Comentei aqui uma entrevista que vi em DVD do roteirista Tonino Guerra, morto em março.
Tonino foi colaborador de Fellini, Vittorio de Sica, Antonioni, ou seja, a nata do cinema italiano do século passado.
O post era ilustrado com a sequência final de “Passageiro: Profissão Repórter” (1975), de Antonioni.
A cena é uma obra-prima.
Pois bem. Em seus diário, o crítico teatral inglês Kenneth Tynan (foto) reduziu o filme a pó de traque.
Criticou impiedosamente o elenco (“Jenny Runacre é tão má atriz que cheguei a achá-la incompetente demais para fazer parte do elenco de Oh! Calcutá! Já Maria Schneider e Jack Nicholson são tão pouco dirigidos que quase chegam a extinguir-se”) e chamou Antonioni de chato.
Tynam que na época vivia em Los Angeles, não estava em seus melhores dias.
Segue o trecho do seu diário:
7 DE JUNHO
Assisti ao novo Antonioni, O Passageiro: Profissão Repórter, adorado pelos críticos, especialmente Penelope Gilliatt. Deus do céu. Nas mãos de outro, poderia ser um filme de mistério para a televisão, banal mas interessante (com alguns toques pseudofilosóficos), sobre um jornalista alienado que assume a identidade de outro homem.
Nas mãos de Antonioni, é tudo menos interessante. É um tour guiado por algumas locações pitorescas – a Barcelona de Gaudí, Mojácar, o norte da África – sobre o qual os críticos escrevem como se Antonioni tivesse construído, ou até criado, os locais, e não apenas contratado um cinegrafista para fotografá-los.
O único clichê sobre identidade que não se encontra no filme é: “Por que você está fugindo de si mesmo?” E o único motivo para a ausência é que ele é inerente à situação básica. O pior de tudo é o trabalho dos atores. Jenny Runacre é tão má atriz que cheguei a achá-la incompetente demais para fazer parte do elenco de Oh! Calcutá! (do qual participou por seis meses). Maria Schneider e Jack Nicholson são tão pouco dirigidos que quase chegam a extinguir-se.
Não nos incomodamos tanto (e podemos até tolerar) a má interpretação, mas a má interpretação lenta é insuportável. A única questão interessante que resta, depois desse filme, é saber se Antonioni era realmente incapaz de lidar com seres humanos (além dos italianos, claro: gostei muito de O Eclipse).
Ainda assim, os críticos cobrem de elogios essa portentosa bobajada: Mulheres entram e saem da sala, Falando de Michelangelo. A tarefa do crítico – pelo menos 90% dela – é abrir caminho para o que é bom, demolindo o que é ruim. No momento, Antonioni está bloqueando o trânsito na rua. Ele quase me dá vontade de voltar ao trabalho de demolidor.


