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Admirável mundo novo

Pierre Omidyar, criador do e-Bay, está investindo 250 milhões dólares numa empresa jornalística chefiada por Glenn Greenwald, que revelou a espionagem americana. Abaixo, perfil de Omidyar escrito por Kiko Nogueira, do Diário do Centro do Mundo:

A notícia recente mais importante do mundo da mídia foi a de um bilionário que resolveu investir milhões numa empresa jornalística. Não estou falando de Jeff Bezos e do Washington Post, mas de Pierre Omidyar e do site que está criando com Glenn Greenwald, o jornalista e advogado responsável pelos furos sobre o esquema de espionagem dos Estados Unidos.

Omidyar também foi abordado pela família proprietária do Post, mas a conversa não prosperou. “Esse processo me fez pensar sobre que tipo de impacto social pode ser criado se um investimento semelhante for feito em algo totalmente novo, construído a partir do zero. Algo em que eu estaria pessoalmente envolvido”, escreveu ele em seu blog.

Está pondo US$ 250 milhões no projeto. Greenwald deixa o jornal inglês The Guardian, no que definiu como oportunidade de uma vida. A equipe ainda terá Laura Poitras, a documentarista que trabalhou nas entrevistas com Edward Snowden, e Jeremy Scahill, correspondente da revista Nation, escritor e documentarista dedicado a contar histórias da política externa americana.

Ou seja, dá para ter uma ideia do que vem por aí. Diferentemente de muitos de seus colegas que enriqueceram com tecnologia e continuam na área, Omidyar tem interesses mais amplos. Criou, há anos, um site com a mulher Pam para divulgar informações sobre o vírus ebola. Acredita que as pessoas “são basicamente boas”.

Nascido na França numa família de iranianos exilados, Omidyar tem 46 anos. É filho único. Seu pai é médico e a mãe é uma acadêmica reconhecida. Em 1995, fundou o eBay, a gigante do e-commerce. A Forbes calcula sua fortuna em US$ 8,5 bilhões. Seu perfil no Twitter tem duas frases: “Seja você. Seja cool”. Ele vive com Pam no Havaí, onde financiou empreendimentos de jornalismo cidadão. Ali já havia uma tentativa de cobrar transparência das autoridades. “Eu desenvolvi um interesse em apoiar jornalistas independentes de maneira a fazer seu trabalho, tudo em prol do interesse público. E eu quero encontrar um modo de converter leitores do mainstream em cidadãos engajados. Acho que dá para fazer mais nesse espaço e estou animado em explorar as possibilidades”, disse no blog.

O site — que ainda não tem nome definitivo; por enquanto, NewCo — será para todos os tipos de consumidores de notícias. “Vai cobrir esportes, negócios, entretenimento, tecnologia: tudo o que o usuário quiser”, diz Jay Rosen, crítico de mídia e professor de jornalismo da Universidade de Nova York, que foi consultado sobre a NewCo.

Embora Omidyar seja um filantropo, seu objetivo, nesse caso, é fazer dinheiro. “Você precisa de editores, você precisa de outros olhares sobre as matérias, você precisa de advogados e de maneiras de suportar a pressão. Você precisa bilhetes de avião!”, disse a Rosen.

Sua aventura é um exemplo de que há formas de viabilizar o jornalismo independente. O modelo de negócios ainda está se desenhando, mas o homem que fez o eBay e que colocou um quarto de bilhão de dólares está trabalhando nisso. Para Omydiar, o sucesso editorial estará no ponto de equilíbrio entre os blogs, a participação fundamental de comentários em posts e o jornalismo tradicional. A aliança com Greenwald, que tem milhares de seguidores e é uma voz ativa per se, cai como uma luva. Continuar lendo

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O 7 de Setembro de 2013 não passou de 171 da velha mídia

O fiasco dos protestos agendados para o 7 de Setembro foi um grande fiasco. Quem perdeu foi a velha mídia que apostou suas fichas, acreditando que o ronco da rua acordaria o gigante adormecido. Nada mais fascista, não é mesmo? Bem, o jornalista Paulo Moreira Leite escreveu uma análise impecável a respeito cujo título é Crocodilos derrotados. Segue abaixo:

Nossos cronistas que tentam impedir que os condenados da Ação Penal 470 tenham direito a uma revisão adequada de suas penas e mesmo uma segunda jurisprudência perderam um argumento depois de ontem.

