TECENDO MANHÃS
Seu João Cabral me ensinou que um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará sempre de outros galos. De certa forma, não estou sozinho. Há outros galos anunciando mais um alvorecer. Eles estão encarnados nos livros, discos e filmes que me cercam.
Eles – e mais ninguém - me fazem refletir sobre o que é a liberdade. “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”, diz o verso de Fernando Pessoa.
Minha rotina é nesse ambiente. Durmo sempre depois da meia noite e acordo às 7 horas. Quase não saio de casa. Pareço o Professor Higgins, de “My Fair Lady”, que, de tão fascinado pelo trabalho, não tinha vida social.
Nada me estressa. Assim como ele, faço tudo com prazer. Não sou especialista em nada. Meu campo de interesse é o bom gosto. Seja na literatura, no cinema e na música. Trabalho me divertindo. Ou saboreando, como diz um amigo meu. O estilo é o homem.
Acabei de ler o breve ensaio autobriográfico de Jorge Luis Borges. Um livro curto e fascinante. Parece que foi escrito especialmente pra mim. Diz ele:
Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranquila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenho escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem.
Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la.
Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado.
Perfeito.



Carregando...