Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

OURO PURO

Tenho em mãos a edição restaurada e bilíngüe de “Ariel”, de Sylvia Plath. A primeira, publicada em 1965, era totalmente diferente do volume originalmente idealizado pela autora que morreu em 1963.

As alterações foram feitas pelo poeta Ted Hughes, seu marido. Ele eliminou treze poemas que considerou “pessoalmente agressivos” e incluiu outros treze, a maioria escrita semanas antes do suicídio de Plath, em Londres.

Ted, como conta Rodrigo Garcia Lopes, um dos tradutores da edição brasileira (trabalho dividido com Maria Cristina Lenz de Macedo), extraiu os poemas com o argumento de que defendia a memória da mãe de seus filhos, além, claro, de sua própria reputação.

A vida familiar de Sylvia parecia um drama rodrigueano. Seu pai, Otto Plath, morreu quando ela tinha 8 anos, decorrência de complicações após a amputação de uma perna (era diabético). E Ted nunca foi um marido fiel. Após a separação foi morar em Londres. “Ariel” é desse período.

Mas o público, e seus leitores, em especial, só puderam conhecer a edição original deixada pela autora em dezembro de 2004.

O Ariel do título é uma alusão ao espírito do Ar, de “A tempestade”, de Shakespeare, e ao cavalo que Sylvia costumava cavalgar em Devon.

A edição é enriquecida com o fac-símile dos originais datilografados pela autora. Como recomenda Rodrigo na apresentação, resta a nós, leitor hipócrita, meu igual, meu irmão, reler “Ariel” como ela, e não Ted, gostaria que fosse lido.

Assim o farei sem antes destacar os versos marcantes do poema “Espelho”:

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro.

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