Numa postura autoritária, que confundia seus desejos com a realidade, falavam do monstro, do ronco, do demônio das ruas para justificar a prisão imediata dos condenados.

Mas tivemos protestos de participação modesta, que confirmam não só a vergonhosa ignorância da fatia conservadora da elite de nossos meios de comunicação quanto às preocupações reais que afligem a maioria da população, mas também sua total falta de compromisso com a apuração e divulgação de fatos verdadeiros e informações confiáveis.

Querem fazer propaganda, querem ideologia – e não é difícil entender a razão.

Interessados num eventual proveito político do julgamento, tentam chantagear as instituições da democracia, sem importar-se, sequer, com outros prejuízos de natureza cultural que o estimulo à baderna possa produzir.

Como observou Janio de Freitas, pela primeira vez na história as pessoas saíram a rua num 7 de setembro sem “incluir, sequer remotamente, algo da ideia de nacionalidade, ou de soberania, de independência mesmo.”

Diz ainda Janio: “pelo visto, não faria diferença se, em vez do Sete de Setembro, a celebração mais próxima fosse o Natal. Ou Finados.”

Lembrando que somos uma pátria de desiguais, o Grito dos Excluídos disse a que veio. Mas só.

Os demais não disseram nada, embora fosse sobre eles que se disse tudo – especialmente, que o STF deveria se acovardar.

Há um componente maligno e manipulador nesse esforço para anunciar que um protesto será uma manifestação grandiosa.

Procura-se estimular o efeito manada naquele conjunto de cidadãos capazes de sair a rua porque acham que “todo mundo vai estar lá”. Numa sociedade pouco organizada como a nossa, onde os partidos políticos são o que são e as demais organizações sociais são aquilo que se conhece, muitas pessoas sentem-se desenraizadas e sem compromisso social maior. Ficam impressionadas com demonstrações de força.

Tenta-se contaminar nestes indivíduos um sentimento de solidão e isolamento caso não acompanhem os atos daqueles que se quer transformar numa “maioria” que ninguém ouviu nem diz onde mora nem sabe o que pensa – e muitas vezes nem pode ver o rosto, o que não é casual. Continuar lendo

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O óbvio ululante

Assim como há juízes em Berlin, ainda existem jornalistas interessados em apurar em vez de falar bobagem no Twitter e no Face. Eu não invento nada. Os fatos estão aí na nossa cara, mas a estupidez de alguns não os deixa ver…

Tem gente que não consegue enxergar o óbvio por mais óbvio que o óbvio seja. Aprendam comigo: quando todos olham para o céu, eu olho para o chão. É lá que está a notícia. Mas o que é notícia? É tudo aquilo que os jornais não dão.

Sou radicalmente a favor da imprensa livre. O que não suporto são os donos dos jornais. E seus bajuladores. Alguns deles, acreditem, são piores que os patrões.

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Blogueiro chapa branca? O que é isso?

Faço minhas as palavras de Paulo Moreira Leite que explica o que é isso. Segue na íntegra:

De vez em quando, leitores escrevem para reclamar que me consideram um blogueiro chapa branca em função de minha avaliação positiva das mudanças ocorridas no país depois de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República.

Minha primeira observação é que boa parte dessas críticas refletem um comportamento interesseiro e seletivo. Essas mesmas pessoas não me chamariam de “chapa branca” se eu tivesse a mesma avaliação do governo Fernando Henrique Cardoso – ou mesmo da gestão do PSDB em São Paulo. Tentariam desqualificar argumentos, rebaixar uma discussão que é acima de tudo política, pois envolve valores e prioridades nas políticas públicas? Claro que não.

Não custa lembrar, na verdade, que o critério “chapa branca” não serve e nunca serviu como termômetro para se avaliar o trabalho de um jornal nem de um jornalista.

Em 1964, um único jornal de relevo, a Ultima Hora, era chamado de chapa branca. Os demais, adversários duros de João Goulart, jamais poderiam ser chamados assim. No 31 de março, todos estavam alinhados com o golpe militar que atirou o Brasil numa ditadura de 21 anos. Quem estava certo?

Três dias antes do golpe, o Correio da Manhã, que era favorável a Jango, mudou de lado e se alinhou com os adversários. No dia 31 de março, no célebre editorial ” Basta!, “o Correio escreveu:

“O Brasil já sofreu demais com o governo atual. Agora, basta!”

No 1 de abril, quando Goulart ainda se encontrava no país e a vitória dos golpistas estava consolidada, o Correio publicou o editorial “Fora!” Disse: “Só há uma coisa a dizer ao sr. João Goulart: saia.”

