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Alceu Valença diz que foi censurado pela revista Veja

Alceu Valença

O cantor e compositor Alceu Valença deu um depoimento à “Veja” sobre o assunto que vem incendiando há dias o showbizz brasileiro: as biografias não autorizadas. As respostas enviadas por emaill parece que não agradaram aos editores da revista que decidiram não publicar uma linha sequer. O que fez Alceu? Postou a entrevista em sua página no Facebook. Confiram abaixo:

Um repórter da revista Veja me solicitou, há alguns dias, um depoimento sobre a questão das biografias não-autorizadas. Andei meio arredio a dar entrevistas sobre o tema porque considero ter feito todas as considerações que me competiam no texto que postei aqui no Facebook. Ainda assim, topei a abordagem da revista. Solicitei que as perguntas me fossem encaminhadas por e-mail e respondi uma a uma, sem entrar no ringue contra meus colegas de classe, sobretudo por compreender a vasta contribuição das divergências no contexto democrático. Estranhei a revista não ter incluído uma só linha do que eu disse na matéria publicada esta semana. Sendo assim, compartilho aqui, na íntegra, minhas respostas ao questionário da Veja.

PERGUNTAS

– O senhor disse: “A ideia de royalties para os biografados ou herdeiros me parece imoral. Falem mal, mas me paguem…(?) é essa a premissa??? Nem tudo pode se resumir ao vil metal!” – Para você, é o pior ponto dessa história? A questão dos royalties? Por quê?

AV – O trabalho de um biógrafo é uma extensão do trabalho do repórter. Não seria estranho eu cobrar para fazer uma entrevista para jornais, revistas ou Tvs? A solução que algumas pessoas defendem é que se cobre royalties para autorizar biografias. Ou seja: pode falar mal, mas me paguem, como escrevi no texto da internet. Isso me parece uma distorção da função das biografias.

– É maior o direito de privacidade ou o direito de expressão?

AV – O direito de expressão é inerente ao regime democrático. E o direito à privacidade é uma prerrogativa que qualquer cidadão tem de se defender de injúrias e calúnias. O Poder Judiciário deve ser rápido e eficaz na garantia desses direitos.

– Os artistas dizem que a justiça brasileira é lenta e demoraria para tirar uma biografia’ mentirosa’ de circulação. Mas foi essa mesma justiça quem tirou, rapidinho, a biografia de Roberto Carlos das livrarias. Esse argumento também parece esquisito para o senhor?

AV – Se neste caso foi rápida, em outros, a justiça se arrasta como um bicho-preguiça. Justiça vagarosa pode promover a injustiça.

– Para o senhor, essa autorização prévia é censura?

AV – A autorização prévia promoveria biografias chapa-branca. Lenço branco com função de mordaça.

– O senhor estava quieto no seu canto nessa polêmica. Valeu a pena se envolver nessa briga? Por que resolveu se manifestar?

AV – Costumo debater os temas importantes da sociedade brasileira e expressar minhas opiniões no meu Facebook. Sou formado em Direito, como meu pai, que sempre me dizia: “não gosto de fechar questões”. A discussão é salutar e cada qual dá sua opinião.

– Algo te magoou ou entristeceu muito nessa polêmica? Algo ou alguém? – Ou muito nervoso?

AV – Nada, ninguém, absolutamente.

– Está decepcionado com Chico ou Caetano? Por que? Decepcionado com outra pessoa?

AV – Admiro-os artisticamente, admiro como pessoas, mas não sou obrigado a concordar com eles. Assim como eles não são obrigados a concordar comigo. Não há decepção nisso.

– A música e cultura brasileira perdem com essa posição do “Procure Saber”?

AV – Todos devemos procurar saber sobre a história de nosso país. Neste caso, a busca do conhecimento de nossa identidade fica limitada.

– Se alguém fosse escrever sua biografia, o que você pediria? Teria alguma exigência?

AV – Que ele fizesse um bom trabalho de pesquisa, não mentisse e que procurasse fontes idôneas.

– E que fatos desconhecidos do público revelaria?

AV – Hoje em dia, a vida das pessoas é quase um livro aberto. Acho curioso que num momento onde todos expõem suas vidas nas redes sociais, surja esta polêmica diante de algo que procure limitar a exposição das personalidades. Artistas se expõem naturalmente.

– Todo mundo costuma ter alguma coisa da vida privada que preferiria manter em segredo. O senhor também? Tem segredos? Por que?

AV – Posso revelar que tenho um banheiro ao ar livre na cidade alta de Olinda. Para conhecer este aspecto da minha vida privada, só de helicóptero.

– Por que acha que eles (Caetano, Gil etc) pensam assim? Acham que escondem alguma coisa?

AV – Pensam assim porque eles têm o direito de pensar. O contraditório faz parte do regime democrático.

– O que acha de Paula Lavigne, que nem cantora é, estar encabeçando o “Procure Saber”?

