo uruguaio não deixam a menor dúvida: Dilma não foi apenas uma das articuladoras da suspensão do Paraguai do Mercosul. Ela também foi a principal artífice do golpe — este na esfera diplomática — que aprovou o ingresso da Venezuela no grupo. A presidente brasileira atuou para acolher um governo que, dias antes, havia se reunido com a cúpula militar paraguaia para incitar uma quartelada.
    Se os generais do Paraguai tivessem feito o que lhes recomendou Chávez, a Constituição do país teria sido rasgada. Fernando Lugo teria sido mantido no poder pelos tanques, e a nossa presidenta certamente estaria chamando a solução, agora, de “democrática”
    Lulla e seu Megalonanico tentaram desestabilizar Honduras também. Tentou-se criar um levante popular em favor de Zelaya. Ocorre que o povo hondurenho não queria o malucão de volta, como o paraguaio não quer o retorno do bispo “reprodutor”. Desta feita, a coisa chega a ser mais asquerosa porque se tentou uma solução que já foi, digamos assim, um clássico na América Latina: a quartelada!

  2. minguem me convence.. que o Mensalão.. as articulações com Gilmar Mendes.. foram uma tentativa de golpe que não prosperou.. e que estes setores golpistas.. estão posicionados para uma oportunidade que tiverem, visto que nas urnas não voltam ao poder..

    abs Nimuendayub

  3. Certa vez eu conversava com um colega e, a certa altura, ele danou-se a esbravejar contra Hugo Chávez. “Com é que pode – dizia ele – o o governo do PT manter relações com aquele cabra ruim”.

    Aí eu perguntei: nossa, pra ser tão odiado, Hugo Chávez já deve ter feito muita coisa ruim. Então me diga aí quais as ruindades que ele fez, pra merecer tanta raiva sua.

    Aí o PIB – Perfeito Idiota Brasileiro – começou a gaguejar: “bem, é que ele…ehhh, rumf, glup, gasp..sei lá! Só sei que ele não presta e pronto”.

    Daí que eu emendei: ele “não presta” porque não entrega o petróleo da Venezuela de mão beijada pros americanos.

    E o PIB ficou com aquela cara de tacho;

  4. O senador Romeu Tuma (PTB-SP) já declarou que Zelaya tem usado a embaixada brasileira para fazer militância política e instigar uma guerra civil.

    Mas o governo Lula não será somente responsabilizado pelo que acontecer de grave advindo do fato de partirem de dentro da embaixada brasileira todas as ordens de Zelaya para a desobediência civil que levará aos conflitos de rua e a uma guerra interna, como pensa Tuma.

    O presidente Lula e seus principais assessores correm é o sério risco de serem responsabilizados internacionalmente por introduzirem Zelaya no país e abrigá-lo ilegalmente com quase 70 aliados na embaixada, para, claramente, promoverem até uma guerra civil (Plano B?) e tentarem levá-lo de volta ao poder, em uma absurda e imperdoável manobra de intromissão em assuntos internos de outro país.
    Quando esse rapaz nos onerou, comeu do bom e do melhor em nossa baixada, alegando qu o golpe dele era “lícito”, nosso grande jurista citou o caso, cois que pessoa como vc se a cigarra. Me diga algo do PT em Recife, golpe franco, que forçou o candidato legítimo a concorrer, Mossoró entre outras. Isso sim é golpe. E Maluf apertando a mão de se Lula rsrs. E Mais uma vez, me diz a obra do PAC concluída no RN e talvez no Brasil, os 10% do PIB qu o governo é contra para educação,rejeição de mais de 65% na saúde e educação.
    O Brasil somente poderia abrigar Zelaya na embaixada caso lhe tivesse concedido asilo político. Sendo assim, Lula levou o calejado Itamaraty a ferir gravemente mais uma norma do direito internacional.

    Lula deverá ser responsabilizado ainda por afirmar que Manuel Zelaya poderá permanecer na embaixada do Brasil em Tegucigalpa o tempo que quiser, incentivando ainda mais a crise. Nesse caso, ainda poderá vir a ser responsabilizado pelos brasileiros caso a nossa embaixada seja invadida e o país tenha que enviar forças para resolver a questão.

