NEGRO COM ALMA DE BRANCO
Um texto lúcido de Marcos Rezende iluminando o debate sobre a expressão “negro com alma branca” utilizada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim contra o repórter Heraldo Pereira.
Rezende é membro do Fórum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos e bacharel em História. Segue na íntegra:
Marcos Rezende
“É necessário saber que, historicamente, havia duas espécies de escravos: o negro da casa e o negro do campo. O negro da casa vivia junto do senhor, na senzala ou no sótão da casa grande. Vestia-se, comia bem e amava o senhor.
Amava mais o senhor do que o senhor amava a ele. Se o senhor dizia: — Temos uma bela casa. Ele respondia: — Pois temos. Se a casa pegasse fogo, o negro da casa corria para apagar o fogo.
Se o senhor adoecesse dizia: — estamos doentes. Se um escravo do campo lhe dissesse ‘vamos fugir desse senhor’, ele respondia: — Existe uma coisa melhor do que o que temos aqui? Não saio daqui. O chamávamos de negro da casa. É o que lhe chamamos agora, porque ainda há muitos negros de casa.”
Malcolm X
Em um dos seus discursos, cujo trecho reproduzi acima, Malcolm X, um dos maiores ativistas negros pelos direitos civis posicionava-se frente a muitos negros que agem a serviço dos brancos.
Negros que não honram a sua negritude e assim prestam um desserviço a comunidade negra, pois aos olhos menos atentos parece que ele ascendeu, mas, na verdade, ele é uma fração que age como serviçal e se coloca sempre ao lado do não negro por algum benefício, seja salarial, seja “meritocrático”, ou por algum tipo de honraria que recebe como forma de gratidão a “serviços prestados”.
O nigeriano Wole Sowinka, primeiro negro a receber o prêmio Nobel de Literatura pronunciou a célebre frase: “O tigre não precisa proclamar a sua tigritude. Ele salta sobre a presa e a mata”. Na verdade a postura de alguns jornalistas como Heraldo Pereira demonstra como a frase de Sowinka é tão atual.
Ora, é este o mesmo jornalista que se apresenta como um funcionário ou um negro da Casa Grande da Rede Globo e nunca fez um comentário sequer quando a emissora se posiciona contra as cotas, contra as comunidades quilombolas e sobre qualquer tipo de avanço da comunidade negra.
Este mesmo jornalista não fez ou faz um único comentário ou reflexão acerca do livro “Não somos racistas” escrito pelo seu chefe, o diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel. Este mesmo repórter se curva frente ao ministro Gilmar Mendes, atitude diametralmente oposta à postura digna, honrada e altiva do Excelentíssimo Ministro Joaquim Barbosa que o enfrenta e diz a verdade acerca da postura de um ministro que representa a elite branca, burguesa, aristocrática, ruralista, machista e homofóbica deste país.
Eis que, de repente, o repórter Heraldo Pereira, sempre silencioso frente às maiores questões raciais deste país, sente a sua negritude desrespeitada pelo Jornalista Paulo Henrique Amorim. Sem dúvida a postura é a mesma que Malcolm X dizia em seu discurso. Um verdadeiro negro da Casa Grande.
O histórico de Heraldo Pereira o coloca como um indivíduo subserviente a serviço da elite. E toma para si a dor do seu chefe, tentando desqualificar um jornalista com posição de vanguarda e anti-racista como Paulo Henrique Amorim (para quem não conhece basta visitar o site: www.conversaafiada.com.br) e assim colocá-lo na posição de racista. Logo Paulo Henrique Amorim, um dos poucos jornalistas da grande mídia deste país que enfrenta verdadeiramente os representantes da elite e que é curiosamente processado por todos eles. Só para exemplificar Ali Kamel, o famoso “não somos racistas”, foi testemunha de acusação neste processo juntamente com o próprio Gilmar Mendes.
Daí cabe um desagravo à figura de Paulo Henrique Amorim que, ao utilizar o termo negro de alma branca, nada mais fez do que trazer à tona um debate antigo, mas de forma antagônica à maneira tradicionalmente utilizada.
Outrora o termo negro de alma branca era utilizado em casos de negros “educados”, “civilizados” e que agiam como brancos, com toda a civilidade do outro. A expressão era utilizada com a idéia de um sujeito dotado de polidez, um ser letrado, que avançou, apesar das adversidades a que os de sua raça estavam expostos.
O que Paulo Henrique Amorim fez foi descortinar a expressão e colocá-la como de fato deveria ser. O termo “negro de alma branca” deste modo caracteriza-se como um negro a serviço de um determinado setor, uma pessoa que não dignifica a sua ancestralidade e origem, ao se dispor a fazer determinado papel, e quando não assume responsabilidade para com os seus. É como imaginar um judeu nazista de pensamento ariano, para mim algo impensável.
Evoco então Milton Santos que pontuou: “É por isto que no Brasil quase não há cidadãos. Há os que não querem ser cidadãos que são as classes médias, e há os que não podem ser cidadãos que são todos os demais, a começar pelos negros que não são cidadãos. Digo-o por ciência própria. Não importa a festa que me façam aqui e ali, o cotidiano me indica que não sou cidadão neste país… (sic) o meu caso é o de todos os negros deste país, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção além se ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo de momentâneo, de impermanente, resultado de uma integração casual”.
