« Voltar | Início » Posts tagged "JORNALISMO" (Page 2)

A Justiça na mão da Globo

Por Rodrigo Vianna do blogue O Escrivinhador

Na praça Clóvis/Minha carteira foi batida/Tinha vinte e cinco cruzeiros/E o teu retrato…
Vinte e cinco/Eu, francamente, achei barato/Pra me livrarem/Do meu atraso de vida
(Paulo Vanzolini, “Praça Clóvis”)

Hoje, tivemos mais uma prova. Ano passado, fui condenado em primeira instância, num processo movido pelo diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel. Importante dizer: a juíza na primeira instância não me permitiu apresentar testemunhas, laudos, coisa nenhuma. Acolheu na íntegra a argumentação do diretor da Globo – sem que eu tivesse sequer a chance de estar à frente da meritíssima para esclarecer minhas posições.

Recorremos ao Tribunal de Justiça, também no Rio. Antes de discutir o mérito da ação,pedimos que o TJ analisasse um “agravo retido” (espécie de recurso prévio) que obrigasse a primeira instância a ouvir as testemunhas de defesa e os especialistas de duas universidadesque gostaríamos de ver consultados na ação.

O Tribunal, em decisão proferida nessa terça-feira (15/01), ignorou quase integralmente nossa argumentação. Negou o agravo e, no mérito, deu provimento apenas parcial à nossa apelação – reduzindo o valor da indenização que a meritíssima de primeira instância fixara em absurdos 50 mil reais. Ato contínuo, certos blogs da direita midiática começaram a dar repercussão à decisão. Claro! São todos fidelíssimos aos patrões e ao diretor da Globo, na luta que estes travam contra outros jornalistas.

Sobre esse processo, gostaria de esclarecer alguns pontos. Primeiro, cabe recurso e vamos recorrer!

Segundo, está claro que Ali Kamel usa a Justiça para se vingar de todos aqueles que criticam o papel por ele exercido à frente da maior emissora de TV do país. Kamel foi derrotado duas vezes nas urnas: perdeu em 2006 (quando a Globo alinhou-se ao delegado Bruno na véspera do primeiro turno, num episódio muito bem narrado pela CartaCapital, naquela época) e perdeu em 2010 (quando o episódio da “bolinha de papel” foi desmascarado pelos blogs e redes sociais). Contra as quotas, contra o Bolsa-Família, contra os avanços dos anos Lula: Kamel é um dos ideólogos da direita derrotada. Por isso mesmo, era chamado na Globo de “Ratzinger”.

Em 2010, Ali Kamel virou alvo de críticas fortes (mas nem por isso injustas) na internet. Deveria estar preparado pra isso. Dirige o jornalismo de uma emissora acostumada a usar seu poder para influir em eleições. Passadas as eleições de 2010, Kamel muniu-se de uma espécie de “furor processório”. Iniciou ações judiciais contra esse escrevinhador, e também contra Azenha (VioMundo), Marco Aurélio (Doladodelá), CloacaNews, Nassif, PH Amorim… Todas praticamente simultâneas. Estava claro que Kamel pretendia mandar um recado: “utilizarei minhas armas para o contra-ataque; não farei o debate público, de conteúdo, partirei para a revanche judicial”.

Advogados costumam dizer que em casos assim “o processo já é a pena”. Ou seja: o processante tem apoio da maior emissora do país, conta com advogados bem pagos e uma estrutura gigantesca. O processado (ou os processados) são jornalistas e blogueiros “sujos”, sem eira nem beira. O objetivo é sufocar-nos (financeiramente) com os processos.

Está enganado o senhor Ali Kamel. Aqui desse lado há gente que não se intimida tão facilmente. Continuar lendo

Share

Barrigas de aluguel

Do 247

A SEMANA DOS GRANDES ERROS NA GRANDE IMPRENSA

Primeiro, a Folha noticiou uma reunião de emergência sobre o setor elétrico, que era rotineira. O Estadão, em letras garrafais, anunciou que o Ministério Público investigaria o ex-presidente Lula. E o Globo avisou que empresários já estariam fazendo seu próprio racionamento. Três exemplos “wishful thinking”, em que a vontade política dos editores se impõe à objetividade dos fatos. Se isso não bastasse, Veja também derrapou feio ao anunciar uma megafusão bancária que não houve

12 DE JANEIRO DE 2013 ÀS 06:30

 247 – Wishful thinking. A expressão inglesa é a melhor tradução para o comportamento dos grandes jornais brasileiros na semana que passou e expressa um dos principais erros do pensamento, que é o de transformar desejos em realidade. Em vez de narrar os fatos como eles são, a história é contada como gostaríamos (ou gostariam) que fosse.