  5. Para o Nimuendayub que afirma não estar convencido que o Mensalão não existiu, aguarde o julgamento a partir do dia 02 de agosto. O Almir PILA (perfeito idiota latino americano) perguntou a um PIB que gaguejou na resposta. Se esse suposto fosse bem informado responderia o seguinte: O beiçola de Caracas não entrega de mão beijada o petróleo do seu país. É vendido a preço de mercado. Com esse faturamento ele banca a FARC, prende e arrebenta jornalistas, manipula a Constituição a seu jeito para se perpetuar no poder (coisa que o apedeuta por aqui não conseguiu porque temos instituições mais fortes que a deles), desvia parte dessa verba para a viúva louca argentina, ao índio de araque, aos assassinos castristas e tenta se impor como grande líder sul americano.

    quant

  6. Datíssima Vênia, porém, o grande Marcos money…digo Monner, é, realmente um grande reprodutor de baboseiras, aleivosias, basófias e desinfomações ditase disseminadas, claro, como verdades absoltutas pelso UDENISTAS ETERNOS MORALISTAS DE PLANTÃO.

    O Moralismo Político, essa histórica praga cultural e política tão nefasta ao povo brasileiro, a qual infelizmente, grande parte da sociedade – POLITICAMENTE IGNORANTE E INOCENTE – não somente desconhece, como a tem como paradigma e norte em suas ações de cidadania.

    Com sua devida vênia Caro Ailton, faço um control”V” control “C” para um brilhante artigo de Emir Sader, o qual retrata genialmente no tempo e no espaço, o papel assumido pelo nosso Marcos Monner.

    23/11/2009

    O sub-udenismo

    Por mais diferentes que possam parecer as condições históricas, a polarização política atual se parece incrivelmente àquela de décadas atrás entre Getúlio e a oligarquia paulista. Alguns personagens são os mesmos – os Mesquitas, por exemplo -, outros se agregam a eles – os Frias, os Civitas -, os partidos tem outros nomes – PSDB no lugar da UDN; PSOL, no lugar da Esquerda Democrática; FHC no lugar de um udenista carioca, mas o xodó da direita paulista de então, Carlos Lacerda; intelectuais acadêmicos mudam de nome, mas repetem o mesmo papel.

    O anti-getulismo era o mote central que aglutinava a direita e setores de esquerda que, confundidos, se somavam àquela frente. Na defesa da “liberdade” de imprensa, supostamente em risco, quando o monopólio era total – com exceção da Última Hora – em favor da oposição. Liberdade de educação, supostamente em risco, a educação privada, pelos avanços do “estatismo” getulista.

    Em defesa do Estado, supostamente assaltado por sindicalistas e pelo partido do Getúlio – o PTB – e pelos sindicalistas, petebistas e comunistas. Excessiva tributação do Estado, populismo de aumentos regulares do salário mínimo. Denúncias de corrupção. Alianças internacionais com intuitos de abocanhar governos em toda a região, tendo Perón como aliado estratégico.

    Era a polarização da guerra fria: democracia contra ditadura, liberdade contra totalitarismo. O Estadão se referia nos seus editoriais ao governo “petebo-castro-comunista”, quando falava do governo Jango, uma continuação do de Getúlio.

    A Esquerda Democrática, que tinha surgido dentro da UDN, depois se abrigou no Partido Socialista, se opunha ferreamente à URSS (ao stalinismo), aos partidos comunistas e ao getulismo, como um bloco único. Era composta bascamente de intelectuais, os principais – como Antonio Cândido, Azis Simão, entre outros – fizeram autocrítica por terem finalmente ficado com a direita contra Getúlio.

    O Partido Comunista, que em 1954 tinha ficado contra Getúlio, somando-se à oposição, teve que sentir a reação popular, quando os trabalhadores, assim que souberam do suicídio de Getúlio, se dirigiram em primeiro lugar à sede do jornal do PC, para atacá-lo. Um testemunho dramático revela os dilemas em que tinha se metido o PCB: Almino Afonso, extraordinário parlamentar da esquerda, ia se somar à marcha, apoiada pelos comunistas, contra Getúlio. Quando a marcha chegou ao Largo São Francisco, onde se somariam os estudantes, Almino se deu conta que a marcha era liderada pelas madames representantes da mais reacionária burguesia paulista. E, nesse momento, se perguntou, onde tinham se metido, com quem, que papel estavam jogando. E se deu conta que estavam do lado errado, com a direita, contra Getúlio.

    Atualmente, o bloco opositor ao governo Lula está composto de forças as mais similares àquelas que se opunham a Getúlio. O governo Lula aparece sendo acusado de coisas muito similares: estatismo, impostos, sindicalistas, corrupção, apropriação do Estado para fins partidários, gastos excessivos com políticas sociais, alianças internacionais que distanciam o país da aliança com os EUA, favorecendo a lideres nacionalistas, etc.,etc. Então e agora, a oposição conta com a SIP – Sociedade Interamericana de Imprensa -, que pregou e apoiou a todos os golpes militares no continente.

