« Voltar | Início » Posts tagged "VEJA"

O 7 de Setembro de 2013 não passou de 171 da velha mídia

O fiasco dos protestos agendados para o 7 de Setembro foi um grande fiasco. Quem perdeu foi a velha mídia que apostou suas fichas, acreditando que o ronco da rua acordaria o gigante adormecido. Nada mais fascista, não é mesmo? Bem, o jornalista Paulo Moreira Leite escreveu uma análise impecável a respeito cujo título é Crocodilos derrotados. Segue abaixo:

Nossos cronistas que tentam impedir que os condenados da Ação Penal 470 tenham direito a uma revisão adequada de suas penas e mesmo uma segunda jurisprudência perderam um argumento depois de ontem.

Numa postura autoritária, que confundia seus desejos com a realidade, falavam do monstro, do ronco, do demônio das ruas para justificar a prisão imediata dos condenados.

Mas tivemos protestos de participação modesta, que confirmam não só a vergonhosa ignorância da fatia conservadora da elite de nossos meios de comunicação quanto às preocupações reais que afligem a maioria da população, mas também sua total falta de compromisso com a apuração e divulgação de fatos verdadeiros e informações confiáveis.

Querem fazer propaganda, querem ideologia – e não é difícil entender a razão.

Interessados num eventual proveito político do julgamento, tentam chantagear as instituições da democracia, sem importar-se, sequer, com outros prejuízos de natureza cultural que o estimulo à baderna possa produzir.

Como observou Janio de Freitas, pela primeira vez na história as pessoas saíram a rua num 7 de setembro sem “incluir, sequer remotamente, algo da ideia de nacionalidade, ou de soberania, de independência mesmo.”

Diz ainda Janio: “pelo visto, não faria diferença se, em vez do Sete de Setembro, a celebração mais próxima fosse o Natal. Ou Finados.”

Lembrando que somos uma pátria de desiguais, o Grito dos Excluídos disse a que veio. Mas só.

Os demais não disseram nada, embora fosse sobre eles que se disse tudo – especialmente, que o STF deveria se acovardar.

Há um componente maligno e manipulador nesse esforço para anunciar que um protesto será uma manifestação grandiosa.

Procura-se estimular o efeito manada naquele conjunto de cidadãos capazes de sair a rua porque acham que “todo mundo vai estar lá”. Numa sociedade pouco organizada como a nossa, onde os partidos políticos são o que são e as demais organizações sociais são aquilo que se conhece, muitas pessoas sentem-se desenraizadas e sem compromisso social maior. Ficam impressionadas com demonstrações de força.

Tenta-se contaminar nestes indivíduos um sentimento de solidão e isolamento caso não acompanhem os atos daqueles que se quer transformar numa “maioria” que ninguém ouviu nem diz onde mora nem sabe o que pensa – e muitas vezes nem pode ver o rosto, o que não é casual. Continuar lendo

Share

Mais médico, menos hipocrisia

Médicos cubanos -Veja em 1999

Quando eu digo e repito que quem lê a velha mídia mal fala, mal ouve, mal se informa e mal se vê não estou exagerando. A Veja, pasmem, já defendeu a vinda ao país de médicos cubanos. Na época do governo FHC, obviamente.

Na edição de 20 de outubro de 1999, a revista publicou reportagem elogiando a iniciativa do ministério da Saúde. Assinada pelo repórter Leonel Rocha, a matéria começava assim:

“Inaugurado no começo de 1995, o único hospital de Arraias, um município muito pobre com apenas 12.000 habitantes fincado no Estado do Tocantins, teve de permanecer fechado por quatro anos. O motivo não poderia ser mais bizarro. Faltavam médicos que quisessem aventurar-se por aquele fim de mundo. O que o hospital oferecia não era desprezível: salário inicial de 2.000 reais e ajuda para moradia. Só há onze meses o hospital foi finalmente reaberto. O milagre veio de Cuba. Enfim, Arraias conseguiu importar cinco médicos da ilha de Fidel e, assim, abrir as portas do hospital.”

A reportagem prossegue com elogios aos profissionais cubanos. O desfecho é hilariante se compararmos com a posição atual da revista. O que diz a Veja? Segue abaixo:

“Os cubanos são bem-vindos, mas existe um problema. A contratação desses médicos é irregular perante as leis do Brasil. Eles precisam da revalidação do diploma numa universidade brasileira para atuar no país. Com base nessa desculpa burocrática, o Conselho Federal de Medicina denunciou as contratações ao Ministério Público pedindo o cancelamento dos convênios. “Não somos xenófobos, mas não há motivo para trazer médicos de fora e tirar o emprego dos profissionais daqui”, diz Edson de Oliveira Andrade, presidente da entidade. O doutor Andrade e seu douto conselho deveriam explicar então por que faltavam médicos brasileiros nas cidades miseráveis que agora estão sendo atendidas pelos cubanos”.

O que o Brasil precisa é de Mais médico e menos hipocrisia. O conselho pode ser estendido para certos colunistas da imprensa.

Share

O padrão Chatô de jornalismo

Em texto exclusivo para o 247, o escritor Fernando Morais narra como, em meados do século passado, Assis Chateaubriand encomendou ao diretor do “Estado de Minas” uma reportagem sobre o estupro supostamente cometido pelo arcebispo de Belo Horizonte Dom Cabral contra a própria irmã, apesar do religioso ser filho único.