Entre pessoas comuns, o erro é perdoado. Mas quando se trata de grandes jornais, que têm o dever da objetividade, a questão se complica. A semana que passou, para a grande imprensa, foi também a semana dos grandes erros. Não pequenos deslizes, mas erros colossais, que, em alguns casos, foram escritos em letras garrafais – fugindo até ao padrão gráfico das publicações.

O jogo dos erros começou com a Folha de S. Paulo, dos Frias, que, na segunda-feira, anunciou: “Escassez de luz faz Dilma convocar o setor elétrico”. No subtítulo, a mensagem de que, na “reunião de emergência”, seriam discutidas medidas contra o racionamento, sob a imagem de uma vela acesa na escuridão. Este era o desejo – o wishful thinking. A realidade, no entanto, é que a reunião não era emergencial nem haverá racionamento.

No dia seguinte, foi a vez do Estadão, principal concorrente da Folha, que não ficou atrás. O sonho da família Mesquita, que controla o jornal, talvez seja ver o ex-presidente Lula atrás das grades. E a manchete “MPF vai investigar Lula” veio em negrito e letras gigantes como se anunciasse que a Alemanha nazista foi derrotada pelos aliados. Mais um exemplo de wishful thinking. No mesmo dia, a “informação” foi negada pelo procurador-geral Roberto Gurgel.

O Globo, dos Marinho, naturalmente, não poderia ficar de fora da festa e anunciou que grandes grupos empresariais já planejam racionar energia. Outra demonstração de um desejo – na quinta-feira, após uma reunião com a presidente Dilma, os principais empresários do País deram demonstrações públicas de que não estão trabalhando com a hipótese de apagão.

Se tudo isso não bastasse, houve também a barriga de Veja Online, que, também nesta semana, anunciou a fusão entre Bradesco e Santander. Neste caso, não era wishful thinking. Apenas um erro de informação e os jornalistas responsáveis foram demitidos.

De todo modo, a semana foi exemplar ao escancarar os riscos que se corre quando a vontade política dos editores se sobrepõe à objetividade dos fatos.

PS: até agora, apenas a Folha admitiu o erro, ainda que em letras miúdas.

Share

A morte do jornal pode prejudicar a democracia? Não.

No final de 2012 o mundo jornalístico foi surpreendido com o fim da edição impressa da revista “Newsweek”. O último número em papel saiu em 31 de dezembro, mantendo apenas a versão digital.

No Brasil não tem sido diferente. No dia 1 de dezembro de 2008, prestes a completar 60 anos, a “Tribuna da Imprensa” saiu de cena.

Na edição em que se despediu dos leitores, seu diretor Hélio Fernandes acusou o Supremo Tribunal Federal (STF) de adiar o julgamento de uma ação indenizatória milionária movida pelo jornal contra o Estado que rola por tribunais há 29 anos. Seria com o dinheiro dela (estipulada 10 milhões de reais na época) que a “Tribuna” pretendia pagar dívidas, salários atrasados e continuar operando.

Além da “Tribuna da Imprensa”, duas outras publicações encerraram suas versões em papel: O “Jornal do Brasil” (em 31 de agosto de 2010) e o “Jornal da Tarde” (31 de outubro de 2012), pertencente ao Grupo Estado, o mesmo que publica o jornal “Estado de São Paulo”.

O impacto da internet está matando os jornais. Mudanças tecnológicas destruíram vários tipos de produto então populares, do tear manual ao walkeman. O mundo ficou melhor.

A morte do jornal pode prejudicar a democracia? Não. Pesquisas sugerem que os jovens estão tão bem (ou mal) informados quanto antes.

A noticia mudou, eis a grande notícia. Tecnologias melhores podem fornecer novos modelos para que a informação floresça na era digital. Novas formas já proliferam online.Em muitas não se pode confiar.

Mas outras – como site de notícias e opinião “The Huffington Post”, que tem exercido influência sobre o jornalismo dos EUA desde 2005 – melhoram a compreensão da sociedade sobre si mesma, e não poderiam ter existido antes.