    Como agora, a frente direitista foi sempre derrotada pelo voto popular, a ponto que a UDN chego a pedir o “voto de qualidade”, com o pretexto de o voto de um médico ou de um engenheiro deveria valer mais do que o voto de um operário, no seu desespero de sentir que perdia o controle do país para uma coligação apoiada no voto popular.

    Da mesma forma que depois da morte de Getúlio, se chocam o desenvolvimento e o “moralismo” privatizante da UDN, um projeto nacional e popular e o revanchismo de 1932, que pretende que a elite paulista é a locomotiva da nação, quando ela se apóia no trabalho dos milhões de trabalhadores superexplorados pelas grande empresas internacionalizadas, milhões de trabalhadores, entre os quais se encontram os retirantes do nordeste, que foram construir a grandeza de São Paulo.

    O sub-udenismo atual – o primeiro como tragédia, o segundo como farsa – está tão fadado ao fracasso e a desaparecer de cena – FHC, Tasso Jereissatti, Bornhausen, Marco Maciel, Pedro Simon – como desapareceram seus antecessores, a começar por Carlos Lacerda – de que FHC é uma triste caricatura. Inclusive porque agora lhes falta um elemento essencial – poder bater nas portas dos quartéis, pelo que eram chamados de “vivandeiras de quartel”. Resta-lhes o traje escuro do luto, cor preferida de Lacerda e que cai tão bem em FHC – a cor do corvo, a ave de rapina, ave de mau agouro, a quem só resta ser Cassandra de um caos que souberam produzir, mas que foi superada exatamente pela sua derrota e seu fracasso. Sobre o seu cadáver se edifica o Brasil para todos.

    Postado por Emir Sader às 04:53
    Um baraço senhores Web-leitores.

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  7. O Marcos Monner (?) acaba de ganhar mais uma assinatura da VEJA. Por favor, passe na sede do DEM ou PSDB para recebê-la. Sujeito de sorte.

  8. Prezado Dr. Fransuêldo,

    Se tem dificuldade de diferenciar o francês do inglês (monner / money), imagine o latim que é a língua básica para a sua profissão (advogado). Claro que fez isso na base da gozação e eu também. Isso dá um clima de descontração ao debate nesse democrático espaço.
    Agora falando sério, realmente defende que o mensalão nunca existiu? que o beiçola de Caracas é democrático até demais, segundo seu guru, o apeDELTA da silva? Tenha santa paciência!
    Com relação ao seu grande escritor citado acima, Sader, que as vezes confunde POUSA com POSA, afirmar que o FHC vai ser esquecido um dia, só tenho uma coisa a lembrar:
    FHC vai ser lembrado como o presidente que tirou milhões de brasileiros da miséria com o Plano Real, tão desqualificado pelo PT, enquanto o Lulla vai ser lembrado pelo MAIOR ESCÂNDALO da República: O MENSALÃO! (dia 02 de agosto vem aí!)
    Argumente, meu caro Douto!

  9. Esse tal de Marco Moner é um perfeito PIB mesmo. Só faz repetir as baboseiras do PIG e não apresenta prova alguma. Ô brocoió, se o Chávez fosse tão ruim quanto você acredita que seja, o povo da Venezuela já o teria rejeitado. Mas não é o que se vê. O Homem é amado pela imensa maioria do povo venezuelano. Só a burguesada inútil e parasitária e algum manipulado do PIG de lá (tudo capacho dos americanos) é que o odeiam. Talvez se o beiçola estivesse também de olho em nosso petróleo, vocês o amassem.
    E mais: você fazem de tudo pra agradar aos americanos, mas a verdade é que os yankees têm nojo de chaleiras como vcês, seus babões pegajosos. Levam na cara e não se mancam, esses neocolonizados.

  10. Caro Almir PILA, você não lê nem assiste TV? Você sabia que o beiçola de Caracas se fez sócio da refinaria Abreu e Lima em Pernambuco e não cumpriu com absolutamente nada do combinado? Ainda bem pois, um sócio como esse é perfeitamente dispensável. Você também deve achar que o mensalão nunca existiu (02 de agosto vem aí), que Che Guevara e o Fidel são democratas, que a viúva louca argentina, o índio de araque e outras baboseiras bolivarianas são o máximo. Só realmente quem nunca esteve nos EUA (e esse deve ser o seu caso) e não conhece um país desenvolvido e rico que nivela o cidadão por cima, valoriza essas cretinices ideológicas petralhas.

  11. Ailton,
    Traduzi este artigo do site do El País. Claro que este tipo de artigo não se encontra na mídia golpista brasileira. Ele mostra que o golpe foi um grande retrocesso político, vale a pena ler.

