Amarrado, mesquinho, sovina, mão-de-vaca. Esses são alguns dos adjetivos usados para definir Adelço. Apelidado de “Ganhador”, esse norte-rio-grandense tem a fama de ser o maior pão-duro do Brasil.
Luana Batista
“Eu não tenho tudo que amo, mas amo [muito] tudo que tenho”. Pode até ser clichê, mas José Adelço de Medeiros nem se incomoda. Para ele, o verso é lema. O potiguar nascido em 5 de março de 1951, no município de São José do Seridó, aprendeu cedo a conjugação do verbo economizar.
Começou a trabalhar inda menino. Ajudava o pai com os serviços na padaria, num horário, e no outro estudava. Nunca teve emprego formal, mas nunca ficou desocupado. Um autônomo empreendedor. Hoje intitula-se corretor de imóveis. Tem mais de 30 prédios alugados em Caicó – local para onde se mudou ainda criança. Herança? Ele nega. Diz que veio de uma família humilde. Conseguiu tido com base no esforço – e na economia.
Seu mestre foi um comerciante com quem trabalhou na juventude. “Ele vivia me dizendo: ‘menino, não se gasta mais do que se ganha’. Eu não podia ganhar 50 e gastar 55. Aprendi direitinho a lição. Comecei a gastar somente com aquilo que ia me dar retorno”, conta. Nessa época, surgiu o apelido de Ganhador. Ele explica: “Fazia de tudo, mas só entrava num serviço se fosse para ganhar. Não importava tanto o valor. Se era para ganhar, eu fazia e ainda faço”.
E para ganhar algum, Adelço faz serviço de artesão, entregador, despertador, “ledor”, escritor e, dentre outros ofícios, já foi até carpideiro (pessoa paga para chorar em funerais). “No serviço de despertador chamo até o cabra acordar, mas o pagamento tem que ser adiantado”, informa.
Para escrever cartas, ele tem uma tabela de preços. Se o interessado dita o conteúdo, o preço é um; se ficar a critério do Ganhador, aí aumenta. O valor do pagamento ainda depende do gasto com material, sendo menor se o cliente já trouxer caneta e papel. A tabela vale ainda para o serviço de leitura de jornais – depende do número de páginas e da entonação. Ele pode somente ler ou também interpretar as notícias. Se um parente lhe visita, é recebido com muita satisfação. Mas paga aluguel da rede ou do colchonete.
Quem pensa que é só isso, engana-se. Em Caicó, todo mundo sabe do cartório doméstico de Adelço. Quem morre na cidade, ganha uma ficha nos arquivos dele. “É comum que familiares ou credores precisem de informação sobre os falecidos, e o cartório é muito demorado”, explica. Para cada tipo de consulta, uma taxa.
O pagamento diferenciado também é cobrado nos aluguéis dos imóveis, semanalmente. “Porque no mês que tem 5 semanas eu ganho mais”, justifica. Quem quiser se tornar seu inquilino, antes tem de fazer contrato e pagar um “calção” no valor equivalente a 5 semanas.
E nem dormindo ele perde. Diz que passou muitas noites na rua, para guardar lugar em filas. Viu que o mercador era promissor, e recrutou pessoas pobres para ajudá-lo no serviço. Pela manhã, vendia as vagas e, como não podia deixar de ser, saia ganhando.
Sem abrir mão de nada
As lições de Adelço não são apenas de como ganhar dinheiro de um modo inusitado. Ele também é expert na arte da economia.
No seu guarda-roupa, imperam as camisas de propaganda. As refeições são feitas no restaurante popular do Governo do Estado, por R$ 0,50. Economia multiplicada: alimentos, gás, água, além de conservar os objetos domésticos. Para se locomover na cidade, usa sua “Cinquentinha” – uma motocicleta de 50 cilindradas que não precisa emplacar. Com o veículo, Adelço gasta R$ 10 por mês, mas só o utiliza para ganhar alguma coisa.