A única certeza sobre o futuro da notícia é que será diferente. Não será mais dominada por alguns poucos grandes títulos, com primeiras páginas que decidem qual a principal notícia do dia.

Pelo contrário, a opinião pública será moldada por milhares de vozes diferentes. As pessoas terão menos assuntos em comum a comentar. Os que não têm interesse em assuntos econômicos ou políticos terão chances menores de cruzar com eles.

Mas aqueles que têm estarão mais bem equipados para pedir prestação de contas a seus governantes. É para isso, afinal, que a sociedade precisa das notícias.

Share

Filme pernambucano escolhido um dos dez melhores de 2012 pelo NYT é uma crônica sobre a nova classe média brasileira

“O Som ao Redor”, do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, foi escolhido como um dos dez melhores filmes de 2012 pelo “New York Times”. Longa faz uma crônica sobre nova classe média brasileira.

O jornalista Marcelo Miranda entrevistou o diretor para o jornal “Valor”. Segue a conversa na íntegra:

Há algumas semanas, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho ouviu a história de uma senhora de classe média que ficou enfurecida com a empregada doméstica, que tinha adquirido um fogão caro. “Se você mal tem dinheiro para alimentar seus filhos, como é que compra um fogão melhor do que o meu?”, perguntou a senhora. “Se eu tivesse ouvido isso quando fazia meu filme, teria colocado no roteiro”, afirma Mendonça Filho.

É desse tipo de choque social que trata “O Som ao Redor”, primeiro longa de ficção do diretor de 44 anos, que estreia amanhã. Ao longo de um ano, o filme percorreu 36 festivais, iniciando em Roterdã, de onde saiu com o prêmio da Federação Internacional dos Críticos de Cinema (Fipresci), e passando por Gramado, onde venceu em direção, som, júri popular e júri da crítica.

O filme já foi exibido em espaços tão díspares quanto o State Theatre em Sydney, na Austrália, numa sessão para 1.500 pessoas, e o Corpo de Bombeiros de Sarajevo, na Bósnia, a 500 espectadores. O diretor tinha dúvidas sobre a reação de estrangeiros a uma crônica urbana cujo cenário é o bairro de Setúbal, onde o próprio cineasta mora, no Recife. Mas o filme tem colhido elogios. A primeira longa reportagem internacional sobre a produção, escrita por Larry Rohter para o “The New York Times”, em agosto, exaltava o fato de ela lidar criticamente com as consequências das transformações sociais no Brasil desde o começo do governo Lula, em 2003.

“Um bom filme, ou uma boa crônica, livro ou roteiro, faz o retrato artístico de seu tempo. Lula representou uma grande mudança. A postura, o jeito de falar, a forma como tratou as classes mais baixas, tudo isso trouxe um respeito muito grande e fez com que os mais pobres aprendessem a não baixar mais a cabeça”, diz Mendonça Filho. Continuar lendo

Share

Não basta acusar. É preciso provar

Sobre o retorno de Marcos Valério

Até quando será tolerado no Brasil que a mídia publique acusações graves sem nenhuma prova?

Marcos Valério em sua época mais reluzente.

E lá vem ele de novo, Marcos Valério.

Pobre leitor.

Mais uma vez, o que é apresentado – a título de “revelações” – é um blablablá conspiratório e repetitivo em que não existe uma única e escassa evidência.

Tudo se resume às palavras de Marcos Valério. Jornalisticamente, isso é suficiente para você publicar acusações graves?

Lula já não é apenas o maior corrupto da história da humanidade. Está também, de alguma forma, envolvido num assassinato. Chamemos Hercule Poirot.

Se você pode publicar acusações graves sem provas, a maior vítima é a sociedade. Não se trata de proteger alguém especificamente. Mas sim de oferecer proteção à sociedade como um todo.

Imagine, apenas por hipótese, que Marcos Valério, ou quem for, acusasse você, leitor. Sem provas. Numa sociedade avançada, você está defendido pela legislação. A palavra de Valério, ou de quem for, vale exatamente o que palavras valem, nada – a não ser que haja provas.

Já falei algumas vezes de um caso que demonstra isso brilhantemente. Paulo Francis acusou diretores da Petrobras de corrupção. Como as acusações – não “revelações” – foram feitas em solo americano, no programa Manhattan Connection, a Petrobras pôde processar Francis nos Estados Unidos.