    A sombra do doutor Francia
    A grande maioria dos paraguaios segue pensando que a riqueza de seu país está mal distribuída
    Sergio Ramírez 10 JUL 2012 – 00:04 CET
    O Paraguai é desde sua independência em 1811 parte dessa geografia de terrenos
    autoritários da América Latina, dominado desde sempre pela figura do doutor José
    Gaspar Rodríguez de Francia y Velasco, supremo ditador perpétuo da República, o célebre doutor Francia. O sempre poderoso Karaí Guazú, como o chamavam em guaraní. Em sua novela Yo el Supremo (Eu o supremo),Augusto Roa Bastos o vê como a grande sombra patriarcal que não desaparece na historia ainda que passem os anos desde sua morte, cavalgando pelas ruas desertas, em frente as casas fechadas pela pedra e pelo lodo, “embaixo de enorme sombreiro, todo envolto numa capa negra de forro vermelho, da que só emergiam as meias brancas e os sapatos de verniz com fivelas de ouro, gravados nos estribos de prata”.
    Sucedeu-lhe no poder perpétuo seu sobrinho Carlos Antonio López. Depois de sua morte em 1862, esse poder passou a mãos de seu filho, Francisco Solano López, apegado às saias e premiado por seu pai com as insígnias de brigadeiro aos 18 anos de idade, e elevado por sí mesmo a marechal.
    No primeiro quarto do século XX, o país teve 15 efémeros presidentes, até que regressou de novo à ditadura perpétua com o general Alfredo Stroessner, que se manteve no mando por 35 anos seguidos, de 1934 a 1989, em nome do Partido Colorado, um verdadeiro partido único que chegou a governar por 61 anos. E o Paraguay conserva sua mesma raíz feudal desde os tempos do doutor Francia.
    Em começos do século XX, 79 pessoas possuíam a metade da terra, enquanto o analfabetismo cobría 80% da população. Esta situação mudou pouco até agora. E mudança foi a bandeira com que o antigo bispo Fernando Lugo chegou ao Governo em 2008, democráticamente eleito, uma raridade na historia paraguaya, e máis raro ainda que foi o primeiro presidente que desde a independencia recebeu a faixa presidencial como candidato da oposição, derrotando ao eterno Partido Colorado.
    As obsoletas estruturas econômicas e agrárias fazem que indígenas y campesinos levem uma vida marginal.
    Quando o bispo dos pobres assume a presidência, o faz com o respaldo de 84% da população, precisamente porque despertou grandes esperanças de mudanças, sobretudo quanto ao regime feudal da terra. O Paraguay teve recentemente altas taxas de crescimento anual, porém as obsoletas estruturas econômicas, e sobretudo agrárias, seguem fazendo que as grandes massas indígenas e campesinas levem uma vida marginal.
    De acordo com uma pesquisa recente de Latinobarómetro, a esmagadora maioría da população segue crendo que a riqueza está mal distribuida no Paraguay: só 22% pensa que essa distribuição é justa, enquanto as instituições são julgadas com desconfiança quanto a sua legitimidade: en 2011 só 31% confiava no Parlamento, e 23% confiava no sistema judicial.
    Sem poder solucionar nenhum desses problemas estruturais, a confiança no presidente Lugo baixou a 37% no momento de sua queda. Teve de enfrentar disensõess dentro da própria aliança que o levou ao poder, os reclames urgentes de mudanças sociais que não tinha possibilidade de resolver, com a resistência conspiratória dos setores conservadores da sociedade, e sua imagem diminuiu frente aos continuos escândalos de reclames de paternidade por parte de mulheres que tinham sido suas amantes nos tempos de bispo, uns desses reclames verdadeiros, e outros falsos.
    O problema agrário não resolvido, que superou as capacidades do presidente Lugo, foi precisamente o que acabou com ele, quando a policia enfrentou a balas campesinos que reclamavam terras no latifundio da fronteira com o Brasil, propriedade do maior proprietário do país, Blas Riquelme, íntimo associado de Stroessner, com mortos e feridos de ambas as partes. Lugo respaldou a ação policial, e todos esses mortos foram dar a sua conta, julgado sumariamente, e destituido sem oportunidade de defesa.
    Se submeteu primeiro ao julgamento do Senado, que o destituio, e logo rechaçou esse julgamento quando já era muito tarde.
    Agora sua figura que foi tão atrativa, um antigo bispo católico chegando à presidência em nome dos pobres, se dissolve não só em sua própria impotência para cumprir com as esperanças de um país que ainda espera pelo amanhã, mas também a impotência das instituições, e na impotência do sistema democrático mesmo para livrar-se da sombra abominável do doutor Francia.

    Sergio Ramírez foi vice-presidente de Nicaragua e é escritor.