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A arte de não se deixar enganar pelos larápios

Fim de semana de leituras com uma escapadinha rápida a Pipa para ver Stanley Jordan.

Ando debruçado na leitura de “Akhenaton, a história do homem contada por um gato”, do francês Gerard Vicent. É um livro delicioso, de primeiríssima qualidade, que retoma a tradição das fábulas. Através do personagem principal, o felino Akhenaton, Vincent analisa o comportamento do ser humano através da história. Pois é, o nome do gato que dá título ao livro é o mesmo do faraó que instituiu o monoteísmo no Egito.

Akhenaton é um felino abusado: assiste o noticiário de televisão, acompanha as pesquisas de opinião e de vez em quando surpreende os seres humanos com impressões agudas sobre eles: “Quando contemplo o homem inteirante nu, percebo tantas imperfeições que acho possuir o homem mais razões para cobrir-se do que qualquer animal”.

Akhenaton é sem dúvida, um felino humano, demasiadamente humano.

Sugestão de um amigo, comprei num sebo do Rio “Código dos homens honestos ou a arte de não se deixar enganar pelos larápios”. O livro é uma coletânea de regras básicas para se escapar ileso da horda de salafrários e bandidos que habitavam a Paris do começo do século XIX.

Bom, Paris não era esse antro de larápios, como o escritor faz crer no livro, embora eu entenda sua desesperança ao falar da “cidade luz” num momento sombrio, quando a população sobrevivia em meio a furtos, assassinatos e emboscadas. Há um livro que esmiúça a questão, de Andrew Hussey, chamado “A história secreta de Paris – como ladrões, vigaristas, cruzados, santas, prostitutas, déspotas, anarquistas, poetas e sonhadores transformaram um povoado gaulês na cidade luz da Europa”.

Balzac foi o primeiro a estudar a sociedade regida pelo dinheiro, e não por valores morais. Ele também foi o primeiro a introduzir em sua obra um personagem homossexual, Bautrin, que aparece em vários romances.

Sem trocadilho, Balzac retratou como nenhum outro escritor contemporâneo a comédia humana.

Merece de nós, leitores comuns, toda reverência.

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O mais maravilhoso hotel do mundo

O mais maravilhoso hotel do mundo é o Ritz de Paris com o famoso bar em que Ernest Hemingway escrevia e bebia com os amigos, não necessariamente nessa ordem. Isso tudo com vista para a Praça Vendôme.

O bar (hoje chamado Hemingway em homenagem ao escritor americano) era também o preferido de Coco Chanel cuja loja loja ficava ali perto. Depois ela se mudaria para o hotel onde morou até morrer.

Decoração art-déco, muito luxo, enormes banheiros originais. Tinha um barman que emprestava dinheiro a todo o mundo, o Porfírio Rubirosa era cliente dele.

Há um história curiosa protagonizada por Hemingway que morou alguns anos lá. O escritor se hospedou certo dia, em 1957 e a gerência lhe devolveu uns manuscritos que ele havia esquecido, acreditem, há 30 anos.

Agora vocês entendem porque o Ritz é o Ritz.

A propósito, sugiro a leitura de “Dormindo com o inimigo – a guerra secreta de Coco Chanel”, de Hal Vaughan. Trata-se de uma biografia onde o foco é a relação da estilista francesa com o nazismo.

Chanel, diz Vaughan, era uma anticomunista convicta, mas também antissemita, que se vendeu aos alemães porque acreditava que Hitler fosse derrotar Stalin.

É possível, admite Vaughan, que Chanel tenha sido manipulada pelo amante alemão, o barão Hans Gunther von Dincklage, que a recrutou como agente secreto do regime nazista (ele descobriu num documento da polícia francesa, datado de 1946, que a célebre estilista era agente da F-7124 de Abwehr, serviço de informação militar alemão, instalado durante a Ocupação no hotel Lutetia de Paris).

Chanel inaugurou o conceito de “menos é mais” na moda, quando criou o pretinho básico, livrando a mulher do espartilho.

Seus desenhos exploravam a simplicidade cara, dando às mulheres ricas uma aparência quase de pobres. E ela ganhou com isso. A genialidade, a generosidade, a loucura de Chanel, somadas ao sarcasmo, a um humor letal e a sua destrutividade maníaca, intrigavam e amedrontavam a todos.

Chanel se tornou um símbolo de uma nova época. Aos 35 anos, lançou o estilo simples ou casual nas roupas caras: os conjuntos de viagem em malha de lã e blusa de alfaitaria, vestidos esporte e sapatos baixos.

As revistas da época reproduziam suas criações. A “Harper’s Bazaar” declarou: “A mulher que não tem pelo menos um Chanel está irremediavelmente fora de moda”.

A sentença, pelo visto, continua atual.

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A VIDA NA CIDADE É EXCITANTE

Sou tão apaixonado pela vida urbana que raramente saio do meu bairro. Moro em Ponta Negra porque aqui tem tudo que aprecio: bares, restaurantes, cinemas, livrarias, mulheres bonitas e o ambiente é cosmopolita, impossível no restante da cidade.

E a vida aqui não para. Já morei no Centro quando o Centro era o centro de tudo.

Reitero, nada se compara a viver numa cidade por isso fico excitado quando escuto falar de Paris, Nova York, Budapeste, Amsterdam e Rio de Janeiro. A vida nesses lugares é excitante.

Este, aliás, é o tema do artigo de Ruy Castro na “Folha” desta sexta-feira.  Confiram:

Uma loja de discos que fecha suas portas no Rio, um cinema que faz o mesmo em São Paulo e sabe-se lá quantas livrarias brasileiras, principalmente as de pequeno porte, não estão correndo igual risco neste momento. Os espaços de convivência adulta e civilizada diminuem. Se podemos “baixar” discos, ver filmes no vídeo ou comprar livros pela internet, para que sair de casa, enfrentar o trânsito, lutar pelo estacionamento e roçar cotovelos com outros, ora veja, seres humanos?

O avanço da tecnologia parece nos conduzir à independência, à liberdade e à autossuficiência. Dito assim é bonito. Já não o será tanto se convertermos a frase à sua verdadeira essência -a de que tal avanço está nos condenando ao individualismo, ao egoísmo e à solidão. E não sei também se esse comodismo não denotará uma certa dose de covardia em relação à vida.

Você dirá que as cidades ficaram hostis, inseguras, impróprias para uso humano, e que bom que a tecnologia nos permite certos confortos. Eu diria que exatamente por isto deveríamos lutar pelas cidades -por cada cidadela de delicadeza que elas ainda comportem.

Um cinema que fecha é uma calçada, um pipoqueiro e uma fila a menos numa cidade. É mais um quarteirão sem luzes, sem movimento noturno e sem possibilidade de encontros, amigáveis ou amorosos. É um lugar a menos para flanar, para fazer hora, até para paquerar. E é também um cenário a menos para que os jovens descubram e troquem ideias sobre cultura, história, comportamento.

Não acho que os cinemas devam continuar abertos mesmo que às moscas. O que lamento é a perda dos ditos espaços de convivência nas cidades. Para cada cinema, loja de discos ou pequena livraria que sai de cena, um supermercado, banco ou farmácia toma o seu lugar, ocupa-o agressivamente e nos embrutece um pouco mais.

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