Enfim, o que envergonhava Milton Santos serve de júbilo para Heraldo Pereira. Uma lástima para nós, verdadeiramente negros de alma negra.




Loading...
26/02/12 às 17:48
Não existe pior forma de discriminação do que a feita por esse tipinho: a do patrulhamento do Politicamente Correto. Todos aqueles que não concondam com esses totalitários de esquerda e que não estão a serviço dos “seres iluminados” que comandam a militância são rotulados de alguma coisa pejorativa. Enquanto isso fazem vista grossa aos desmandos e à roubalheira daqueles que estão ao seu lado. Tratam as pessoas como se não tivessem direito a uma opinião própria. Opinião só se for “engajada”. Além de terem a presunção de serem donos da verdade. A condenação foi mais do que merecida para esse pistoleiro a soldo do governo.
26/02/12 às 19:53
Pois é Ailton, assumir sua dignidade, cidadania, honra e ética são poucos.
Mister eu tenho hoje 61 quase 62 anos de pura luta contra os hipócritas que não me aceitam como tal, muito menos, os que finjem aceitar.
Desde criança, sou único negro da família, que travo lutas contra minha raça. Meu irmão (branco) à época quebrava meus brinquedos e, eu sempre levava a culpa de desorganizado e, como na época era permitido, era sempre o NEGRO que quebrava e era desorganizado.
Lembro de uma passagem, como se fora hoje. Quando a criança tinha entre 3, 4 ou 5 anos, era praxe, os pais colocar sob a cama três objetos para que a criança escolhesse o que lhes agradava, quais sejam, um caminhãozinho (de brinquedo lógico), uma caneta e, vamos dizer, um outro qualquer que representasse empregado, então, se escolhesse o caminhão seria caminhonheiro (naquela época, acordo USA x Brasil – para utilizar o caminhão para usar combustível e alavancar a indústria automobilística americana do norte – engoto puro), seria uma honra, a caneta seria doutor (médico, engenheiro etc) e, lógico, o outro objeto que não me passa pela memória, representava o assalariado comum, então, foi feito prá meu irmão, prá mim nada, nunca fizeram isso prá mim, não quero dizer que isso tenha influência hoje na minha vida, não, no entanto, a discriminação era patente e medíocre.
Até hoje enfrento idiota, canalhas e tudo o mais, só que aquele título de “Negro da alma branca” nunca me intitularam nem dou chance prá isso.
O Marcos Resende foi feliz no seu texto. Tudo que fala e diz tem exatamente a ver com os que não se respeitam. É puríssima verdade, como também, a colocação do PHA.
Ailton, somente que o é sabe como viver nesse mundo de lama. Eu tenho experiência própria e, minha luta continua. O melhor que acho é quando em conversas sobre educação e, quando digo que concluí 3 faculdades e uma pós graduação e, por motivo de continuar burro, pois não sei de nada, todo dia as dúvidas me aparecem e, preciso só aprender e, digo que vou cursar mais outra e, mais outra até me aproximar de alguma coisa que possa dizer que sei, então, o interlocutor ficar admirado, pois, no máximo, quando tem é um curso superior.
Agora, trocando em miúdos, ao sair ou noutro momento em que aquel bostão estão num ambiente onde só existem brancos (prá mim tanto faz), possivelmente sai uma frase solto entre eles: “Puta que paríu, aquele NEGRO Rodrigues é formado em três faculdades, com uma pós-graduação e ainda que fazer outras faculdades?” – daí na sequência ai que não me interessa.
Averdade é que continuo BURRO e nunca vou deixar de aprender, quando mais estudo mais burro fico.
O Eraldo é um pobre coitado merece está ou está e ser o que é. Capacho de canalha.
É isso.
27/02/12 às 15:52
Impressionante. Quando alguém do DEM fala qualquer coisa contra as cotas é taxado imediatamente de racista. Não tem perdão, não tem reflexão, não tem defesa. Não tem nada. Agora, quando algum “progressista” comete um ato vil como esse, aí se escrevem textos e textos na defesa dele, tentando fazer-nos acreditar que ele não disse o que disse.
27/02/12 às 16:56
paga ai Paulo Henrique Amorim, deixa de ser miseravel. O big boss cobre essa merreca.Para um cara decadente, esse PHA até que merecia um programa na tv do lulinha, como ventriloquo dele.Conversa fiada em pessoa esse cara!
27/02/12 às 18:50
Decadente, Beto? Por que não trabalha na Globo? kkkkkkk! PHA saiu da Globo por livre e espontânea vontade e foi para Band como o maior salário do jornalismo brasileiro. Pare de ler Reinaldo Azevedo, este sim, um zero à esquerda cujo papel é puxar o saco de seus patrões e de Serra.
