Sérgio Augusto lembra no “Estadão” sua relação com o escritor Gore Vidal que morreu nesta terça-feira, na Califórnia, aos 86 anos de idade. O jornalista carioca ciceroneou o escritor durante sua passagem pelo Rio, em março de 1987.
“Foram quatro dias e quatro noites de puro deleite intelectual, mundano, turístico e gastronômico”, escreve Sérgio.
Vidal, claro, adorou a cidade e realizou um sonho de infância que era hospedar-se no Copacabana Palace, um hotel “confortável, espaçoso e decadente”. Segue o texto na íntegra:
SÉRGIO AUGUSTO
Tentei encontrá-lo para uma entrevista em 1974, na Itália, onde então morava, em Roma (via della Torre Argentina) e Ravello, costa amalfitana. Mas ele e seu companheiro Howard Austen estavam de férias na Califórnia. Teria de esperar mais 13 anos para enfim conversar com uma de minhas maiores admirações intelectuais (mais) e literárias (menos). Assim mesmo por telefone. Uma hora de papo: Gore Vidal de sua cobertura romana, eu de um prosaico terceiro andar no Rio. Dali a uma semana ele chegaria ao Brasil, a convite da Folha de S. Paulo, da Companhia das Letras e da Unicamp, para lançar sua coletânea de ensaios De Fato e de Ficção.
Banquei-lhe o cicerone no Rio, na última semana de março de 1987. Quatro dias e quatro noites de puro deleite intelectual, mundano, turístico e gastronômico. Realizou um sonho de infância: hospedar-se no Copacabana Palace, que em sua avó e sua mãe deixara ótimas lembranças. “Do jeito que eu gosto: confortável, espaçoso e decadente”, comentou ao percorrer com os olhos a suíte (217) que lhe fora reservada.
Bom de garfo e copo, chegara havia pouco de um tour gastronômico na Tailândia, onde, todos os anos, passava um mês, com o companheiro, no Mandarin Oriental, em Bangcoc. Até uma feijoada à noite, promovida por um grupo de admiradores cariocas, ele enfrentou galhardamente. Adorava feijão, paixão cultivada desde o final dos anos 40, quando morou com Anaïs Nin, ao lado de um mosteiro em ruínas em Antigua, antiga capital da Guatemala. Continuar lendo