AV – Ela trabalha há anos como produtora na área de shows e cinema, é atriz também. Por que não seria legítimo ela encabeçar o grupo?

– Se algum escritor fizesse a sua biografia, ele ficaria rico? Acha que venderia muito?

AV – Se ficasse rico, seria às custas do trabalho dele. Não tenho problema com isso.

– Nessa história, qual o tipo de reação que o deixou mais impressionado?

AV – Adoro discussão. O que me impressiona, em qualquer tema, é a falta de debate.

E um extra, se topar responder: – Pode nos dar duas boas informações – que estariam numa possível biografia sua – que, até hoje, ninguém sabe, sobre a sua vida?

AV – “Cito uma letra minha, onde me auto defino. Eu sou como o vento que varre a cidade / você me conhece? Precisa me ver. Sou presente de grego / cavalo de troia / sou cobra jiboia / saci Pererê. Um anjo caolho que olha os dois lados”. Um livro aberto, sem nada a temer.

– Biografias podem inspirar e incentivar os leitores, principalmente crianças e jovens. Alguma vida de personagem célebre o marcou? Quem?

AV – Gosto muito dos livros de Frederico Pernambucano, sobre Lampião, e da biografia de Luiz Gonzaga feita pela jornalista francesa Dominique Dreyfuss. São Livros honestos, com excelente trabalho de pesquisa, muito bem fundamentados.

– Cantadores sertanejos são biógrafos populares quando narram, com grande liberdade criativa, a vida de personagens como Lampião, Luiz Gonzaga e outros?

AV – Existe uma diferença fundamental quando se fala em biografias de personalidades e quando a vida de uma determinada pessoa adquire uma aura mitológica. Aí o autor se dá ao direito de inventar, fantasiar, mentir e criar lendas. Nomes como Lampião e Luiz Gonzaga transcenderam as próprias biografias, tornaram-se parte integrante do imaginário coletivo e suas vidas adquiriram um caráter fantástico, por vezes fantasioso, nas obras dos cantadores populares. A cultura popular alimenta estes mitos e também se alimenta deles.

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Censor, eu? Nem morta!

Caetano Veloso

“Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões… E quero me dedicar a criar confusões de prosódia”.

Que língua é essa que se expressa Caetano Veloso? O compositor baiano fala, fala, fala, e não diz absolutamente nada. Alguém aí sabe desenhar? Segue artigo de sua autoria publicada no jornal “O Globo” deste domingo:

Caetano Veloso

Aprendi, em conversas com amigos compositores, que, no cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco. Tenho um coração libertário. Sou o típico coroa que foi jovem nos anos 60. Recebi anteontem o e-mail de um cara de quem gosto muito — e que é jornalista — com proposta de entrevista por escrito sobre a questão das biografias. Para refrescar minha memória, ele anexou um trecho de fala minha em 2007.

Ali eu me coloco claramente contra a exigência de autorização prévia por parte de biografados. E pergunto: “Vão queimar os livros?” Achei aquilo minha cara. Todos que me conhecem sabem que essa é minha tendência. Na casa de Gil, ao fim de uma reunião com a turma da classe, eu disse, faz poucos meses, que “quem está na chuva é para se molhar” e “biografias não podem ser todas chapa-branca”. Então por que me somo a meus colegas mais cautelosos da associação Procure Saber, que submetem a liberação das obras biográficas à autorização dos biografados?

Mudei muito pouco nesse meio-tempo. Mas as pequenas mudanças podem ter resultados gritantes. Aprendi, em conversas com amigos compositores, que, no cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco. E que, se queremos que o Brasil avance nessa área, o simplismo não nos ajudará. O modo como a imprensa tem tratado o tema é despropositado.

De repente, Chico, Milton, Djavan, Gil, Erasmo e eu somos chamados de censores porque nos aproximamos da posição de Roberto Carlos, querendo responder ao movimento liderado pela Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros), que criou uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade) contra os artigos 20 e 21 do Código Civil, que protegem a intimidade de figuras públicas. Repórter da “Folha” cita trechos de algo dito por Paula Lavigne em outro contexto para responder a sua carta de leitor. Logo a “Folha”, que processou, por parodiá-la, o blog Falha de S.Paulo.

A sede com que os jornais foram ao pote terminou dando ao leitor a impressão de que meus colegas e eu desencadeamos uma ação, quando o que aconteceu foi que nos vimos no meio de uma ação deflagrada por editoras, à qual vimos que precisávamos responder com, no mínimo, um apelo à discussão. Censor, eu? Nem morta! Na verdade a avalanche de pitos, reprimendas e agressões só me estimula a combatividade.

