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Mentiras sinceras me interessam

Durante alguns meses, fui colaborador do site “Laboratório Pop”, do meu amigo, meu igual, meu irmão, Mario Marques. A pauta era livre, mas como se tratava de um site de música e cinema, achei mais sensato escrever meus artigos com os pés na areia e a cabeça na lua. Acreditem, nunca me diverti tanto. Se vocês duvidam, aí vai o texto que marcou o início de minha colaboração. Serve também para amenizar a saudade  das nossas noitadas na Pizzaria Guanabara.

FORA DE ÓRBITA 

Olha eu aqui escrevendo num site de Rock. Antes que meus detratores me azucrinem, quero lembrar que nunca levei a sério o bordão de Frank Zappa segundo o qual um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler.

O site é de rock, mas este escriba é de Marte. Sou um jornalista à moda antiga, meto minha colher de pau em qualquer assunto, e não abro. Gosto de música, livros, literatura, cinema, sexo, esportes radicais (gamão e peteca), astronomia, café, mulher cheirosa, Paris, Rio e Nova York.

E não suporto forró, axé music e os novos baianos. Prefiro os velhos (Caetano, Rauzito, Gil, João Gilberto, Glauber, Morais etc e tal).

Já fui preso, processado diversas vezes e não largo o osso. É da minha natureza. Afinal, o que seria do fogo se não fosse o atrito? Costumo tratar meus leitores hipócritas como adultos, não importa a idade, e não suporto elogio. Sou tímido.

O que fazer? Sou mentiroso, porém sincero. Ou seja, mentiras sinceras me interessam.
Quanto ao nome do Blog, “Fora de Órbita”, trata-se de uma homenagem (mais uma) ao cineasta Woody Allen.

Bom, por enquanto é só.

Ah, sim, para quem não sabe, moro em Natal, mas vivo no mundo da lua a maior parte do ano. É isso.

NOSSAS CELEBRIDADES SÃO CÉLEBRES APENAS PORQUE CONQUISTARAM A FAMA, NÃO PORQUE FIZERAM ALGO IMPORTANTE

Vou logo avisando: o artigo que reproduzo abaixo não é para miolo mole. Trata-se de uma análise de Renato Janine Ribeiro sobre mídia, política, celebridade e vida privada. O artigo é longo e pertinente. Confiram:

Por Renato Janine Ribeiro

A mídia invade a política – mas não estou falando de nosso país. Vamos direto ao assunto: a atual companheira do presidente da França, Valérie Trierweiler, tuitou seu apoio ao rival da companheira anterior de François Hollande, nas eleições do começo de junho.

Nunca vi coisa assim.

São do mesmo partido, notem bem. Isso, na França, parece espantoso. A França é um dos países mais politizados do mundo, com cidadãos acostumados a exercer um espírito fortemente crítico sobre a coisa pública.

Não se compara com os Estados Unidos que, apesar de sua riqueza, têm uma cidadania muito disposta a sair da discussão política para entrar na religiosa e no moralismo mais tosco.

Não foi à toa que a França fez as grandes revoluções da história, as quais, em 1789, 1830, 1848 e 1871, vieram inspirar a Europa e o mundo em importantes mudanças, indo desde a reivindicação democrática transmitida pela “Revolução Francesa” (a primeira) até as reivindicações sociais e mesmo socialistas das duas últimas.

Mas, tudo isso posto, os últimos anos da política francesa parecem, cada vez mais, história de folhetim.

Os franceses chamam de “people” (pronunciam “pipôl”) o que nós denominamos celebridades. Os dois termos, o nosso e o deles, são falhos. Nossas celebridades são célebres só porque se dizem ou se fazem célebres. Não são famosas porque fizeram algo importante, mas apenas porque conquistaram fama. Continuar lendo

ESTRANGEIRO

Sempre evitei falar de mim, quis falar de coisas. Mas como observou o poeta João Cabral de Melo, na seleção dessas coisas não haverá um falar de mim?

Dizem que sou de pedra, mas é por ser de pedra que estou, sempre, prestes a desmoronar. Me sinto fora do mundo “normal” e é de fora que tento descrever esse mundo “normal”.

Estrangeiro em um mundo estranho, vivo numa constante asfixia. Vivo como um prisioneiro – um estranho prisioneiro que, em vez de estar dentro da jaula, está fora dela. E meu maior desejo é justamente entrar na jaula. Não me sinto preso por dentro, mas preso por fora.

Minha chave é o desejo de inclusão. O desejo de pertencer – de amparar-se em algo, ou alguém. Mas meu desejo de pertencer é também um desejo de sucumbir.