28/02/12 às 16:37
caro, ele saiu por muitas outras razões….E na BAND ele foi hostilizado pela arrogância dele mesmo e caiu fora, com audiência sofrível.Afinal foi muito mais fácil ganhar o que queria e fingir que estava na GLOBO lá pela RECORD, pelega do poder atual.Outra coisa: não leio esse cara ai q vc citou, pois faço parte daqueles que não assinam essa revistinhas de balcão e consultórios que tantos defendem e divulgam, por uns trocadinhos a mais.E mais, falar em puxa saco, caro, é melhor se olhar no espelho, pois a qualquer um é possível ser ou não, depende do ponto de vista. Mas, ajuda ele pagar, senão, o pastor paga e fica olá tudo bem!.E quanto a SERRA, parem de se preocupar com ele, é carta fora do baralho, não vende mais nada, e o que faltava, venderam agora.
28/02/12 às 16:53
Caro Ailton, não imaginava que você fosse tão inocente ao denominar a defesa ferrenha que PHA faz do governo como de “livre e espontânea vontade”. Ele saiu da Globo para poder prestar esse serviço ao governo, meu caro, pelo qual, acredito, deva ser muitíssimo bem remunerado.
28/02/12 às 17:34
Lá vou eu refrescar a memória de um leitor sem memória. PHA saiu da Globo no governo FHC. E que eu sabia, ele nunca foi petista, mas brizolista.
28/02/12 às 19:38
Muito pior do que “negro de alma branca” é pobre que se acha burguês.
São uns pobretões, geralmente assalariados, ou pequenos comerciantes cuja clientela é 100% de assalariados, mas “se acham” os bambambam em tudo, votam em “gente fina” como Agripino e Serra etc. Acham-se imunes (e até beneciários) às políticas neoliberais desastrosas, nutrem ódio mortal por tudo quanto lembre esquerda, e por aí vai.
Esses bocós não entendem que eles são os maiores beneficiários da política econômica distributiva do governo do PT.
Aqui na aldeia de Poti está “assim, ó” desse tipo de gente.
29/02/12 às 8:39
Ailton, você tem muita paciência com os betos, os leonardos da vida. Ignorância não se vence tão fácil. Mas concordo, merecem respostas, e vc o fez adequadamente.
29/02/12 às 15:30
Perem aí, peremaí…deixem-me ver se entendi:
então um negro – seja de alma branca, de alma preta, seja o capeta – não pode ascender? Tem que permancer na senzala?
Ou então tem que viver brigando e criando caso com chefes e patrões, só porque é negro?
Isso sim, é um pensamento reaça e racista.
Ora, o cidadão, seja branco, amarela, negro, indio, judeu, árabe…, tem todo o direito de exercer qualquer cargo, desde que seja para tal capacitado.
Não vejo, porém, motivo para a ação do Sr. Heraldo Pereira. contra PHA.
Será que a iniciativa foi dele? Aqui sim, é um caso para se pensar…
29/02/12 às 15:48
Se o Reinaldo Azevedo ganha para puxar o saco do Serra, quanto não ganha o PHA para puxar o do governo inteiro?
1/03/12 às 10:09
PHA tem patrimônio adquirido honestamente no decorrer de sua carreira brilhante iniciada em 1961 no jornal A Noite, do Rio. Não esqueça bocó que ele foi repórter da Realidade, a melhor revista brasileira, primeiro correspondente da revista Veja em Nova York, editor de Economia da mesma revista, editor-chefe da revista Exame, redator-chefe e editor-chefe do Jornal do Brasil quando este era o melhor jornal do país, chefe do escritório e correspondente da Rede Globo em Nova York, entre outras coisas. E seu salário como jornalista é um dos maiores do Brasil. Quem Reinaldo Azevedo ganha dinheiro de Serra escrevendo discursos para Serra. Quanto diferença, como diria Hélio Fernandes.
1/03/12 às 12:27
Não se trata de ser petista ou brizolista, mas de ser governista (algo totalmente diferente). Ou vai negar que PHA é um ferrenho defensor do governo federal e, por essa razão, acaba por se constituir em general de frente na guerra entre os dois partidos que disputam o poder central: PT e PSDB? Em todos os debates ocorridos entre os que hoje ocupam o poder e os que já ocuparam no governo FHC, PHA toma partido (coincidentemente?)em favor das teses do governo atual. Negar isto é viver em um mundo de fantasia.
1/03/12 às 12:28
Caro Ailton, PHA desconhece a sua existência. Não precisa defendê-lo com tanto ardor. Você me parece inteligente, não embarque nesses radicalismos estéreis.
1/03/12 às 13:20
É questão de justiça, Roberto. Não elogio (nem critico) por interesse. O que me move é o merecimento. E antes que esqueça sua bobagem, Sócrates, o filósofo, também desconhece minha existência.
1/03/12 às 16:34
Almir, foi brilhante seu comentário, reproduziu perfeitamente a MAIOR parte da classe dita média da Taba, inspirada, por óbvio, nas “elites” ou classes médias paulistas. Quanto ao comentário do Roberto, qual o problema de PHA tomar partido? O objetivo dele é justamente esse, ser um contraponto à mídia monopolizada, amplamente politizada e a favor dos conservadores.