Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

Para entender o que a imprensa brasileira escreve sobre a crise

Para entender as notícias sobre a crise (na imprensa brasileira, claro) leia o que o jornalista Luis Nassif escreveu em seu blog. Leia e reflita:

1. Não dê muita atenção a entrevistas com economistas. Quem tem informações a dar são os operadores, os tesoureiros, os financistas especialistas em sistema financeiro. No tiroteio atual, modelos macro-econômicos não servem para nada. Você ganhará mais lendo os posts do comentarista Ruben ou do Indio Tupi.

2. Dentre os economistas, dê atenção aos que têm pensamento sistêmico e conhecimento histórico. Vale muito mais a visão de conjunto de Delfim Netto, Nakano. Quando ler um economista falando sobre inflação e Selic (Schwartsman) ou contas públicas (Velloso), pode passar batido: é falta do que falar, porque é falta de entender.

3. Conforme alertei no último post sobre “como entender”, o ponto central era a capitalização (isto é, a nacionalização) do sistema bancário mundial (particularmente EUA e Europa). Essa discussão já está vencida. Você precisa prestar atenção, agora, ao noticiário sobre o tamanho do rombo comparado com a capacidade dos Tesouros nacionais. Se o rombo for muito maior, a saída será emissão desenfreada e inflação mundial.

4. No caso brasileiro, o ponto imediato a ser analisado é a conversa que o BC terá com bancos e empresas que entraram na aventura do swap reverso. Se Henrique Meirelles fosse minimamente pró-ativo e responsável, em vez de ir aos EUA receber prêmios inexpressivos, estaria em reunião direta com esses atores, buscando saídas para o impasse. Na próxima semana, se não houver essa concatenação promovida pelo Banco Central, vão pipocar ações judiciais de empresas não querendo pagar e bancos sem recursos. E mais pólvora no noticiário.

5. Fique atento também aos leilões de dólares por parte do BC. Se começar a gastar as reservas por aí, trate você também de comprar dólares, porque o piloto sumiu.

6. Nos próximos dias, caso o BC não atue rapidamente, o travamento da liquidez começará a afetar as empresas da economia real. Haverá uma sucessão de notícias ruins. O papel do BC será o de garantir linhas de financiamento do comércio exterior e prover crédito direto para as empresas. Se se limitar a soltar o compulsório, não vai destravar o crédito. Dinheiro que cair no caixa do banco, o banco não passará para frente. Possivelmente, cairá lentamente a ficha das autoridades monetárias, que logo à frente acionarão os bancos públicos para prover essa liquidez.

7. No médio prazo, começará uma discussão forte sobre a necessidade ou não de centralização de câmbio. Se o crédito internacional não destravar, se o comércio internacional não se abrir, o rombo nas transações correntes obrigará o BC a atitudes defensivas drásticas. Os países que menos sofreram com a crise internacional, até agora, são aqueles com controles mais rígidos sobre o câmbio. Se o BC continuar permitindo essa volatilidade do câmbio, em dois tempos trará a crise internacional para cá.

8. O maior risco da economia é o amadorismo do BC. Prepare-se para acompanhar um coro de críticas cada vez maior à atuação do BC. É só analisar seus últimos passos. Ontem, em pleno tiroteio com a descoberta do “subprime” brasileiro, o BC promove uma reunião entre chefes de departamento e tesoureiros de instituições. Cadê a diretoria dente-de-leite?

9. Não embarque nessa discussão sobre redução de gastos públicos. Com o tamanho da crise, todo investimento privado será travado. Se o Estado não entrar aumentando seus gastos e seus investimentos, haverá uma recessão interna que fará a de 29 parecer refresco.

Uma resposta para 'Para entender o que a imprensa brasileira escreve sobre a crise'

  1. Guil Diz:

    adoro as dicas de Nassif… disse tudo.
    principalmente a observação 9, sobre gastos publicos.

    fui….

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