Tenho dito a meus amigos que os autores de biografias não podem ser desrespeitados em seus direitos de informar e enriquecer a imagem que podemos ter da nossa sociedade. Pesquisam, trabalham e ganham bem menos do que nós (mas não nos esqueçamos das possibilidades do audiovisual). Não me sinto atraído pelo excesso de zelo com a vida privada e muito menos pela ideia de meus descendentes ficarem com a tarefa de manter meu nome “limpo”. Isso lhes oferece uma motivação de segunda classe para suas vidas.

Também neguinho pode vir a ter um neto que seja muito careta e queira fazer dele o burguês respeitável que ele não foi nem quis ser. Mas diante dos editoriais candentes, das palavras pesadas e, sobretudo, das grosserias dirigidas a Paula Lavigne, minha empresária, ex-mulher e mãe de dois dos meus três filhos maravilhosos, tendo a ressaltar o que meu mestre Jorge Mautner sintetizou tão bem nos versos “Liberdade é bonita mas não é infinita /Me acredite: liberdade é a consciência do limite”. Mautner é pelo extremo zelo com a intimidade.

Autores americanos foram convocados para repisar a ferida do sub-vira-lata. Nada mais útil à campanha. (Americanos são vira-latas mas têm uma história revolucionária com a qual não nos demos o direito de competir.) Sou sim a favor de podermos ter biografias não autorizadas de Sarney ou Roberto Marinho. Mas as delicadezas do sofrimento de Gloria Perez e o perigo de proliferação de escândalos são tópicos sobre os quais o leitor deve refletir. A atitude de Roberto foi útil para nos trazer até aqui: creio que os termos do Código Civil merecem ser mudados, mas entre a chapa-branca e o risco marrom devem valer considerações como as de Francisco Bosco.

Ex-roqueiros bolsonaros e matérias do GLOBO tipo olha-os-baderneiros para esconder a força que a luta dos professores ganhou na cidade me tiram a vontade de crer em opções fora da esquerda entalada. Me empobrecem. Ficaremos todos mais ricos se virmos que o direito à intimidade deve complicar o de livre expressão. E se avançarmos sem barretadas aos americanos. Ouve-se aqui minha voz individual. Quiçá perguntem: ué, os jornais deram espaço, pediram entrevistas: Tá chiando de quê? Pois é. Meu ritmo. Roberto, Chico, Milton e os outros estão mais firmes: nunca defenderam nada diferente. Esperei o Procure Saber buscar seu timbre, olhei em volta e deixei pra falar aqui.

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É proibido proibir…

Caetano Celoso de Black Bloc

E eu digo não, e eu digo não ao não
Eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

De O Globo:

BRASÍLIA – A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal espera 50 mil manifestantes no dia 7 de setembro, quando quatro grandes eventos acontecerão em Brasília. Para conter atos de vandalismo e violência em meio ao desfile do Dia da Independência e o jogo amistoso Brasil x Austrália, o efetivo policial terá um aumento superior a 300%. O comando da Polícia Militar do DF avisa que prenderá todos os mascarados.
— Nós não queremos ver se repetir no DF o que nós temos visto em outras unidades da federação. Vamos agir com rigor para que aquelas pessoas que não querem se divertir sejam detidas. Qualquer um que sair da norma se transforma num contraventor e será preso. Mascarados vão ser detidos — alertou o comandante geral da Polícia Militar do DF, Jooziel Freire Melo.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do DF, cerca de 150 mil pessoas estarão circulando pela cidade ao longo dos quatro eventos que a capital federal sediará no 7 de setembro: o tradicional desfile cívico, pela manhã, o jogo do Brasil, à tarde, o evento Celebrar Brasília, no início da noite e um Congresso de Dermatologia, que ocorrerá no Centro de Convenções próximo ao Estádio Mané Garrincha. Para dar conta de tudo isso, haverá um efetivo extra de 4 mil policiais militares; 150 policiais civis, 110 homens do Departamento Nacional de Trânsito (Detran) e 320 bombeiros. Somado ao efetivo que normalmente atua em Brasília, a cidade contará com 6.250 policiais militares no próximo sábado.
— Temos a informação de que, entre manifestantes de bem, pessoas vão se infiltrar para promover atos de vandalismo e violência. Há a informação de que há, inclusive, pessoas vindo de outros estados para cá. Sabemos que milhares de famílias, mulheres, crianças se deslocarão para o jogo. Não vamos permitir que atos de violência ponham em risco a integridade dessas famílias — disse o secretário de segurança pública, Sandro Avelar, ressalvando que o trabalho da polícia será conciliar o direito que as pessoas têm de se manifestar pacificamente com o daqueles que querem participar dos eventos festivos e esportivos da cidade.
A polícia sugere que quem for ao jogo se dirija ao estádio com a maior antecedência possível — o jogo começa às 16h e os portões serão abertos às 13h. E que não leve bolsas, mochilas e sacolas, pois as mesmas serão revistadas. A expectativa da Secretaria é que 30 mil pessoas assistam ao desfile; 68 mil ao jogo e 15 mil participem do evento Celebrar Brasília.

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