No Brasil, o processo daria em nada, evidentemente. Mas nos Estados Unidos a justiça pediu a Francis provas. Ele tinha apenas palavras. Não era suficiente. Francis teria morrido do pavor de ser condenado a pagar uma indenização que o quebraria financeira e moralmente.

Os amigos de Francis ficaram com raiva da Petrobras. Mas evidentemente Francis foi vítima de si mesmo e de seu jornalismo inconsequente.

Francis foi vítima de Francis

Por que nos Estados Unidos você tem que apresentar provas quando faz acusações graves, e no Brasil bastam palavras?

Por uma razão simples: a justiça brasileira é atrasada e facilmente influenciável pela mídia. Se Francis fosse processado no Brasil, haveria uma série interminável de artigos dizendo que a liberdade de imprensa estava em jogo e outras pataquadas do gênero.

Nos Estados Unidos, simplesmente pediram provas a Paulo Francis.

O que existe hoje no Brasil é um sistema que incentiva a leviandade, o sensacionalismo e a tendenciosidade na divulgação e no uso de ‘informações’.

A vîtima maior é a sociedade, que se desinforma e pode ser facilmente manipulada. O problema só não é maior porque a internet acabou se transformando num contrapeso e num fiscal informal da grande mídia.

Um episódio recente conta muito: foi amplamente noticiado que teriam sido interceptadas 122 ligações ‘comprometedoras’ entre Lula e Rose. No calor, o jornalista Ricardo Setti publicou em seu blog na Veja até uma fotomontagem em que Lula aparecia festivamente entre Rose e Mariza. (Depois, apanhado em erro, pediu triunfalmente desculpas, num tom de quem parecia desejar mandar às favas os fatos.)

Bem, as tais 122 ligações foram cabalmente desmentidas. A procuradora Suzana Fairbanks afirmou a jornalistas:”Conversa dela [Rose]com o Lula não existe. Nem conversa, nem áudio e nem e-mail. Não sei de onde saiu isso. Vocês podem virar de ponta cabeça o inquérito”.

Tudo bem publicar, antes, as ’122 ligações’ sem evidências? Faça isso nos Estados Unidos, e você saberá, na prática, o tormento pelo qual passou Francis.

Uma justiça mais moderna forçaria, no Brasil, a imprensa a ser mais responsável na publicação de escândalos atrás dos quais muitas vezes a razão primária é a necessidade de vender mais e repercutir mais.

Provas são fundamentais em acusações. Quando isso estiver consolidado na rotina do jornalismo e da justiça brasileira, a sociedade estará mais bem defendida do que está hoje.

Share

Como a Folha desmoraliza a própria Folha

Do site 247 – A família Frias, que controla o jornal Folha de S. Paulo, nunca advogou para o PT. Pelo contrário. No entanto, em editorial publicado no dia 25 de outubro, há menos de um mês, portanto, defendeu expressamente a tese de que as punições dos réus da Ação Penal 470 não fossem privativas de liberdade. “Há mais de dez anos, portanto muito antes do mensalão, sustenta-se aqui que a pena de prisão deveria ser destinada, em tese, aos que recorrem a violência física ou grave ameaça na consecução do delito de que são culpados”, afirma o texto, que conclui afirmando ser desnecessária a prisão dos eventuais culpados.

Ontem, na última sessão do STF sob o comando de Carlos Ayres Britto, o ministro Dias Toffoli levantou a questão. Disse que, no caso da Ação Penal 470, seria mais correta a punição financeira do que privativa de liberdade. “Aqui o intuito final era financeiro, não era violência, não era atentar contra a democracia e contra o Estado Democrático de Direito porque eles são muito mais sólidos do que isso. O intuito era o vil metal. Que se pague então com o vil metal”, disse ele. Toffoli comparou ainda o rigor das penas ao tempo de Torquemada, representante máximo da Inquisição.

Nesta quinta, em sua manchete, a Folha aborda o tema, mas desqualifica a posição de Toffoli, como se ela fosse a consequência do fato de, no passado, ter advogado para o PT. O texto interno reduz ainda mais a legitimidade do ministro para defender sua posição. “A participação de Toffoli gerou polêmica antes do início do julgamento pelo fato de ele ter sido advogado do PT e assessor da Casa Civil no período em que Dirceu comandava a pasta (Toffoli votou pela absolvição do petista). O ministro também namora advogada que participou da defesa de um dos réus”, afirma a reportagem.