Pergunto quem errou: o jornal que hoje seria chamado chapa branca, ou aqueles que faziam oposição e ajudaram na correnteza que levou ao golpe?

Os inúmeros defeitos que se pode apontar no governo Goulart justificavam que se assumisse uma postura de oposição feroz e golpista?

Muitos leitores têm dúvidas sinceras sobre o papel do jornalismo e dos jornalistas ao longo da história do país. Há motivos antigos – como 1964 — recentes – como 2005 – para isso. Há oito anos, como se recorda, a partir da denúncia do mensalão, criou-se um ambiente de confronto e polarização entre o governo Lula e os meios de comunicação, que atravessou duas eleições presidenciais e chegou aos protestos de junho de 2013.

Para entender o que acontece hoje, é instrutivo ler o que escreviam nossos jornalistas – aqueles que não eram chapa-branca — de meio século atrás. Há antecedentes lamentáveis e surpreendentes.

Vamos citar um dos mais influentes, Helio Fernandes, que dirigia a Tribuna da Imprensa e acusava Jango de promover a “pré-sovietização do país, que se processava num ritmo alucinante.” Convém prestar atenção à linguagem empregada para se referir aos aliados de Jango: “Na maioria das vezes são traidores. Outras, são mercenários; outras ainda, carreiristas; outras mais, negocistas satisfeitos.”  Continuar lendo

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O jornalismo não está acabando. Ele está, na verdade, passando por uma formidável transformação para melhor

Quem disse que o jornalista é um espécie em extinção, errou, e errou feio. É a conclusão que  tiro da ótima análise do jornalista Paulo Nogueira. “O jornalismo não está acabando. Ele está, na verdade, passando por uma formidável transformação – para melhor”, alerta Nogueira em seu artigo publicado no portal Diário do Centro do Mundo. Segue abaixo:

Caro jovem interessado em jornalismo:

Você deve ter ouvido vaticínios terríveis sobre o futuro do jornalismo. E isso pode estar fazendo você desistir de ser jornalista. Pois eu digo. Pense duas vezes.

O jornalismo não está acabando. Ele está, na verdade, passando por uma formidável transformação – para melhor.

O que vai chegando ao fim é a era do jornalismo em que o jornalista é um mero apêndice para os donos das corporações.Alguns chamam isso de jornalismo corporativo.

Nele, o jornalismo é pago para defender as ideias dos donos e não para ajudar o mundo a se tornar melhor. Você pode ganhar um salário bom, mas a frustração é enorme. Você rapidamente aprende que os interesses dos donos são prioritários.

Na era da internet, com a democratização da informação, o caráter nocivo das grandes empresas de jornalismo ficou estampado. Não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Os grandes jornais americanos, por exemplo, deram apoio a Bush na criminosa invasão do Iraque.

Na Inglaterra, a sociedade se deu conta de que os jornais faziam barbaridades não para defender o interesse público, mas para vender mais e ampliar seus lucros. Os ingleses acordaram depois que veio à luz a informação de que um tabloide de Murdoch invadira a caixa postal de uma garota sequestrada – e assassinada — em busca de furos.

A internet, ao atropelar a mídia tradicional, está destruindo este tipo de jornalismo, e não o jornalismo em si. É um jornalismo em que, para fazer carreira, você tem que ser papista e obedecer cegamente ao papa, o dono.

Papista, para que você saiba, foi uma expressão usada por um jornalista chamado Evandro para ser contratado como diretor do Globo por Roberto Marinho.

“Sou papista”, avisou ele. Deu certo. Continuar lendo

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A mídia partidarizada

O professor e sociólogo Homero de Oliveira Costa envia para o blogue um ótimo texto em que analisa a partidarização da mídia. Segue na íntegra:

A relação entre Mídia e Política tem sido objeto de muitos estudos tanto no campo da comunicação, como nas ciências sociais. Pelo menos desde a década de 1990 foi constituído em várias universidades grupos de pesquisas que analisam a relação entre mídia e política, que tem resultado em dissertações de mestrado e teses de doutorado.