Para quem não sabe, Fernando Morais é autor da biografia de Chateaubriand, “O rei do Brasil”. Segue o texto na íntegra:

Por Fernando Morais

As agressões e infâmias dirigidas por alguns jornais, revistas, blogs e telejornais ao ex-presidente Lula e ao ex-ministro José Dirceu me fazem lembrar um episódio ocorrido em Belo Horizonte em meados do século passado.

Todas as sextas-feiras o grande cronista Rubem Braga assinava uma coluna no jornal “Estado de Minas”, o principal órgão dos Diários Associados em Minas Gerais. Irreverente e anticlerical, certa vez Braga escreveu uma crônica considerada desrespeitosa à figura de Nossa Senhora de Lourdes, padroeira de Belo Horizonte. Herege, em si, aos olhos da conservadora sociedade mineira o artigo adquiriu tons ainda mais explosivos pela casualidade de ter sido publicado numa Sexta-Feira da Paixão.

Indignado, o arcebispo metropolitano Dom Antonio dos Santos Cabral redigiu uma dura homilia recomendando aos mineiros que deixassem de assinar, comprar e sobretudo de ler o “Estado de Minas”. Dois dias depois o documento foi lido na missa de domingo de todas as quinhentas e tantas paróquias de Minas Gerais.

O míssil disparado pelo religioso jogou no chão a vendagem daquele que era, até então, o mais prestigioso jornal do Estado. E logo repercutiu no Rio de Janeiro. Mais precisamente na mesa do pequenino paraibano Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, um império com rádios e jornais espalhados por todos os cantos do Brasil.

Célebre pela fama de jamais engolir desaforos, o colérico Chateaubriand telefonou para Geraldo Teixeira da Costa, diretor do “Estado de Minas”, com uma ordem expressa, repleta de exclamações:

– Seu Gegê! Quero uma reportagem de página inteira contando que quando jovem Dom Cabral estuprou a própria irmã! O senhor tem uma semana para publicar isso!

Tamanha barbaridade não passaria pela cabeça de quem quer que conhecesse o austero Dom Cabral, cujas virtudes haviam levado o Papa Pio XI a agraciá-lo com o título de Conde. Mas ordens eram ordens.

Os dias se passavam e a reportagem não aparecia no jornal. Duas semanas depois do ultimato, um Chateaubriand possuído pelo demônio ligou de novo para Belo Horizonte:

– Seu Gegê! Seu Gegê! O senhor esqueceu quem é que manda nesta merda de jornal? O senhor esqueceu quem é que paga seu salario, seu Gegê? Cadê a reportagem sobre o estupro incestuoso cometido por Dom Cabral?

Do outro lado da linha, um pálido e tremebundo Gegê gaguejou:

– Doutor Assis, temos um problema. Descobrimos que Dom Cabral é filho único, não tem e nunca teve irmãs…

Sapateando sobre o tapete, Chateaubriand parecia tomado por um surto nervoso:

– TEMOS um problema? Seu Gegê, nós não temos problema algum! Isso é um problema de Dom Cabral! Publique a reportagem! Cabe A ELE provar que não tem irmãs,entendeu, seu Gegê? Vou repetir, seu Gegê: cabe A ELE provar que não tem irmãs!!

Passadas oito décadas, suspeito que Chatô exumou-se do Cemitério do Araçá e, de peixeira na cinta, encarnou nos blogueiros limpos e nos editores dos principais jornais e revistas brasileiros.

Como no caso de Dom Cabral, cabe a Lula provar que não marchou com a família e com Deus, em 1964, quando tinha 18 anos, pedindo aos militares que derrubassem o governo do presidente João Goulart. Cabe a Dirceu provar que não foi o chefe do chamado mensalão.

Share

JORNALISMO MARROM

As ligações de “Veja” com Daniel Dantas são cada vez mais claras. O bloqueio por parte da justiça de quase 2 bilhões de reais do banqueiro não mereceu um linha da revista. Veja (com o perdão pelo trocadilho) o que o jornalista Luis Nassif escreveu sobre o assunto:

Não é uma notícia banal: é o maior bloqueio de recursos brasileiros da história, um dos maiores de todo o movimento mundial de combate ao crime organizado.

Mas a editoria de Brasil, da “Veja”, achou mais importante as seguintes matérias:

1. A Cartilha dos Guerrilheiros do MST.

2. Alckmin se alia a Serra (notícia que todos os jornais e sites e blogs deram durante a semana).

3. Newtão reclama: “Sou muito mais rico”, sobre a fortuna do ex-governador mineiro Newton Cardoso.

4. Pará: irmão de governadora acusado de molestar criança.

5 Terrorismo: “Caso Battisti pode ser decidido pelo Supremo” (notícia velha).

Nada que não possa ser atribuído a coincidências. Na semana passada Veja enalteceu Tarso, pelo caso Battisti, elogiou várias Lula e Dilma. Muitos leitores comentaram que parecia que o acordão havia sido selado.

No meio da semana explode a apreensão dos US$ 2 bi.

Veja nada noticia. Aliás, apenas ela e a IstoÉ deixaram de noticiar. E faz uma matéria especial sobre Battisti, desmentindo os elogios ao Tarso, que saíram na própria Carta do Editor.

Já disse algumas vezes: não seria possível desvendar essa trama intrincada não fosse o extraordinário amadorismo das peças centrais desse jogo.

Share