Abaixo, o editorial da Folha, de 25 de outubro deste ano:

Para quem precisa

Os crimes são cometidos mediante violência ou fraude. No primeiro caso, só resta à sociedade prender os infratores –são perigosos demais para continuar à solta. Será adequado tratar todos os demais do mesmo modo?

Esta Folha tem argumentado que não. Há mais de dez anos, portanto muito antes do mensalão, sustenta-se aqui que a pena de prisão deveria ser destinada, em tese, aos que recorrem a violência física ou grave ameaça na consecução do delito de que são culpados.

As condições na maioria das cadeias brasileiras são abjetas. Mas a sociedade continua a abarrotá-las de indivíduos, condenados por juízes que fecham os olhos, como a efígie da Justiça, para a norma constitucional que proíbe “penas cruéis” e “tratamento degradante”.

São mais de 514 mil presos no país, num sistema que comporta 306 mil. Ao mesmo tempo, 153 mil mandados de prisão aguardam ser cumpridos, conforme o eufemismo judicial. Celerados estão livres, enquanto uma parcela de criminosos que não oferece o mesmo risco está detida.

Dizer que a prisão deveria reeducar é outra falácia. Claro que é preciso aumentar o número de vagas nos presídios, torná-los compatíveis com um país civilizado e compelir os detentos a trabalhar. Mesmo na Suécia, porém, os cárceres fazem jus ao clichê de que toda prisão é uma universidade do crime.

Constatá-lo não implica complacência. Delinquentes violentos devem ser submetidos a longuíssima privação de liberdade, e a progressão dessas penas deveria ser até mais difícil do que é.

Quanto aos outros, não faltam medidas duras à disposição do juiz: impedimento duradouro de exercer cargo público ou determinada profissão, restituição dos valores subtraídos e prestação de serviços à comunidade, que podem se tornar encargos severos quando prolongados –e são verificáveis pelos recursos da tecnologia eletrônica.

A indignação pública perante o escândalo do mensalão se expressa, contudo, no legítimo anseio de ver os culpados atrás das grades.

Sempre houve corrupção política, mas o governo Lula a praticou em escala sistêmica, sob o comando da camarilha então incrustada no ápice do Executivo e do partido que o controla. As punições hão de ser drásticas, e seu efeito, exemplar, mas sem a predisposição vingadora que parece governar certas decisões (e equívocos) do ministro Joaquim Barbosa.

Tendo arrostado um partido que continua no poder e cujo chefe desfruta de imensa popularidade, seria decerto pedir demais ao Supremo Tribunal Federal que fosse ainda além, condenando nosso sistema prisional ao evitar que esses réus sejam despachados, sem motivo inarredável que não a letra da lei, para o inferno das cadeias.

Tal desfecho estaria sujeito a interpretações perniciosas. Ignorou-se a lei, tudo termina em pizza, diriam muitos. Evitou-se que os mensaleiros se façam de mártires encarcerados, diriam outros. Nem por isso a prisão desses criminosos terá sido necessária.

 

Share

JORNAL FRANCÊS DENUNCIA CAMPANHA DA MÍDIA CONTRA LULA

Com o título “Une presse très remontée contre Lula”, a edição do jornal francês “Courrier” que chegou aos leitores nesta segunda-feira denuncia a campanha da velha mídia contra o presidente e sua candidata, Dilma Rousseff.

De acordo com o jornal, quatro famílias controlam os principais meios de comunicação do país: Marinho, proprietário de “O Globo” e da toda-poderosa TV Globo, Mesquista, do “O Estado de S.Paulo”, os Frias, donos da “Folha” e os Civita, Editora Abril que edita “Veja”.

“Eles nunca se aceitaram a eleição de Lula, considerado inculto e de origem humilde”, revela o “Courrier”.

Para continuar lendo, clique aqui.

Share

ESCREVER É COMO CARREGAR ÁGUA NA PENEIRA

Woden Madruga, o homem que só escreve em javanês, classificou a crise demo-tucana de melodrama. Ah, é? Não diga, meu bem!

Vocês já imaginaram o que diria o principal colunista do jornal “Tribunal do Norte” se o imbróglio tivesse ocorrido no curral do PT? Não quero nem pensar, mas posso garantir que melodrama, não seria.