Na conta de energia, o total a pagar é R$ 2,90. Ele dá a receita: “a televisão só é ligada a noite, e de vez em quando. As lâmpadas são fluorescentes e de 15 velas. As paredes que dividem os cômodos não encostam no teto; assim, é uma lâmpada para cada dois compartimentos”.
Se o calendário indica o aniversário de algum amigo ou parente, não pensa duas vezes. Liga para prestar homenagem ao aniversariante. A ligação sempre começa com o “9090”. Nem se importa. “Se já estou ligando para parabenizar, é justo que a pessoa pague a ligação”, afirma. Por falar em ligação, telefone é um meio de comunicação de que ele não dispõe. É só mis um jeitinho de economizar.
Da sua cartilha, um dos principais feitos foi a multiplicação dos fósforos. Ele percebeu que os fósforos de um determinado fabricante eram roliços e poderiam ser divididos em dois, o que fazia a caixa sair pela metade do preço.
Perfil
Assim Adelço leva a vida. Aos 55 anos, é solteiro e não tem filhos. Conta que nunca teve vontade de ser pai ou de casar. Na sua opinião, hoje em dia é muito complicado. “Quando sabe que você tem alguma coisa, a mulher casa por interesse. Isso não dá pra mim, não”, diz. Amigos são poucos. “Pois hoje em dia o povo é muito interesseiro e agente tem que selecionar bem com quem anda”, explica.
Não joga, não fuma, nem bebe. Também não pratica esportes. Deles, o que mais gosta é boxe. A explicação é a mão fechada. Católico praticante, todo domingo vai à missa. Já recebeu até correspondência do Vaticano, em resposta a uma carta que enviou ao Papa Bento XVI. Queria ganhar a benção apostólica e uma comenda, em reconhecimento aos serviços prestados à paróquia de Caicó. Dízimos? Não entrega. “Sei que bíblico, mas 10% é muito dinheiro…”. Justificando-se, garante que, quando morrer, a herança vai ficar para um projeto social coordenado pela Igreja Católica do município.
Já foi cliente da Agência do Banco do Nordeste em Caicó, obviamente com uma conta poupança. “Eu guardo dinheiro, mas depois tiro para comprar imóveis. Eu sou assim, gosto mesmo é de investir”, explica.
Adelço acredita que as pessoas deveriam seguir seu modo de vida. “Não se pode ser estragado. Se você vir meu exemplo e aplicar pelo menos 10% do que faço, já vai ver a diferença”, aconselha.
Fama
As idéias incomuns de Adelço lhe renderam uma boa fama. Em Caicó, todo mundo sabe quem é o pão-duro. Ele foi destaque no Fantástico e no Programa do JÔ, bem como ganhou espaço em diversos jornais do Estado. Sua história também está registrada no livro “Me leva Brasil – a fantástica gente de todo os cantos do País”, do jornalista Maurício Kubrusly. O título do seu capítulo? “O Ganhador”. Agora, seu sonho é participar do “Domingão do Faustão”.
Sua comunidade no Orkut (site de relacionamentos) “Eu conheço Adelço, o ganhador”, criada no mês de novembro, já tem 185 participantes. Todos os comentários ressaltam a sovinice da figura. Ele encara tudo com bom humor. “Acho até legal que me chamem de pão-duro. Ruim seria se dissessem que sou ladrão”, afirma.
Ele também não se importa com o assédio. Acostumou-se com ávida de celebridade do município. No entanto, garante que, por mais que lhe peçam, não dá autógrafos. Mas isto nada tem a ver com o fato de ter de abrir a mão. Esclarece dizendo: “nos dias de hoje, sabe-se lá o que vão fazer com minha assinatura”.
Faz sentido.


Pingback: Ailton Medeiros » Blog Archive » O MAIOR PÃO-DURO DO BRASIL
Pingback: Ailton Medeiros » Blog Archive » POTIGUAR É DESTAQUE NO FANTÁSTICO