São muitas pesquisas e a publicação de seus resultados. Para fins deste artigo, destacaria mais especificamente alguns estudos que tratam de um dos aspectos relevantes da temática, que é o da partidarização da mídia (considerado aqui a chamada “grande mídia” que inclui jornais, revistas e canais de televisão), entre eles, o artigo “Veja e a construção do CR-P (Cenário da Representação Política) nas eleições presidenciais de 1998” de Murilo Cesar Soares (apresentado no II Encontro Nacional de Estudos de Comunicação e Política, em Salvador, 1998),os livros “Mito e discurso político: uma análise a partir da campanha eleitoral de 1994 de Luis Felipe Miguel (Editora da Unicamp,2000); “Eleições presidenciais em 2002 no Brasil (Hacker editores, 2004) e “A mídia e as eleições de 2006 (Editora Perseu Abramo, 2007) e, mais recentemente “A ditadura continuada: fatos, factoides e partidarismo da imprensa na eleição de Dilma Rousseff” de Jakson Ferreira de Alencar (Editora Paulus, 2012).

Este último trata das eleições presidenciais de 2010 e da “tomada de partido por parte da imprensa e da Folha de S. Paulo, em particular (…) pelo panorama da cobertura do jornal do período e de seus posicionamentos políticos”. Como disse Venício Lima ao comentar o livro “ele demonstra e confirma o que já sabemos: os jornalões brasileiros, além de partidarizados, não têm compromisso nem mesmo com seus manuais de redação”.

Destacam-se também as pesquisas realizadas pelo Doxa (Laboratório de Pesquisas em Comunicação Política e Opinião Pública) do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e artigos de seus pesquisadores como: “Tomando partido: Imprensa e política nas eleições de 2006, de Alessandra Aldé, Gabriel Gutierrez e Marcus Figueiredo (Politica & Sociedade , v.10, 2007). Continuar lendo

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Lobos em pele de cordeiros

Paulo Nogueira direto do Diário do Centro do Mundo

É interessante o que aconteceu no jornalismo brasileiro nos últimos 50 anos.

Na época da ditadura militar, os donos das grandes empresas mantinham perfil baixo. Por motivos óbvios: havia risco. Ditaduras têm relação sempre áspera com o jornalismo. A exceção conspícua aí era Roberto Marinho, da Globo. Ele era “absolutamente confiável”, para os militares. Podia dizer que “dos seus comunistas” cuidava, e era verdade. Os comunistas que trabalhavam com Roberto Marinho não escreviam nada que pudesse alimentar sua causa.

Os demais donos não gozavam da mesma confiança dos militares. Os Mesquitas, que tinham apoiado a Revolução de 1964, exigiram depois que os militares voltassem logo para os quartéis. Mas os generais tinham gostado do poder, e terminaram por censurar o Estadão por muitos anos. Na Folha, sob Octavio Frias de Oliveira, você teve um jogo duplo. Frias não era um “pensador” como os Mesquitas.

Durante muitos anos ele manteve um jornal que era seu gesto de confraternização com o regime, a Folha da Tarde. Iniciei minha carreira nele. Você parecia às vezes estar não numa redação, mas num quartel. Antogio Aggio Filho, o editor-chefe, era de extrema-direita. O secretário de redação, Rodrigão, era militar. O redator-chefe, Torres, tinha livre trânsito no Dops. Não vi isso, mas contavam na redação que Torres uma vez subira numa cadeira para defender a morte de guerrilheiros – ou terroristas, como ele os chamava. A meu lado, na redação, trabalhavam um coronel, apelidado exatamente assim, Coronel. Era discreto, simpático. Guardo boas lembranças das conversas supérfluas que travávamos ali no fechamento.

Aggio foi posto no cargo de diretor da Folha da Tarde em 1969 por Frias, segundo quem a decisão se devia à competência do jornalista e não a seu trânsito com os militares. Ele varreu da redação as pessoas de esquerda. O jornalista Jorge Okubaro, que mais tarde se tornaria editorialista do Estadão, viveu a transição. “Alguns foram demitidos sob alegação de incompetência, mas o verdadeiro motivo da demissão foi o fato de terem, em algum momento, feito ou participado de alguma manifestação que os caracterizava como de esquerda, seja pelas conversas pessoais, seja pelos textos que eventualmente publicaram”, lembra Okubaro. Continuar lendo

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Como ser brilhante e infame diante de uma tragédia

O jornalista Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, compara duas charges feitas sobre o drama de Santa Maria. Para ler e guardar. Segue na íntegra:

Fazer charge num drama como o de Santa Maria é uma tarefa para poucos.

É fácil fazer bobagem, e é difícil fazer coisa boa.

Na tragédia de Santa Maria, tivemos as duas situações. O cartunista Carlos Latuff, que se celebrizou no Brasil há pouco tempo depois de ser acusado de antissemita, brilhou.

