Aílton Medeiros
"Não consigo tomar partido por um sujeito, por um partido, por uma classe, por um país, por um filósofo, ou mesmo por uma filosofia, por um poeta, por uma escola literária, por um regime político. Tenho horror ao um..." (Alceu Amoroso Lima)

VALEU A PENA

Entrei a madrugada ouvindo o CD Pessoa em Remix onde Jô Soares declama, com sotaque lusitano, treze poemas de Fernando Pessoa.
Jô é acompanhado pelo tecladista Billy Forghieri  que criou arranjos musicais que vão do clássico ao hip hop, do rock ao jazz.

É impossível ficar imune a tanta beleza. Alguns exemplos:

À porta do casebre
O meu coração vazio
O meu coração insatisfeito
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.
(“Ao Volante do Chevrolet”).

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

(“Ah, Um Soneto”).

O disco começa com “Sou Eu”, de Álvaro de Campos, um dos heterônimos adotados pelo poeta português:

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Seguem “O Menino da sua Mãe”, “Aniversário”, “Dobrada à Moda do Porto”, “Liberdade”, “Poema em Linha Reta”, (“Arre, estou farto de semideuses!/Onde é que há gente no mundo?/ Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”), “Autopsicografia” (“O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”.), “Adiamento” (“Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo”.) e “Começa a Haver”.
O CD encerra-se com o poema “Cruzou por Mim”, também de Álvaro de Campos.

Vocês devem ter notado que “Tabacaria” ficou de fora (“Não sou nada. Nunca serei nada, Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.)

A explicação do apresentador é que sua leitura dura 12 minutos causaria um desequilíbrio na estrutura da montagem do espetáculo e do CD.

Mesmo assim, valeu a pena?

Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

2 respostas para 'VALEU A PENA'

  1. acmmendes Diz:

    Ainda não conferi.
    ¬¬

  2. William Forghieri Diz:

    Valeu Ailton!!!!ficou muito bom mesmo, apesar deu ser suspeito pra falar, mais eu gostei muito do resultado.Abraço

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