Mesmo assim, dói quando rio.

Ah, sim, o “nobre” colunista reproduz trechos de um artigo do antropólogo Roberto da Matta sobre futebol, publicado no “Estadão”.

O texto é confuso, repleto de firulas linguísticas como a que segue abaixo:

Se Copérnico é o nosso mais desconhecido bandido, os liberais são os nossos maiores inimigos e os pensadores que descentralizam e igualam são os nossos neorreacionários, o futebol, que chegou via colonialismo, mas com o capitalismo e a disciplina fabrial, e que tem como fundo a experiência capitalista onde falar não era morrer e competir, matar,  resgata todo o nosso amor à salvação por meio do exclusivismo, e do messianismo, do primeiro lugar, da posse do caneco, do “ser” mais do que tornar-se campeão”.

Pois bem, apesar dessa canelada toda, Madruga, acreditem, compara o estilo de escrever do articulista ao craque Didi cujo futebol era simples como beber água.

Ernest Hemingway, este sim um craque da palavra, ensinava que para escrever bem as frases deviam ser curtas e diretas. É fácil? Não. Escrever é quase um parto, ou como notou o poeta Manoel de Barros, é como carregar água na peneira.

Garçon, um 12 anos aí por favor!

Share

YABADABADOO, SERRA

A “Veja” faz tempo abandonou o jornalismo para se transformar num panfleto partidário do candidato tucano José Serra. Há quem considere um tiro no próprio pé. Sou um deles. Isso não quer dizer que a revista não possa se posicionar como faz tradicionalmente a imprensa americana.

Mas lá a opção política dos jornais, tornada pública através de editoriais, não interfere na independência dos veículos. 

A imprensa brasileira, ao contrário, camufla sua opções rasgando seda para uma suposta neutralidade. Papo furado. Este escriba está vacinado contra essa vigarice.

Nos anos 1980 um amigo tentou me convencer que o semanário “Hora do Povo”, ligado ao MR-8, era um grande jornal. Hoje ele é leitor de “Veja”. 

Agora se vocês acham que estou exagerando, leiam abaixo trechos da coluna de Diogo Mainardi dessa semana cujo título é Yabadabadoo:

– Serra.

– Como é que é?

– O candidato é ele.

– Quem?

– José Serra.

– José Serra é o candidato?

– José Serra é o candidato a presidente pelo PSDB.

– Decidido?

– Decidido.

– Certeza?

– Certeza.

– Posso espalhar?

– Pode.

– Yabadabadoo.

Depois de passar meses e meses na pedreira, o PSDB, como Fred Flintstone, escorregou pelo rabo do dinossauro, montou em seu carro pré-histórico e – yabadabadoo – finalmente se pôs em marcha.

De hoje em diante, tudo muda. Aquela repórter da Folha de S.Paulo, que na semana passada estava pronta para anunciar que José Serra desistiria da disputa e que foi desmentida por seus próprios colegas, terá de arrumar outro jeito de colaborar com o PT. Ao contrário do que pretendia a imprensa pautada e manipulada por Franklin Martins, José Serra decidiu candidatar-se. Mais do que isso: José Serra, insolentemente, decidiu eleger-se presidente da República. De fato, ele acredita que pode eleger-se presidente da República sem o consentimento de Lula. E, se nas últimas semanas os jornais só discutiram o papel de Aécio Neves na campanha, agora o foco passa a ser outro, infinitamente menos aborrecido: o que José Serra poderá propor ao eleitorado para conseguir derrotar Dilma Rousseff, ou Senhora Pedregulho, a candidata de Lula.

O PSDB é lento para engrenar, como o carro pré-histórico de Fred Flintstone. Por isso, o anúncio da candidatura presidencial de José Serra, com fanfarra e fogos de artifício, só ocorrerá nos próximos dias. Mas ele ocorrerá.

– Quando?

– Quando o quê?

– Quando José Serra pretende anunciar sua candidatura?

– A data é o que menos importa. O que importa é que ele já decidiu.

– Aécio Neves será seu companheiro de chapa?

– Aposto que sim. Mas isso é para depois. Maio ou junho. O fato, agora, é que o PSDB tem um nome.

– Ele?

– Ele mesmo.

– Jura?

– Juro.

– Ele ainda pode recuar?

– De maneira nenhuma.

– Serra?

– Serra.

Share