Latuff ironizou o abominável comportamento da mídia diante de calamidades como a da casa noturna Kiss. Um repórter tenta extrair palavras de um familiar da vítima no enterro, numa exploração abjeta da dor alheia.

Clap, clap, clap. De pé.

Latuff deu voz a milhões de brasileiros que somaram à tristeza pelas centenas de mortes a indignação pela atitude de jornalistas que não respeitam a dor alheia e simulam, como canastrões, uma dor que não sentem.

O lado B veio com Chico Caruso, no Globo. Ele fez uma prisão em chamas, na qual ardem as pessoas ali dentro e da qual se exala uma fumaça sinistra. Dilma, sempre Dilma, observa de longe e exclama: “Santa Maria!”

Era para rir? Os leitores acharam que não. Mas viria uma segunda etapa. Numa decisão estapafurdiamente incompreensível, Ricardo Noblat republicou a charge em seu blogue com o acréscimo da palavra “humor”.

A reação nas redes sociais foi imediata. Caruso e Noblat foram simplesmente abominados. No próprio blog de Noblat, os leitores manifestaram repúdio. Um deles notou que a dupla conseguiu unir petistas e antipetistas na mesma reprovação torrencial a Noblat e Caruso.

Noblat defendeu Chico Caruso, e sobretudo a si próprio, em linhas antológicas: quem não gostou da charge, foi o que ele essencialmente disse depois de uma cômica interpretação do desenho, não a entendeu. Os leitores são burros, portanto.

Tenho para mim que parte da raiva se deve ao fato de ambos estarem fortemente identificados com a Globo. Alguma coisa da rejeição que existe em boa parte da sociedade à Globo se transmite a seus funcionários.

Mas a questão vai além. É complicado, ficou claro, fazer charge decente para as Organizações Globo. A de Latuff jamais seria publicada pelo Globo. O espesso conservadorismo da empresa acaba por ceifar a possibilidade de iconoclastia, de inconformismo de cartunistas da Globo.

Se nas colunas políticas o reacionarismo nos veículos da Globo não chega a chocar, porque é esperado, na charge aparece como um estigma. De artistas se espera uma atitude diferente, mais arejada, mais provocativa.

Caruso, nos anos 1980, se destacou como um dos melhores chargistas de sua geração. Prometia mais do que entregou, é certo, mas fez uma carreira boa.

Agora, vai passar para a história como o autor da charge mais repudiada e mais infame da mídia brasileira em muitos anos — em parte por um mau momento, em parte por carregar no peito o crachá das Organizações Globo.

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A fonte

Em junho de 1972 a sede do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington, foi invadida. O objetivo era grampear os telefones da oposição democrata ao presidente Richard Nixon. O escândalo de Watergate, como ficou conhecido, obrigou Nixon a renunciar.

O  vice-diretor do FBI, Willia Mark Felt, mais conhecido como “Garganta Profunda”, foi quem forneceu notícias exclusivas a respeito do que se passava nos bastidores da engrenagem montada por Nixon para bloquear as investigações do caso.

Felt esperava suceder J. Edgar Hoover na direção do FBI. A escolha de Patrick Gray para a função, enfureceu o subsecretário que se aproximou do repórter Bob Woodward, do jornal “Washington Post”.

Felt só conversava com Woodward – o outro jornalista da dupla, Carl Bernstein, só soube da identidade do personagem muitos anos depois. Um editor do “Post”, inspirado no título de um filme pornográfico que fazia sucesso na época, apelidou-o de Garganta Profunda.

A existência de Felt, mas não sua identidade, tornou-se mundialmente conhecida no livro de Woodward e Bernstein, “Todos os Homens do Presidente”, de 1974, e depois na versão para o cinema, com Dustin Hoffman e Robert Redford.

Dedicado burocrata, alto, de cabelos brancos precoces, Felt só saiu das sombras em maio de 2005, numa reportagem da revista “Vanity Fair”. Ali, pela primeira vez, em um texto escrito por um de seus advogados – Felt já sofria de demência -, soube-se que o Garganta Profunda era o antigo funcionário do FBI.

Woodward, em entrevistas, confirmou o nome e encerou um dos grandes segredos do século 20. Feltt morreu em dezembro de 2008, aos 95 anos.

Sua trajetória já deu um livro, “A Vida do Garganta Profunda”. É hora do cinema correr atrás.

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